
GRACILIANO RAMOS



INFNCIA







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Editora Record
OBRAS DE GRACILIANO RAMOS


Caets  romance
So Bernardo  romance
Angstia  romance
Vidas Secas  romance
Infncia  memrias
Insnia  contos
Memrias Do Crcere  memrias
Viagem  impresses sobre a Tcheco-Eslovquia e a URSS
Linhas Tortas  crnicas
Viventes Das Alagoas  crnicas
Alexandre E Outros Heris  ("Histrias de Alexandre", "A Terra dos Meninos Pelados" e "Pequena Histria da Repblica")




INFNCIA - Rio, 1945; 2 ed. Rio, 1952; 3 ed. Rio, 1953; 4 ed. Rio, 1955; 5 ed. S. Paulo, 1961; 6 ed. S. Paulo, 1967; 7 ed. S. Paulo, 1969; 8a ed. S. Paulo, 1970; 9a ed. S. Paulo, 1972; 10a ed. Rio, S. Paulo, Record, 1975; 11a ed. Rio, S. Paulo, Record, 1976; 12a ed. Rio, S. Paulo, Record, 1977; 13a e 14a ed. Rio, S. Paulo, Record, 1978; 15a ed. Rio, S. Paulo, Record, 1979; 16a ed. Rio, S. Paulo, Record, 1980; 17a ed. Rio, S. Paulo, 1981.

Edies estrangeiras: Frana, listados Unidos, Itlia, URSS, Tcheco-Eslovquia, Polnia, Alemanha, Espanha, Hungria, Bulgria, Romnia, Finlndia e Holanda.
     
INFNCIA 17 edio
Posfcio
OCTVIO DE FARIA
Ilustraes
DARCY PENTEADO
Capa
FLORIANO TEIXEIRA




FICHA CATALOGRFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte,
Cmara Brasileira do Livro, SP)

Ramos, Graciliano, 1892-1953. 
R143i 	Infncia; posfcio de Octvio de Faria, ilustraes de Darcy Penteado. 17 ed. Rio, Record, 1981. 275 p. ilust.

I. Ramos, Graciliano, 1892-1953. I. Faria Octvio de, 1908  II. Penteado, Darcy, 1926  III. Ttulo.
	B
72-0098 	CDD  928.699

ndice para catlogo sistemtico
1. Brasil: Escritores: Biografia 928.699








Direitos desta edio:
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S. A.
Rua Argentina 171 - 20921 - Tel.: 284-2037 Rio de Janeiro, RJ
Rua Jos Antnio Coelho, 801 - Tel.: 549-8333 - 04011 - So Paulo, SP

Impresso no Brasil


NDICE*

      Nuvens		 9
      Manh 	 	20
      Vero 	 		26
      Um cinturo 		31
      Uma bebedeira 		36
      Chegada  vila 		44
      A vila 	 		49
      Vida nova 	 	57
      Padre Joo Incio 	62
      O fim do mundo 	 	69
      O inferno		77
      O moleque Jos 	82
      Um incndio 	 	89
      Jos da Luz 	 	96
      Leitura	 		104
      Escola 	 	110
      D. Maria 	 	118
      O Baro de Macabas 	126
      Meu av 	 	131
      Cegueira 	 	138
      Chico Brabo 	 	145
      Jos Leonardo 	 	153
      Minha irm natural 	158
      Antnio Vale 	 	166
      Mudana 	 	169
      Adelaide 	 	173
      Um enterro 	 	180
      Um novo professor 	188
      Um intervalo 	 	193
      Os astrnomos 	 	199
      Samuel Smiles 	 	205
      O menino da mata 
e o seu co Piloto 	 	210
      Fernando 	 	215
      Jernimo Barreto	220
      Venta-Romba 	 	227
      Mrio Veraneio 	 	236
      Seu Ramiro 	 	242
      A criana infeliz 	 	247
      Laura	 		253

POSFACIO
Graciliano Ramos e o Sentido do Humano  Octvio de Faria	 261


* A Numerao de pginas do ndice corresponde ao original impresso.
PS: As pginas esto numeradas de acordo com o documento original, indicando sempre o final de cada uma, entre colchetes.

Nuvens




A primeira coisa que guardei na memria foi um vaso de loua vidrada, cheio de pitombas, escondido atrs de uma porta. Ignoro onde o vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto no desaguasse noutro posterior, julg-lo-ia sonho. Talvez nem me recorde bem do vaso:  possvel que a imagem, brilhante e esguia, permanea por eu a ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, no conservo a lembrana de uma alfaia esquisita, mas a reproduo dela, corroborada por indivduos que lhe fixaram o contedo e a forma. De qualquer modo a apario deve ter sido real. Inculcaram-me nesse tempo a noo de pitombas  e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esfricos. Depois me explicaram que a generalizao era um erro, e isto me perturbou.
     Houve uma segunda aberta entre as nuvens espessas que me cobriam: percebi muitas caras, palavras insensatas. Que idade teria eu? Pelas [pg. 009] contas de minha me, andava em dois ou trs anos. A recordao de uma hora ou de alguns minutos longnquos no me faz supor que a minha cabea fosse boa. No. Era, tanto quanto posso imaginar, bastante ordinria. Creio que se tornou uma pssima cabea. Mas daquela hora antiga, daqueles minutos, lembro-me perfeitamente.
     Achava-me numa vasta sala, de paredes sujas. Com certeza no era vasta, como presumi: visitei outras semelhantes, bem mesquinhas. Contudo pareceu-me enorme. Defronte alargava-se um ptio, enorme tambm, e no fim do ptio cresciam rvores enormes, carregadas de pitombas. Algum mudou as pitombas em laranjas. No gostei da correo: laranjas, provavelmente j vistas, nada significavam.
     A sala estava cheia de gente. Um velho de barbas longas dominava uma negra mesa, e diversos meninos, em bancos sem encostos, seguravam folhas de papel e esgoelavam-se:
      Um b com um a  b, a: ba; um b com um e  b, e: be.
     Assim por diante, at u. Em escolas primrias da roa ouvi cantarem a soletrao de vrias maneiras. Nenhuma como aquela, e a toada nica, as letras e as pitombas convencem-me de que a sala, as rvores, transformadas em laranjeiras, os bancos, a mesa, o professor e os alunos existiram. Tudo  bem ntido, muito mais ntido que o vaso. Em p, junto ao barbado, uma grande moa, que para o futuro adquiriu os traos de minha irm natural, tinha nas mos um folheto e gemia:
      A, B, C, D, E.
     De repente me senti longe, num fundo de casa, mas ignoro de que jeito me levaram para l, [pg. 010] quem me levou. Dois ou trs vultos desceram ao quintal, de terra vermelha molhada, algum escorregou, abriu no cho um risco profundo. Mandaram-me descer tambm. Resisti: o degrau que me separava do terreiro era alto demais para as minhas pernas. Transportaram-me  e adormeci, no cheguei a pisar no barro vermelho. Acordei numa espcie de cozinha, sob um teto baixo, de palha, entre homens que vestiam camisas brancas. Um deles perguntou como se havia de assar o bacalhau e outro respondeu:
      Faz-se um grajau de madeira.
     Grajau? Que seria grajau? Tornei a mergulhar no sono, um sono extenso.
     Disseram-me depois que a escola nos servira de pouso numa viagem. Tnhamos deixado a cidadezinha onde vivamos, em Alagoas, e entrvamos no serto de Pernambuco, eu, meu pai, minha me, duas irms. Mas pai e me, entidades prximas e dominadoras, as duas irms, uma natural, mais velha que eu, a outra legtima, direita, dois anos mais nova, eram manchas paradas. Positivamente havia pitombas e um vaso de loua, esguio, oculto atrs de um mvel a que a experincia deu o nome de porta. Surgiram repentinamente a sala espaosa, o velho, as crianas, a moa, bancos, mesa, rvores, sujeitos de camisas brancas. E sons estranhos tambm surgiram: letras, slabas, palavras misteriosas. Nada mais.
     E a hibernao continuou, inrcia raramente perturbada por estremecimentos que me aparecem hoje como rasges num tecido negro. Passam atravs desses rasges figuras indecisas: Amaro Vaqueiro, caboclo triste, encourado num gibo roto; [pg. 011] Sinha Leopoldina, companheira dele, vistosa na chita cor de sangue; mulheres que fumavam cachimbo. Mais vivo que todos, avulta um rapago aprumado e forte, de olhos claros, risonho. Calava alpercatas, vestia a camisa branca de algodo que usa o sertanejo pobre do Nordeste, spera, encardida, ordinariamente desabotoada, as pontas das aberturas laterais presas em dois ns. Chamava-se Jos Baa e tornou-se meu amigo, com barulho, exclamaes, onomatopias e gargalhadas sonoras. Sentado, escanchava-me nas pernas e sacudia-me, sapateava, imitando o galope de um cavalo; em p, segurava-me os braos, punha-se a rodopiar, cantando:
     
Eu nasci de sete meses, 
Fui criado sem mamar. 
Bebi leite de cem vacas 
Na porteira do curral
     
     Quando me soltava, eu cambaleava, zonzo. Um dia, livre dos giros vertiginosos, sa aos tombos, esbarrei com um esteio e ganhei um calombo grosso na testa.
     Datam desse tempo as minhas mais antigas recordaes do ambiente onde me desenvolvi como um pequeno animal. At ento algumas pessoas, ou fragmentos de pessoas, tinham-se manifestado, mas para bem dizer viviam fora do espao. Comearam pouco a pouco a localizar-se, o que me transtornou. Apareceram lugares imprecisos, e entre eles no havia continuidade. Pontos nebulosos, ilhas esboando-se no universo vazio.
     A cabeada valente que dei, solto das garras de Jos Baa, firmou o copiar, sustentado por colunas [pg. 012] robustas, de aroeira ou sucupira. Ali perto era a sala, de janelas sempre fechadas, armas de fogo e instrumentos agrcolas pelos cantos, arreios suspensos em ganchos, teias de aranha, a rede segura em armadores de pau, grosseiros caixes verdes, depsitos de cereais, se no me engano. No corredor desembocavam camarinhas cheias de treva e a sala de jantar. A cozinha desapareceu, mas o quintal subsiste, duro e nu, sem flores, sem verdura, tendo por nico adorno, ao fundo, junto a montes de lixo, um p-de-turco, timo para a gente se esconder nas perseguies. Desse lado o p-de-turco marcava o limite do mundo. Do outro lado a terra se estendia por longas distncias. A casa, de material rijo, estava completa por dentro. Mas exteriormente havia nela singularidades. O oito esquerdo era de altura incrvel;  direita faltava oito, no sei como o telhado podia equilibrar-se. Talvez currais e chiqueiros, construdos na vizinhana, ocultassem um dos muros. Chiqueiros e currais esvaram-se.
     Durante um redemoinho brabo notei esquisitices. Nuvens de poeira enrolaram-se em briga feia, escureceu, um rumor diferente dos outros rumores cresceu, espalhou-se, e no meio da terrvel desordem um couro de boi espichado quebrou o relho que o amarrava a um galho e voou no turbilho. Uma senhora magra, minha indistinta me, tentou com desespero fechar uma porta balanada pela ventania. Folhas e garranchos entraram na sala, um bicho zangado soprou ou assobiou, a mulher agitou-se pendurada na chave. Findo o despropsito, vi a pessoinha com a mo envolta em panos. Um dedo inchou demais, e foi necessrio que lhe [pg. 013] cortassem o anel com lima. Em seguida perdi a moa de vista. E a letargia continuou.
     O ptio, que se desdobrava diante do copiar, era imenso, julgo que no me atreveria a percorr-lo. O fim dele tocava o cu. Um dia, entretanto, achei-me alm do ptio, alm do cu. Como cheguei ali no sei. Homens cavavam o cho, um buraco se abria, medonho, precipcio que me encolhia apavorado entre montanhas erguidas nas bordas. Para que estariam fazendo aquela toca profunda? Para que estariam construindo aqueles montes que um p envolvia como fumaa? Retra-me na admirao que me causava o extraordinrio formigueiro. As formigas suavam, as camisas brancas tingiam-se, enegreciam, ferramentas cravavam-se na terra, outras jogavam para cima o nevoeiro que formava os morros.
     Nova soluo de continuidade. As sombras me envolveram, quase impenetrveis, cortadas por vagos clares: os brincos e a cara morena de Sinha Leopoldina, o gibo de Amaro Vaqueiro, os dentes alvos de Jos Baa, um vulto de menina bonita, minha irm natural, vozes speras, berros de animais ligando-se  fala humana. O moleque Jos ainda no se tinha revelado. Meu pai e minha me conservavam-se grandes, temerosos, incgnitos. Revejo pedaos deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lbios, mos grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouo pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas, batecum de sapates no tijolo gasto. Retalhos e sons dispersavam-se. Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor. Depois as mos finas se afastaram das grossas, lentamente se delinearam dois seres que me impuseram obedincia e respeito. Habituei-me a essas mos, cheguei [pg. 014] a gostar delas. Nunca as finas me trataram bem, mas s vezes molhavam-se de lgrimas  e os meus receios esmoreciam. As grossas, muito rudes, abrandavam em certos momentos. O vozeiro que as comandava perdia a aspereza, um riso cavernoso estrondava  e os perigos ocultos em todos os recantos fugiam, deixavam em sossego os viventes midos: alguns cachorros, um casal de moleques, duas meninas e eu. De repente surgiu a terceira irm, insignificncia, nos braos de Sinha Leopoldina. No fiz caso disso.
     O que ento me pasmou foi o aude, maravilha, gua infinita onde patos e marrecos nadavam. Surpreenderam-me essas criaturas capazes de viver no lquido. O mundo era complicado. O maior volume de gua conhecido antes continha-se no bojo de um pote  e aquele enorme vaso metido no cho, coberto de folhas verdes, flores, aves que mergulhavam de cabea para baixo, desarranjava-me a cincia. Com dificuldade, estabeleci relao entre o fenmeno singular e a cova fumacenta. Esta, porm, fora aberta numa regio distante, e o aude se estirava defronte da casa. Estava ali, mas tinha caprichos, mudava de lugar, no se aquietava, era uma coisa vagabunda.
     A vazante das abboras, por exemplo, ficava longe. Sozinho, no me seria possvel atingi-la. Dez ou vinte aboboreiras na terra de aluvio. Amaro havia dito que uma bastava. Se o inverno viesse, aquele despotismo seria estrago; chegando a seca, no se colheria um fruto, ainda que enterrassem na lama todas as sementes. Meu pai desprezou o conselho do caboclo  e o resultado foi uma praga de abboras. A princpio uns cordezinhos se torceram na vaza, enfeitaram-se de botes [pg. 015] amarelos, de pequenas cabaas. Um homem carrancudo examinava-as, marchando vagaroso. Era um meu tio, hspede, convidado para ser padrinho da insignificncia que berrava nos cueiros. Ofereceu-me uma caixa de fogos de artifcios, desapareceu  e no ponto onde o conheci as vergnteas floridas engrossaram, tornaram-se cordas robustas, peludas. E as abboras cresceram, tantas que a gente andava na roa pisando em cima delas. Juntavam-se, enganchavam-se duas, trs, num bloco, figuravam bela calada movedia. Os caus enchiam-se. Acomodava-me numa carga e l nos amos sacolejando, eu e o animal, em caminhos esburacados. Abarrotaram-se os caixes da sala, fizeram-se tulhas no alpendre, nos quartos. E a produo levantava-se, espalhava-se, desvalorizada. Escancararam-se afinal as porteiras, houve licena para que toda a gente se abastecesse. Franqueza v: saciada a populao escassa, empanzinada a meia dzia de porcos da fazenda, a safra intil apodreceu no campo.
     Nesse tempo meu pai e minha me estavam caracterizados: um homem srio, de testa larga, uma das mais belas testas que j vi, dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, bossas na cabea mal protegida por um cabelinho ralo, boca m, olhos maus que em momentos de clera se inflamavam com um brilho de loucura. Esses dois entes difceis ajustavam-se. Na harmonia conjugai a voz dele perdia a violncia, tomava inflexes estranhas, balbuciava carcias decentes. Ela se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que nos batiam no cocuruto, dobrados, e tinham dureza de martelos. Qualquer futilidade, porm, ranger de [pg. 016] dobradia ou choro de criana, lhe restitua o azedume e a inquietao.
     Zangava-se ouvindo algum afastar-se da sua prosdia curiosa. Suponho que nunca houve outra igual. A sintaxe e o vocabulrio tambm diferiam bastante do que usamos comumente. Nessa linguagem capenga, D. Maria matracava um longo romance de quatro volumes, lido com apuro, relido, pulverizado, e contos que me pareciam absurdos. De um deles ressurgem vagas expresses: tributo, papa-rato, maluquices que vm, fogem, tornam a voltar. Tento arred-las, pensar no aude, nos mergulhes, nas cantigas de Jos Baa, mas os disparates me perseguem. Lentamente adquirem sentido e uma historieta se esboa:
Acorde, seu papa...
     
     Papa qu? Julgo a princpio que se trata de papa-figo, vejo que me engano, lembro-me de papa-rato e finalmente de papa-hstia.  papa-hstia, sem dvida:
Acorde, seu Papa-hstia, 
Nos braos de...
     
     Nova pausa. Trs ou quatro slabas manhosas dissimulam-se obstinadas. Despontam algumas, que experimento e abandono, imprestveis. Enquanto procuro desviar as idias, a impertinncia se insinua no meu esprito, arrasta-me para a sala escura, cheia de abboras. Subitamente as fugitivas aparecem e com elas o incio da narrativa:
Acorde, seu Papa-hstia,
Nos braos de Folgazona. [pg. 017]
     
     A temos uma alterao:

Levante, seu Papa-hstia, 
Dos braos de Folgazona.
     
     Outra emenda. O hbito de corrigir a lngua falada instiga-me a consertar o primeiro verso:
     
Levante-se, Papa-hstia.
     
     Vacilo um minuto, buscando c por dentro a forma exata da composio. Persuado-me enfim de que minha me dizia:
     
Levante, seu Papa-hstia.
     
     E repete-se a aventura seguinte, que D. Maria recitava embalando-se na rede, perto dos caixes verdes. Um menino pobre foi recebido caridosamente em casa de certo Vigrio amancebado. Temendo ver na rua os seus podres, o Reverendo ensinou ao pequeno uma gria extravagante que baldaria qualquer indiscrio possvel. Afirmou que se chamava Papa-hstia e  amante deu o nome de Folgazona; gato era papa-rato, fogo era tributo. Esqueci o resto, e no consigo adivinhar por que razo tributo serviu para designar fogo. Seguros de que o rapaz no os denunciaria, o padre e a rapariga comearam a maltrat-lo. No se mencionou o gnero dos maus tratos, mas calculei que deviam assemelhar-se aos que meus pais me infligiam: bolos, chicotadas, cocorotes, puxes de orelhas. Acostumaram-me a isto muito cedo  e em conseqncia admirei o menino pobre, que, depois de numerosos padecimentos, realizou feito notvel: prendeu no rabo de um gato um pano embebido em querosene, acendeu-o, escapuliu-se gritando: [pg. 018]
     
Levante, seu Papa-hstia, 
Dos braos de Folgazona. 
Venha ver o papa-rato 
Com um tributo no rabo.
     
     Falta meia dzia de linhas, no chego a reconstitu-las. Sei que, tendo-se queimado roupas e mveis, a histria finda assim, furiosamente:

Acuda com todos os diabos.
     
     Esta obra de arte popular at hoje se conservou indita, creio eu. Foi uma dificuldade lembrar-me dela, porque a faanha do garoto me envergonhava talvez e precisei extingui-la. Ouvindo a modesta epopia, com certeza desejei exibir energia e ferocidade. Infelizmente no tenho jeito para violncia. Encolhido e silencioso, agentando cascudos, limitei-me a aprovar a coragem do menino vingativo. Mais tarde, entrando na vida, continuei a venerar a deciso e o herosmo, quando isto se grava no papel e os gatos se transformam em papa-ratos. De perto, os indivduos capazes de amarrar fachos nos rabos dos gatos nunca me causaram admirao. Realmente so espantosos, mas  necessrio v-los a distncia, modificados. [pg.019]
     
Manh




MERGULHEI numa comprida manh de inverno. O aude apojado, a roa verde, amarela e vermelha, os caminhos estreitos mudados em riachos, ficaram-me na alma. Depois veio a seca. rvores pelaram-se, bichos morreram, o sol cresceu, bebeu as guas, e ventos mornos espalharam na terra queimada uma poeira cinzenta. Olhando-me por dentro, percebo com desgosto a segunda paisagem. Devastao, calcinao. Nesta vida lenta sinto-me coagido entre duas situaes contraditrias  uma longa noite, um dia imenso e enervante, favorvel  modorra. Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes.
     Naquele tempo a escurido se ia dissipando, vagarosa. Acordei, reuni pedaos de pessoas e de coisas, pedaos de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente. s vezes as peas se descolocavam  e surgiam estranhas mudanas. Os objetos se tornavam irreconhecveis, e a humanidade, [pg. 020] feita de indivduos que me atormentavam e indivduos que no me atormentavam, perdia os caractersticos.
     Bem e mal ainda no existiam, faltava razo para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figuravam na ordem dos acontecimentos, partiam sempre de seres determinados, como a chuva e o sol vinham do cu. E o cu era terrvel, e os donos da casa eram fortes. Ora, sucedia que minha me abrandava de repente e meu pai, silencioso, explosivo, resolvia contar-me histrias. Admirava-me, aceitava a lei nova, ingnuo, admitia que a natureza se houvesse modificado. Fechava-se o doce parntese  e isto me desorientava.
     Na manh de inverno as cercas e as plantas quase se dissolviam, a neblina vestia o campo, dos montes de lixo do quintal subia fumaa, pingos espaados caam das goteiras, a cruviana mordia a gente. Sapates de vaqueiros depositavam grossas camadas de barro no tijolo. Roupas molhadas deixavam manchas largas nos bancos do copiar. As paredes midas enegreciam. Deitava-me na rede, encolhia-me, enrolava-me nas varandas. Um candeeiro de querosene lambia a nvoa com labaredas trmulas.
     Alguns viventes idosos chegavam, sumiam-se, tornavam a manifestar-se depois de longas ausncias. De um deles, meu av paterno, ficaram notcias vagas e um retrato desbotado no lbum que se guardava no ba. Legou-me talvez a vocao absurda para as coisas inteis. Era um velho tmido, que no gozava, suponho, muito prestgio na famlia. Possura engenhos na mata; enganado [pg. 021] por amigos e parentes sagazes, arruinara e dependia dos filhos. s vezes endireitava o espinhao, o antigo proprietrio ressurgia, mas isto, rabugice da enfermidade, findava logo e o pobre homem resvalava na insignificncia e na rede. Bom msico, especializara-se no canto. Em recordao imprecisa, revejo mulheres ajoelhadas em redor de um oratrio. Meu av, em p, cantava  e havia-se tornado enorme. Como podia uma pessoa gritar de semelhante maneira? A grandeza e a harmonia singular hoje desdobram a figura gemente e mesquinha, de ordinrio ocupada, apesar da molstia, em fabricar miudezas. Tinha habilidade notvel e muita pacincia. Pacincia? Acho agora que no  pacincia.  uma obstinao concentrada, um longo sossego que os fatos exteriores no perturbam. Os sentidos esmorecem, o corpo se imobiliza e curva, toda a vida se fixa em alguns pontos  no olho que brilha e se apaga, na mo que solta o cigarro e continua a tarefa, nos beios que murmuram palavras imperceptveis e descontentes. Sentimos desnimo ou irritao, mas isto apenas se revela pela tremura dos dedos, pelas rugas que se cavam. Na aparncia estamos tranqilos. Se nos falarem, nada ouviremos ou ignoraremos o sentido do que nos dizem. E como h freqentes suspenses no trabalho, com certeza imaginaro que temos preguia. Desejamos realmente abandon-lo. Contudo gastamos uma eternidade no arranjo de ninharias, que se combinam, resultam na obra tormentosa e falha. Meu av nunca aprendera nenhum ofcio. Conhecia, porm, diversos, e a carncia de mestre no lhe trouxe desvantagem. Suou na composio das urupemas. Se resolvesse desmanchar uma, estudaria facilmente a fibra, o aro, o tecido. [pg. 022]
     Julgava isto um plgio. Trabalhador caprichoso e honesto, procurou os seus caminhos e executou urupemas fortes, seguras. Provavelmente no gostavam delas: prefeririam v-las tradicionais e corriqueiras, enfeitadas e frgeis. O autor, insensvel  crtica, perseverou nas urupemas rijas e sbrias, no porque as estimasse, mas porque eram o meio de expresso que lhe parecia mais razovel. Meu av materno, alto, magro, de cabelos e barba como pasta de algodo, muito se diferenava dessa criatura achacada: no desperdiava tempo em cantiga nem se fatigava em miualhas. De perneiras, gibo e peitoral, as abas do chapu de couro, repuxado para a nuca, a emoldurar-lhe o rosto vermelho, impunha-se. A voz lenta, nasal, pigarreada pelo excesso de tabaco, rolava com um ronrom descontente que nos arranhava os ouvidos, depois se insinuava, se adocicava, tomava a consistncia de goma. Tnhamos a impresso de que a fala ranzinza nos acariciava e repreendia. Os gestos eram vagarosos. Homem de imenso vigor, resistente  seca, ora na prosperidade, ora no desmantelo, reconstruindo corajoso a fortuna, em geral no se expandia. Escutava sereno as conversas, o leno encarnado no ombro ou nos joelhos, o olho azul perdido na capoeira familiar, percebendo sinais invisveis ao observador comum. Possua conhecimentos infusos a respeito de tudo quanto se refere a bichos: indicava com segurana as crias das vacas paridas no mato, adivinhava o peso exato dos bois de era. Para vender o seu gado nunca precisou de balana. Esse av brbaro dispensava ao civilizado, artfice e cantor, exageros de ateno, em que havia talvez surpresa, desdm, o receio de mago-lo, estrag-lo com as mos duras. [pg. 023]
     Minha av, grave, ossuda, tinha protuberncias na testa e bugalhos severos. Anos depois contou-me desgostos ntimos: o marido, ciumento, afligira-a demais. S a me inteirei de que ela havia sofrido e era boa, mas na poca do cime e da tortura no lhe notei a bondade.
     Existia tambm um casal de bisavs: uma santa morena e encarquilhada, um velhinho autoritrio que embirrava com meu pai.
     Alm dessas pessoas e dos moradores da fazenda, surgiam no ptio ciganos em magotes, vaqueiros encourados, aboiando, algum raro viajante. Dois passageiros conservaram-se nos relatos da famlia. O primeiro, um cabra macambzio e suspeito, foi mal recebido. Minha me espiou a vizinhana, buscando Amaro ou Jos Baa, e sentou-se num canto da sala, perto das armas de fogo. O tipo acocorou-se  porta. E assim permaneceram, ele ferindo a pederneira com o fuzil, chupando o cigarro, ela observando-lhe os movimentos, defendida pelos bacamartes, confiante na firmeza da mo e na pontaria.  tarde o cabra macambzio declarou a meu pai que a dona era reimosa.
     O outro visitante apareceu duas ou trs vezes, cochichou demorado no copiar e sumiu-se levando algumas dezenas de mil-ris. Esse dinheiro significava o imposto dos proprietrios rurais aos numerosos grupos de cangaceiros que percorriam o serto, pouco exigentes comparados aos posteriores. Mediante algumas cdulas, uma novilha ou marra, obtinham-se dedicaes, amizades proveitosas. Quando nos mudamos para a vila, cinco ou seis bandoleiros que transitavam pelos arredores saram do caminho, embrenharam-se na catinga, para no assustar a mulher e as crianas. [pg. 024]
     Ausentes os hspedes e os passageiros, caamos no ramerro fastidioso. Os mesmos trabalhos de pega, ferra, ordenha; ferrolhos rangendo pela madrugada e ao escurecer; vozes speras, exigncias curtas, ordens incompreensveis. Por toda a parte despojos de animais: ossos branquejando nas veredas, caveiras de bois espetadas em estacas, couros espichados, malas de couro, surres de couro, roupas de couro suspensas em tornos, chocalhos com badalos de chifre, montes de ltegos, relhos, arreios, cabrestos de cabelo.
     Agora o mundo se retirava alm do monturo do quintal, mas no nos aventurvamos a penetrar nessa regio desconhecida. O p-de-turco era o meu refgio. As meninas arrastavam-se no alpendre e na cozinha. O moleque Jos comeava a revelar-se. Minha irm natural se desenvolvia, recebendo com freqncia arranhes nos melindres. A averso que inspirava traduzia-se em remoques e muxoxos; quando tomava feio agressiva, fazia ricochete e vinha atingir-nos. Se no existisse aquele pecado, estou certo de que minha me teria sido mais humana. De fato meu pai mostrava comportar-se bem. Mas havia aquela evidncia de faltas antigas, uma evidncia forte, de cabeleira negra, beios vermelhos, olhos provocadores. Minha me no dispunha dessas vantagens. E com certeza se amofinava, coitada, revendo-se em ns, percebendo c fora, soltos dela, pedaos da sua carne propcia aos furnculos. Maltratava-se maltratando-nos. Julgo que agentamos cascudos por no termos a beleza de Mocinha. [pg. 025]
     
     
Vero




DESSE antigo vero que me alterou a vida restam ligeiros traos apenas. E nem deles posso afirmar que efetivamente me recorde. O hbito me leva a criar um ambiente, imaginar fatos a que atribuo realidade. Sem dvida as rvores se despojaram e enegreceram, o aude estancou, as porteiras dos currais se abriram, inteis.  sempre assim. Contudo ignoro se as plantas murchas e negras foram vistas nessa poca ou em secas posteriores, e guardo na memria um aude cheio, coberto de aves brancas e de flores. A respeito de currais h uma estranha omisso. Estavam na vizinhana, provavelmente, mas isto  conjectura. Talvez at o mnimo necessrio para caracterizar a fazenda meio destruda no tenha sido observado depois. Certas coisas existem por derivao e associao; repetem-se, impem-se  e, em letra de forma, tomam consistncia, ganham razes. Dificilmente pintaramos um vero nordestino em que os ramos no estivessem pretos e as cacimbas vazias. [pg. 026]
     Reunimos elementos considerados indispensveis, jogamos com eles, e se desprezamos alguns, o quadro parece incompleto.
     O meu vero  incompleto. O que me deixou foi a lembrana de importantes modificaes nas pessoas. De ordinrio pachorrentas, azucrinaram-se como tanajuras, zonzas. Findaram as longas conversas no alpendre, as visitas, os risos sonoros, os negcios lentos; surgiram rostos sombrios e rumores abafados. Enorme calor, nuvens de poeira. E no calor e na poeira homens indo e vindo sem descanso, molhados de suor, aboiando monotonamente.
     Pela primeira vez falaram-me no diabo.  possvel que tenham falado antes, mas foi a que fixei o nome deste esprito: sem conhec-lo direito, soube que ele andava solto nos redemoinhos que varriam o ptio, misturado a folhas e garranchos.
     Um dia faltou gua em casa. Tive sede e recomendaram-me pacincia. A carga de ancoretas chegaria logo. Tardou, a fonte era distante  e fiquei horas numa agonia, rondando o pote, com brasas na lngua. Essa dor esquisita perturbou-me em excesso. Nos sofrimentos habituais eu percebia gestos desarrazoados, palavras colricas. A minha vida era um extenso enleio que sobressaltos agitavam. Para bem dizer, eu flutuava, pequeno e leve. De repente, um choque, novos choques, estremecimentos dolorosos. Impossvel queixar-me agora. No me dirigiam ameaas, abrandavam, e as recusas apareciam quase doces. Na verdade no recusavam. Num minuto haveria muitos canecos de gua. Chorei, embalei-me nas consolaes, e os minutos foram pingando, vagarosos. A boca enxuta, os beios gretados, os olhos turvos, queimaduras interiores. Sono, preguia  e estirei-me [pg. 027] num colcho ardente. As plpebras se alongavam, coriceas, o lquido obsessor corria nas vozes que me acalentavam, umedecia-me a pele, esvaa-se de sbito. E em redor os objetos se deformavam, trmulos. Veio a imobilidade, veio o esquecimento. No sei quanto durou o suplcio.
     Vivia a surpreender-me. E as surpresas se multiplicavam. Amaro e Jos Baa, armados de faces, estariam enchendo cestos com pedaos de mandacaru? Os sentidos me diziam que sim, mas isto discordava dos servios comuns. Tentava esclarecer-me, largava uma interrogao maluca. No indagava o motivo de se encherem os cestos, perguntava se eles realmente se enchiam. Caso me confirmassem a observao, eu continuaria a importunar os empregados, inteirar-me-ia de que aquilo era alimento para os animais. No me ligavam importncia. Amaro fungava, resmungava, franzia a cara cabeluda; Jos Baa pilheriava. Por qu? No era to fcil asseverarem que estavam cortando mandacaru nos cestos? Eu necessitava uma autoridade, um apoio. Desconfiava da coisa prxima, vista, ouvida, pegada, mas em geral admitia sem esforo o que me contavam.
     Aceitei, pois, o cavalo-do-co, o bicho que o diabo monta quando faz estrepolias pelo mundo. H outra espcie de cavalo-do-co, um inseto negro, de asas grandes, barulhento. O que o diabo utilizava nas viagens devia ser como este, negro, barulhento e muito maior. Acreditei nele, dcil, porque o homnimo concreto lhe forneceu alguns caracteres, porque a voz da experincia o revelou, enfim porque nos redemoinhos que aoitavam a catinga pelada havia provavelmente um ser furioso, soprando, assobiando, torcendo paus e rebentando galhos. [pg. 028]
     Essa criatura de sonho e baguna, um cavalo de asas, no me causou espanto.
     Espanto, e enorme, senti ao enxergar meu pai abatido na sala, o gesto lento. Habituara-me a v-lo grave, silencioso, acumulando energia para gritos medonhos. Os gritos vulgares perdiam-se; os dele ocasionavam movimentos singulares: as pessoas atingidas baixavam a cabea, humildes, ou corriam a executar ordens. Eu era ainda muito novo para compreender que a fazenda lhe pertencia. Notava diferenas entre os indivduos que se sentavam nas redes e os que se acocoravam no alpendre. O gibo de meu pai tinha diversos enfeites; no de Amaro havia numerosos buracos e remendos. As nossas roupas grosseiras pareciam-me luxuosas comparadas  chita de Sinha Leopoldina,  camisa de Jos Baa, sura, de algodo cru. Os caboclos se estazavam, suavam, prendiam arame farpado nas estacas. Meu pai vigiava-os, exigia que se mexessem desta ou daquela forma, e nunca estava satisfeito, reprovava tudo, com insultos e desconchavos. Permanente, essa birra tornava-se razovel e vantajosa: curvara espinhaos, retesara msculos, cavara na piarra e na argila o aude que se cobrira de patos, mergulhes e flores de baronesa. Meu pai era terrivelmente poderoso, e essencialmente poderoso. No me ocorria que o poder estivesse, fora dele, de repente o abandonasse, deixando-o fraco e normal, um gibo roto sobre a camisa curta.
     Sentado junto s armas de fogo e aos instrumentos agrcolas, em desnimo profundo, as mos inertes, plido, o homem agreste murmurava uma confisso lamentosa  companheira. As nascentes secavam, o gado se finava no carrapato e na morrinha. Estranhei a morrinha e estranhei o carrapato, [pg. 029] foras evidentemente maiores que as de meu pai. No entendi o sussurro lastimoso, mas adivinhei que ia surgir transformao. A vila, uma loja e dinheiro entraram-me nos ouvidos. O desalento e a tristeza abalaram-me. Explicavam a sisudez, o desgosto habitual, as rugas, as exploses de pragas e de injrias. Mas a explicao me apareceu anos depois. Na rua examinei o ente slido, spero com os trabalhadores, garboso nas cavalhadas. Vi-o arrogante, submisso, agitado, apreensivo  um despotismo que s vezes se encolhia, impotente e lacrimoso. A impotncia e as lgrimas no nos comoviam. Hoje acho naturais as violncias que o cegavam. Se ele estivesse embaixo, livre de ambies, ou em cima, na prosperidade, eu e o moleque Jos teramos vivido em sossego. Mas no meio, receando cair, avanando a custo, perseguido pelo vero, arruinado pela epizootia, indeciso, obediente ao chefe poltico,  justia e ao fisco, precisava desabafar, soltar a zanga concentrada. Aperreava o devedor e afligia-se temendo calotes. Venerava o credor e, pontual no pagamento, economizava com avareza. S no economizava pancadas e repreenses. ramos repreendidos e batidos. [pg. 030]
     

Um cinturo




As minhas primeiras relaes com a justia foram dolorosas e deixaram-me funda impresso. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por a, e figurei na qualidade de ru. Certamente j me haviam feito representar esse papel, mas ningum me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.
     Os golpes que recebi antes do caso do cinturo, puramente fsicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha me surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Modo, virando a cabea com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com gua de sal  e houve uma discusso na famlia. Minha av, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me  toa, sem querer. No guardei dio a minha me: o culpado era o n. Se no [pg. 031] fosse ele, a flagelao me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A histria do cinturo, que veio pouco depois, avivou-a.
     Meu pai dormia na rede armada na sala enorme. Tudo  nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no cho, a cara enferrujada. Naturalmente no me lembro da ferrugem, das rugas, da voz spera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigncia. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei v-lo dirigir-se a minha me e a Jos Baa, pessoas grandes, que no levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperana frgil. A fora de meu pai encontraria resistncia e gastar-se-ia em palavras.
     Dbil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para l dos caixes verdes. Se o pavor no me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao aude, pela do corredor acharia o p-de-turco. Devo ter pensado nisso, imvel, atrs dos caixes. S queria que minha me, Sinh Leopoldina, Amaro e Jos Baa surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.
     Ningum veio, meu pai me descobriu do e sem flego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturo. Onde estava o cinturo? Eu no sabia, mas era difcil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, colricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significao. [pg. 032]
     No consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranas dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrvel, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.
     Onde estava o cinturo? Impossvel responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, to apavorado me achava. Situaes deste gnero constituram as maiores torturas da minha infncia, e as conseqncias delas me acompanharam.
     O homem no me perguntava se eu tinha guardado a miservel correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabea, nunca ningum se esgoelou de semelhante maneira.
     Onde estava o cinturo ? Hoje no posso ouvir uma pessoa falar alto. O corao bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma clera doida agita coisas adormecidas c dentro. A horrvel sensao de que me furam os tmpanos com pontas de ferro.
     Onde estava o cinturo? A pergunta repisada ficou-me na lembrana: parece que foi pregada a martelo.
     A fria louca ia aumentar, causar-me srio desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beios trmulos e silenciosos. Se o moleque Jos ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas no se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do aude ou no quintal. [pg. 033]
     Minha me, Jos Baa, Amaro, Sinha Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortios enchendo-me os ouvidos  e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Nusea, sono. Onde estava o cinturo? Dormi muito, atrs dos caixes, livre do martrio.
     Havia uma neblina, e no percebi direito os movimentos de meu pai. No o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mo cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido intil, estertor. J ento eu devia saber que rogos e adulaes exasperavam o algoz. Nenhum socorro. Jos Baa, meu amigo, era um pobre-diabo.
     Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitrios e de runas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lgubres minha irmzinha engatinhava, comeava a aprendizagem dolorosa.
     Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um brao, aoitando-me. Talvez as vergastadas no fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a exploso do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmes, movia-me, num desespero. [pg. 034]
     O suplcio durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, no igualava a mortificao da fase preparatria: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaadores, a voz rouca a mastigar uma interrogao incompreensvel.
     Solto, fui enroscar-me perto dos caixes, cocar as pisaduras, engolir soluos, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se  rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturo, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impresso de que ia falar-me: baixou a cabea, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refgio onde me abatia, aniquilado.
     Pareceu-me que a figura imponente minguava  e a minha desgraa diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presena dele sempre me deu. No se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
     Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, mido, insignificante, to insignificante e mido como as aranhas que trabalhavam na telha negra.
     Foi esse o primeiro contacto que tive com a justia. [pg. 035]
     
Uma bebedeira




ANDAMOS cerca de duas lguas a cavalo: minha me posta de meia esguelha, envolta na saia comprida e larga, uma perna presa no gancho do silho; meu pai todo pachola, boa lana nas cavalhadas, viajando no preceito, como quem executa um dever; eu seguro por ele, na maaneta da sela, porque era pequeno demais e no me agentava na garupa do animal.
     amos visitar um fazendeiro vizinho, homem considervel, de hbitos que mereciam a reprovao da gente cautelosa. Nesse dia no o percebi direito. Avistei-o alguns anos depois, na vila prxima, de cala branca, palet de casimira, chapu do Chile, botinas lustrosas, guarda-chuva caro, uma libra esterlina pendurada no corrento de ouro, escandalosamente prspero. E, ao cabo de longo intervalo, encontrei-o de novo, muito por baixo, carregando na aguardente, jogando baralho com polcias em balces de bodegas e em caladas. Meus parentes, econmicos em excesso, atribuam esse [pg. 036] desmantelo ao guarda-chuva e  libra esterlina. E tambm s superfluidades que nos exibiu naquela manh de vero: mveis esquisitos; redes alvas, de varanda, grossas e macias, trabalhadas como rendas; panos limpos, cheirosos; a garrafinha vermelha, na salva, rodeada de clices, objetos que me provocaram admirao.
     No meio estranho encabulei  e isto me atenazava. Ainda isento de compromissos, murchava diante de pessoas desconhecidas. Com certeza j me haviam habituado a julgar-me um ente mesquinho. A minha roupa curta era chinfrim. Tentei esconder-me, arrastei-me sob os punhos das redes, coxeando, tropeando, que os sapatos me aperreavam. Em casa eu usava alpercatas  dois pedaos de sola e correias. Quando me impunham sapatos, era uma dificuldade: os ps formavam bolos, recalcitravam, no queriam meter-se nas prises duras e estreitas. Arrumavam-se  fora, e durante a resistncia eu ouvia berros, suportava tabefes e chorava. Um par de borzeguins amarelos, um par de infernos, marcou-me para toda a vida.
     Ignoro como chegamos  fazenda: as minhas recordaes datam da hora em que entramos na sala. Meu pai e o proprietrio sumiram-se, foram cuidar de negcios, numa daquelas conversas cheias de gritos. Minha me e eu ficamos cercados de saias.
     As paredes eram brancas e talvez tenham concorrido para me agravar o embarao. Defronte da casa um carro de bois descansava sob a ramagem quase sem folhas de uma rvore alta. Desinteressei-me do carro de bois, igual a outros j vistos, mas desejei que me explicassem a rvore pelada, muito diferente do p-de-turco do meu quintal. Guardei [pg. 037] silncio, temeroso, alu num canto da parede, longe das saias. Minha me, entre elas, estava importante. No reparei na importncia: os sapatos faziam-me esquecer o carro de bois, as redes, as mulheres que adulavam minha me, desprezando-a. Julgo que ela se chateava com as gentilezas. No as entendia e bocejava de leve, sisuda, ausente dos que se esforavam por obsequi-la. Havia, uma senhora idosa e vrias moas: uma grande, morena, bulhenta, outras que se escondiam por detrs dela, secundrias, hoje obliteradas. Riam, mexiam, animavam-se.
     No sei como de repente me vi no meio do bando rumoroso: sei que me afastaram da parede e os sapatos deixaram de magoar-me os dedos e os calcanhares. Escancharam-me numa das redes, perto da senhora velha, e penso que me consideraram digno de interesse. A trouxeram a bandeja, a garrafinha de licor e os clices. Minha me tocou a linha esquiva dos beios naquela surpresa que tingia a substncia rara, cruzou as mos, franziu a boca numa tentativa de agradecimento. Com rigor, no me seria possvel afirmar que tais gestos se realizaram. Surpreendi-os, contudo, em visitas posteriores e arrisco-me a referi-los. Os dedos finos e nodosos juntavam-se, inofensivos; os lbios duros contraam-se, mudos; os olhos se esbugalhavam, parados, frios, indecisos.
O que nessa figura me espantava era a falta de sorriso. No ia alm daquilo: duas pregas que se fixavam numa careta, os beios quase inexistentes repuxando-se, semelhantes s bordas de um caneco amassado. Assim permanecia, contendo bocejos indiscretos. Mida e feia, devia inquietar-se, desconfiar das amabilidades, recear mistificaes. Quando cresci e tentei agrad-la, recebeu-me suspeitosa e hostil; se me acontecia concordar com ela, mudava de opinio e largava muxoxos desesperadores. [pg. 038]

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     Quem me deu o primeiro clice de licor foi a morena vistosa, mas no sei quem deu o segundo. Bebi vrios, bebi o resto da garrafa. Comportei-me indecentemente, perdi a vergonha, achei-me  vontade, falando muito, desvariando e exigindo licor. Uma das moas trouxe-me um copo de vinho com mel. Minha me enferrujou a cara, estirou o brao enrgico, mas naquele momento eu desafiava as oposies. Atravs de uma neblina, distinguia formas vagas e inconsistentes. Repeli a mo que avanava para mim, tomei o copo. Da em diante, at que adormeci, o tempo desapareceu. Certos pormenores avultaram, com certeza se dissiparam casos apreciveis. Ganhei coragem de supeto, os perigos se esvaram. Fortaleci-me, percebi aliados nas criaturas que me rodeavam.
     Uma se distinguia, morena, grande, vermelha, risonha, barulhenta. Senhorinha. Vinte anos depois, ao saber que ela havia dado com os burros na gua, afligi-me. Arruinou, provavelmente acabou depressa. A honra sertaneja encolheu-se, uma tradio reduziu-se a cacos. Todavia continuaro a espalhar mentiras na cidade. A literatura popular e os cancioneiros matutos gastar-se-o repisando camponeses brabos e vingativos, donzelas ingnuas, puras demais. Engano. Senhorinha, educada perto do curral, conhecia os mistrios da procriao e era simples. Filha de proprietrio, submeteu-se  honestidade e aguardou casamento. Mas as dvidas se avolumaram, a fazenda se despovoou, tombaram as cercas, o coronel, sem corrento nem guarda-chuva, aderiu  canalha  e Senhorinha renunciou [pg. 041]  virtude, infringiu a moral, curvou-se  lei do instinto.
     Bonitona. Avizinhei-me dela com impudncia camarada, esfreguei-me. Essa preciso de receber carcias de uma pessoa do outro sexo surgiu-me de golpe, estimulada pelo lcool.
     Suponho que no foi a primeira vez que me embriagaram. As sertanejas do Nordeste entorpecem os filhos  noite com uma garrafa de vinho forte. Meus irmos ingeriram isso e procederam bem: no choraram, no gritaram, no manifestaram nenhuma exigncia. Acordavam quietinhos, moles, bestas, bons como uns santos. Umedeciam as cobertas, mais isto no os incomodava: dormiam no lquido. E, longe deles, D. Maria sossegava. Quando apurei o olfato e a vista, percebi que os lenis de meus irmos eram ftidos, horrveis. Os meus deviam ter sido assim.
     Vendo-me o desembarao, minha me tentou agarrar-me. No me considerando bastante seguro na rede, ergui-me trpego, arrastei a senhora velha, desejei exprimir-lhe simpatia. Chegamos a um marqueso, sentamo-nos, deitei familiarmente a cabea nas pernas da mulher. Os objetos esfumavam-se, entre eles, remota, quase imperceptvel, a rvore que se despojava no ptio, junto ao carro de bois. Voltou-me a curiosidade, apontei com desnimo a planta calva, gaguejei:
      Minha filha, que pau  aquele?
     Obtive a informao e ao cabo de minutos tornei a perguntar:
      Minha filha, que pau  aquele?
     Veio novamente a resposta, mas a necessidade de instruir-me acendia-se e apagava-se, faiscava-me no interior como um vaga-lume. Estranha [pg. 042] loquacidade inutilizava o silncio obtuso que me haviam imposto. O animalzinho bisonho papagueava, e gargalhadas estrugiam na sala, abafando a quizilia de minha me. Essa potncia baqueava. No me ocorria que ela se restabelecesse, voltasse comigo  casa triste, me fustigasse e puxasse as orelhas. Parecia-me que as moas ruidosas e a senhora encanecida iriam, no futuro, trazer-me a garrafinha, os clices e a bandeja, escutar-me os devaneios.
     Quando meu pai regressou, eu me achava num momento de evaso, indiferente s censuras, nos joelhos de uma desconhecida, tagarelando com outras desconhecidas encantadoras, meio invisveis no espesso nevoeiro que me envolvia. [pg. 043]
     
     
Chegada  vila




ERA uma noite fria. Vozes misturavam-se na calada, andava gente em redor de uma fogueira grande, no ptio. Estalavam brasas, labaredas cresciam, iluminavam pedaos de figuras, esmoreciam, e da sombra fumacenta vinham risadas longas. Meu pai, invisvel, comentava:
      Parece um papa-lagartas.
     Que seria papa-lagartas? Se meu pai no me esfriasse a curiosidade repetindo uma frase suja a respeito dos perguntadores, resolver-me-ia a interrog-lo. A frase me espantava sempre. No queria convencer-me de que ouvia nomes to feios, e quando me inteirava bem do sentido deles, afastava-me triste e humilhado, achando meu pai grosseiro e jurando emendar-me.
     Pensei em dirigir-me a uma das pessoas ocultas na escurido. Havia rebulio: rinchos, passos, pancadas de tampas de bas. E as gargalhadas junto ao fogo. Que seria papa-lagartas ? Sem os malditos sapatos duros como pau, decidir-me-ia a entrar, [pg. 044] sair, informar-me. Certamente no me ligariam importncia. E os sapatos me incomodavam os dedos, esfolavam os calcanhares. Onde estariam as minhas alpercatas? Na roupa estreita, movia-me com dificuldade. Em geral eu usava camisa, saltava e corria como um bichinho, trepava nas pernas de Jos Baa, que nascera de sete meses e fora criado sem mamar. Jos Baa era timo, talvez por no ter mamado e haver nascido de sete meses, o que devia ser uma exceo. Se Jos Baa aparecesse ali, explicar-me-ia o papa-lagartas. A cala, o palet e os sapatos pressagiavam acontecimentos volumosos. E palavras enigmticas haviam-me despertado suspeitas vagas, medocre entusiasmo por aventuras imprecisas e medo. Que iria suceder? Bom que Jos Baa estivesse comigo, papagueando na sua lngua fcil e capenga, livrando-me de sustos.
     A recordao dessa antiga cena mostra-me a casa virada, extravagncia que mais tarde se reproduziu. Muitas vezes as ruas e os prdios se deslocaram, deixando-me perplexo, desnorteado. A porta da frente e o copiar no davam para o aude, como de ordinrio, mas para os montes de lixo e o p-de-turco. Houve uma pausa. As vozes, o rumor de malas arrastadas, as chamas da fogueira, os rinchos, as gargalhadas do papa-lagartas, sumiram se.
     Achei-me, horas depois, dia claro, escanchado na maaneta de uma sela, horrivelmente sacolejado pelo trote de um cavalo, grossas mos amparando-me. Atravessvamos uma povoao  duas filas de casebres desertos e entre elas cabanas de barro negro e palha seca. Para que serviria aquilo? Algum falou em botequins e em festa. No compreendi os botequins nem a festa, mas as construes [pg. 045] de terra e palha queimada impressionaram-me. Perdi-as de vista, esqueci-as logo, sacudido pela andadura que me desarrumava as entranhas, aumentava e diminua a vegetao espinhosa e familiar de xiquexiques e mandacarus.
     De repente me vi apeado, em abandono completo, num mundo estranho, cheio de casas, brancas ou pintada sem alpendres, notveis. Havia duas maravilhosas: uma de quadrados faiscantes, uma que se montava noutra. Avizinhei-me do sobradinho, fugi medroso e confuso: nunca teria podido imaginar uma casa trepada. Na debaixo percebi criaturas vermelhas e azuis, todas iguais; na de cima dois sujeitos se debruavam, conversando, a uma janela, e, nem sei porque, talvez por estarem de poleiro, julguei-os enormes. Um deles vestia farda vermelha e azul, como os do andar trreo, mas com listas de gales amarelos nos punhos. Eu ignorava as fardas e os gales, objetos preciosos, evidentemente. Procurei Amaro e Jos Baa, debalde. Longe da fazenda, considerei-me fora da realidade e s. De fato no estava s: vrias pessoas transitavam por ali, rudos vagos quebravam o silncio. Admirvel a casa suspensa, como um garoto erguido em percas de pau. Cheguei-me a ela novamente, arredei-me Para a que brilhava, faiscava. O palet feria-me os sovacos, os sapatos mordiam-me os ps e tropicavam no tijolo. Senti falta da camisa e das alpercatas. No outro lado da rua um longo corredor expunha um quintal cheio de roseiras. Deixei a farda, os gales, as paredes luminosas, fiquei muito tempo olhado as flores. Tencionei examin-las de perto. Ressurgiu o isolamento, pus-me a caminhar ansioso na calada. O meu desejo era gritar, pedir informaes. Necessrio voltar, distrair-me com as [pg. 046] baronesas do aude, os marrecos e a vazante. Absurdo algum viver num lugar onde se apertavam tantas casas. At ento houvera quatro ou cinco. O copiar da nossa, era escorado por esteios robustos de aroeira. Jos Baa segurava-me os braos e rodava. Ao largar-me, eu saa tonto, cambaleando. As cercas e as rvores giravam, os esteios giravam e batiam-me na cabea. Minha me descompunha Jos Baa, mas ele no lhe dava ateno: rodopiava, contava histrias de onas, dizia que tinha nascido de sete meses, fora criado sem mamar, bebera leite de cem vacas na porteira do curral. A porteira do curral estava longe. O aude, a vazante, os marrecos e as baronesas desmaiavam. Chamas lambiam vultos, um arrieiro soltava gargalhadas. Papa-lagartas. Depois vinham botequins de barro e palha, o trote de um animal a sacudir-me pelas estradas, xiquexiques e mandacarus subindo e descendo. Os botequins e os papa-lagartas envelheciam. Sensaes violentas obliteravam xiquexiques e mandacarus: essas plantas no se acomodariam junto  grande arapuca levantada em pernas de pau. Senti vontade de chorar. Tambm no me acomodaria. Vi uma porta aberta, entrei, fui  sala de jantar, farejando o meu povo. D. Clara, a mulher que ia chamar-se D. Clara, sentada numa esteira, dava papa a um menino. Embrulhei-me. E, descobrindo um gato, perguntei de quem era o gato. D. Clara respondeu que era dela. Retirei-me, andei  toa na calada, procurando Jos Baa, muitas queixas fervilhando-me no interior. No me recordava da chegada, no sabia como tinha ido parar ali. Se me esquecessem no meio de surpresas ? Precisei recolher-me. Enxerguei outra porta, enveredei por ela, detive-me na sala de jantar, percebi [pg. 047] o gato, a esteira, o menino e D. Clara. Tornei a perguntar de quem era o gato e obtive a mesma resposta. Esperei mais algumas palavras. No vieram  e sa desapontado. Pretendera, referindo-me ao gato, no que D. Clara se contentasse com ele, mas puxasse conversa, falasse nos homens de roupa vermelha e azul, na casa faiscante, nas roseiras. D. Clara no decifrou o meu intuito. E achei-me na rua, encolhido, murcho. A janela do sobradinho fechou-se. No andar trreo, porem, os sujeitos coloridos mexiam-se com animao, e um deles cantava uma cantiga mole, bamba, muito diferente da de Jos Baa. Duas ou trs velhas surgiram na casa das roseiras. Elas e alguns transeuntes constituram de chfre multido  e a multido me fascinava e amedrontava. Acercava-me timidamente do sobradinho. Queria ouvir histrias, risadas, cantigas. E queria ausentar-me dali, descalar-me, ver minhas irms, entreter-me com o moleque Jos. Vaguei na calada, coxeando, os olhos turvos, as virilhas midas. Sentei-me no cho, cansado e infeliz. Encostei-me depois a uma parede e adormeci. [pg. 048]
     
     

A vila



BUQUE tinha a aparncia de um corpo aleijado: o Largo da Feira formava o tronco; a Rua da Pedra e a Rua da Palha serviam de pernas, uma quase estirada, a outra curva, dando um passo, galgando um monte; a Rua da Cruz, onde ficava o cemitrio velho, constitua o brao nico, levantado; e a cabea era a igreja, de torre fina, povoada de corujas. Nas virilhas, a casa de Seu Jos Galvo resplandecia, com trs fachadas cobertas de azulejos, origem do imenso prestgio de meninos esquivos: Osrio, taciturno, Ceclia, enfezada, e D. Maria, que pronunciava garafa. Na coxa esquerda, isto , no comeo da Rua da Pedra, o aude da Penha, cheio da msica dos sapos, tingia-se de manchas verdes, e no p, em cima do morro, abria-se a cacimba da Intendncia. Alguns becos rasgavam-se no tronco: um ia ter  lagoa; outro fazia um cotovelo, dobrava para o Cavalo-Morto, areal mal afamado que findava no stio de Seu Paulo Honrio; no terceiro as janelas do Vigrio espiavam as [pg. 049] da escola pblica, alva, de platibanda, regida por um sujeito de poucas falas e barba longa, semelhante ao mestre rural visto anos atrs. Essa parecena me deu a convico de que todos os professores machos eram cabeludos e silenciosos.
     D. Maria, particular e casada com Seu Antnio Justino, funcionava na Rua da Palha  e, por ser particular, excedia o colega, oficial e, conseqentemente, desleixado, na opinio dos pais de famlia. Seu Antnio Justino, homem sem profisso, era quinca, marido de professora, mas no completamente quinca, apesar de viver desocupado. Se a mulher possusse carta, Seu Antnio Justino perderia nome e sobrenome. D. Maria no tinha carta nem recebia dinheiro do governo  e Seu Antnio Justino ainda no se havia inteiramente despersonalizado.
     Perto dessa escola instalavam-se o quartel da polcia e a cadeia. No corpo da guarda o destacamento local bocejava, preguiava nas tarimbas, e Jos da Luz, cafuzo pachola e risonho, cantava.
     A vida social se concentrava no largo, ponto de comrcio, fuxicos, leitura de jornais quando chegava o correio. Nos sbados armavam-se barracas, fervilhavam matutos. Nos domingos eram os exerccios espirituais: missa extensa, confisses, casamentos, batizados, injrias abundantes de Padre Joo Incio. Tinham andado pelo serto dois missionrios muito diferentes na catequese: Frei Caetano, pessoa de infinita doura, quase santo, e Frei Clemente, um brbaro que fustigava as mulheres e infundia enorme respeito. Padre Joo Incio tinha muito de Frei Clemente: no chegava a aoitar os paroquianos, mas, se se aperreava, distribua insultos aos pequenos, raa de cachorro com [pg. 050] porco. Este desacato era proferido com energia e gritos, fora do plpito, pois no consta que Padre Joo Incio haja pregado.
     Os maiorais do municpio, governo e oposio, vinham de um grupo de famlias mais ou menos entrelaadas, poderosas no Nordeste: Cavalcantis, Albuquerques, Siqueiras, Tenrios, Aquinos. Padre Joo Incio era Albuquerque. O Comendador Badega, parente de todos os grados, autor de vrios filhos naturais, esfarinhado em Csar Cantu, vestia cassineta esfiapada e rua, usava chapu de abas rodas e botas pretas com remendos amarelos. Assim, de rebenque e esporas, entrou uma noite no pao municipal com um lote de caboclas novas e, ao som da harmnica, danou valsas e quadrilhas at o nascer do sol. Apesar da comenda, os roceiros davam-lhe o ttulo de capito.
     De ordinrio a gente da rua, excetuados os trs meses de safra, descansava seis dias na semana. Em negcios raros buscava-se lucro exorbitante.
     Pelos agudos frios da serra, andavam figuras solitrias, de mos atrs das costas, em capotes escuros, como urubus arrepiados na garoa.
     E findo o inverno, indivduos loquazes reuniam-se em torno dos balces, discutiam poltica, tesouravam o prximo.  tarde estabeleciam-se nas caladas,  sombra. Os dados chocalhavam, as pedras estalavam nos tabuleiros de gamo. E as discusses no tinham fim. Comentava-se a coragem do advogado Bento Amrico, um que chegou a professor de direito e conseguiu fama por trajar mal e escrever sem verbos. Num discurso no jri, Bento Amrico arremedara o Coronel Antnio de Aquino, chefe poltico: acendera um cigarro barato e pusera [pg. 051] o p em cima de uma cadeira. Esse discurso provocava admirao desmedida.
     Fatos antigos se renovavam, confundiam-se com outros recentes, e as notcias dos jornais determinavam perturbaes nos espritos. Debatiam-se Canudos, a Revolta da Armada, a Abolio e a Guerra do Paraguai como acontecimentos simultneos. A repblica, no fim do segundo quadrinio, ainda no parecia definitivamente proclamada. Realmente no houvera mudana na vila. Os mesmos jogos de gamo e solo transmitiam-se de gerao a gerao; as mesmas pilhrias provocavam as mesmas risadas. Certas frases decoravam-se, achavam meio de arranjar-se com outras de sentido contrrio  e essas incompatibilidades firmavam-se nas mentes como artigos de f.
     Sem dvida Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca eram grandes, to grandes que, deixando a poltica, recebiam consagrao popular e entravam nas emboladas:
     
Pedro Paulino, Leodoro, Loriano. 
Foi a lei republicana 
Que inventou guarda local.
     
     Os freqentadores das caladas conheciam dos generais famosos alguma coisa mais que os nomes truncados. No percebiam neles virtudes pblicas (isto ningum estava em condies de notar), mas descobriam qualidades preciosas a um sertanejo: vigor e dissimulao. Aquela resposta de Floriano aos estrangeiros causava entusiasmo. Bicho, sim senhor: prendia deportava, no receava caretas. Deodoro  que havia procedido mal. No comeo da vida era um pobrezinho, e D. Pedro o recolhera, [pg. 052] educara, dera-lhe posio e dragonas. Em paga de lautos favores, uma rasteira no protetor bambo. Ingrato. Devia ter esperado que o velhinho desse o couro s varas.
     Meu pai, negociante, concordava com todos. Tinha s vezes, porm, idias prprias, que no chocavam as outras. No 15 de Novembro enxergava um heri, o Baro de Ladrio, desconhecido antes da revolta, nascido para resistir  priso, receber tiros, no permitir que se derrubasse a monarquia suavemente. Esse pouco sangue bastava. E meu pai, livre de leituras, livre de sentimentos belicosos, viu no ministro uma glria incomparvel. Esqueceu-o depois completamente, deixou de aludir a qualquer espcie de bravura. Tinha imaginao fraca e era bastante incrdulo. Aborrecia os ateus, mas s acreditava no contas-correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel agenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos. Talvez at admitisse o Baro de Ladrio como personagem de fico.
     A poltica nacional era um romance que os meninos barbados folheavam, largavam, retomavam, deturpavam. Versteis, no permaneciam nessas alturas, caam nos sucessos vulgares, que eram tambm contos de fadas.
     O Doutor Juiz de Direito mencionava a comarca onde servira, no Amazonas. Jacars monstruosos, onas inofensivas, cobras que engoliam bois.
     Seu Andr Cursino, gordinho, baixinho, barrigudo, saa  rua vestido em robe-de-chambre.
     Seu Batista, embutido na camisa dura, enforcado na gravata preta, a barba em bico alongando-lhe [pg. 053] a cara magra, falava devagar. Quando se calava, as cabeas em redor balanavam-se aprovando-o, e os olhos maliciosos troavam dele.
     Seu Filipe Bencio, encorpado, tinha rugas  bigode grisalho. Srio, causava medo. Na conversa a gravidade esmorecia.
     Tipo mofino era o velho Quinca Epifnio, ossudo, inquieto, cara de fome, sovina at nas palavras. Guardava a despensa na loja: barricas bem cobertas, defendidas contra os ratos. De manh um moleque se chegava ao balco, a cesta pendurada no brao. O avarento destapava os esconderijos, pesava e media longamente a rao miservel: duzentas gramas de charque, dois dedos de toicinho, um pires de feijo. Privava-se disso e despedia o portador, gaguejando.
     Para l da lagoa, no alto de um monte, Seu Flix Cursino recebia visitas no alpendre de uma casa rodeada de cajueiros.
     Abaixo dessa classe andavam- criaturas que no liam jornais, ignoravam D. Pedro II e o Baro de Ladrio.
     Andr Laerte, barbeiro muito sujo, usava um avental ensangentado, pisava macio, com modos de gato.
     As gargalhadas do pedreiro Carcar feriam todos os ouvidos.
     Seu Acrsio, jogador e quase cego, ziguezagueava, batia nas paredes, tenteava degraus e portas com o cajado. No jogo, unia as cartas aos culos, apalpava-as lentamente, como se as visse com os dedos.
     Mestre Firmo alfaiate, a agulha metida na gola, pedia um cigarro. Se no o obtinha, entrava na bodega e comprava um mao. Tirava o cigarro [pg. 054] necessrio e, distribua dezenove, porque lhe faltava o instinto de proprietrio, moderava-se no vcio e devia a toda a gente.
     Alguns indivduos, quando no se apresentavam nas caladas, incorriam em censuras rigorosas. Seu Antnio Justino e Seu Afro estavam entre eles, o primeiro por ser indolente, o segundo por acomodar-se a uma vida irregular.
     Dificilmente se provaria que Seu Antnio Justino fosse mais preguioso que os outros habitantes da vila, mas todos o condenavam: no tinha fazenda nem ofcio, no jogava e nas reunies das esquinas opinava medianamente.
     Seu Afro, vtima de uma infelicidade que s muito mais tarde compreendi, no se julgava infeliz, aparentava no julgar-se infeliz: era um rapago corado, forte, risonho. Vendo-o pelas costas, as pessoas que discutiam Canudos e o Baro de Ladrio faziam caretas de repugnncia, largavam frases contundentes ou gestos obscenos. Porque Seu Afro, casado no religioso, morava no Cavalo-Morto, zona imprpria, com a mulher, grande loura sardenta, e um compadre. Esse amigo tinha residncia nominal na fazenda, mas de fato vivia na rua e no pecado, entregue de corpo e alma  famlia adotiva  uma dedicao que o tempo e os remoques no esfriavam nem corrompiam. Os trs achavam no seu pequenino mundo substncia para manter a sociabilidade que havia neles. Dispensavam festas, visitas, palestras. E D. Maroca, vistosa, branca de carnes e de roupa, bem lavada e bem esfregada, caminhava firme nos passeios, sem se voltar para as janelas, isenta de cortesias. As mulheres honestas se desviavam dela, rancorosas. E as desonestas, caiadas, pintadas, enxeriam-se: [pg. 055]
      Hum! hum! Maroca passa, nem olha.
     Diziam na verdade nem uia. Creio que diziam nenhuia, coisa estranha. D. Maroca no olhava. Seguia o seu caminho, aprumada  e s.
     Espantaram-me a desconsiderao e a frieza que envolviam essas criaturas. No me capacitava de que a moa bonita, cheirosa, engomada, fosse de qualquer maneira inferior a D. gueda de Seu Acrsio, magra e pontuda. Tambm me parecia injusto dar ao velho Quinca Epifnio, engelhado e faminto, mais valor que a Seu Afro, robusto e alegre. O juzo dos homens era esquisito. Bem esquisito.
     Contudo esse julgamento absurdo acompanhou-me. Fixou-se, ganhou razes. Indigno-me, quero extirp-lo, reabilitar Seu Afro e D. Maroca. Duas pessoas normais. Penso assim. E desprezo-as, sinto-as decadas. Impossvel deixar de senti-las decadas. Repito mentalmente os desconchavos de Padre Joo Incio. [pg. 056]
     
     

Vida nova



A nossa casa era na Rua da Palha, junto  de D. Clara, pessoa grave que tinha diversos filhos, um gato, marido invisvel. Uma parenta dela, irmo ou sobrinha, dessas criaturas que no pedem, no falam, no desejam, aparecem quando so teis e logo se somem, fogem aos agradecimentos, familiarizou-se conosco, tomou conta dos arranjos da instalao. Espanou, esfregou, arrumou as cadeiras pretas, os armrios, os bas cobertos de sola, enfeitados de brochas. Findos os trabalhos, ausentou-se. At o nome dela se perdeu. Meu pai, transformado em comerciante, estabeleceu-se no Largo da Feira. A, num socavo triste, de que mais tarde me lembrei ao ver subterrneos em folhetins, passou dias abrindo caixas e fardos, empilhando mercadorias, examinando faturas, calculando, a lpis, em pedaos de papel de embrulho. Esperei debalde v-lo concluir esse exerccio, voltar ao banco do alpendre e  vazante. Aproximava-me dele muitas vezes, com recados. E [pg. 057] no caminho largo a princpio me retardava, contemplando as roseiras do jardim, as paredes brilhantes de azulejos, o sobradinho onde havia homens fardados.
     Isso durou pouco. Minha me descobriu ndoas no cho, raspou o tijolo, apavorou-se ao ter notcia do que elas eram sangue de tuberculoso. Lavou muito as mos, chorou, desesperou-se, convenceu-se de que as hemoptises velhas iam penetr-la e mat-la. Fechou o quarto contaminado e resolveu mudar-se.
     Algum tempo depois estvamos localizados, negcio e famlia, numa esquina, perto do Cavalo-Morto. Atrs da loja, de quatro portas, duas em cada frente, havia o armazm de ferragens e o depsito de milho, onde eu e minhas irms brincvamos. A um lado, a sala de visitas, as cavernas do casal e das meninas, a despensa e a cozinha. Um corredor separava a habitao do estabelecimento, desembocava na sala de jantar, larga e baixa. A bancos ladeavam a mesa grosseira, e uma cama de lona escondia-se num canto, a cama que me ofereceram quando larguei a rede, por causa das almas do outro mundo.
     As almas vieram uma noite, quatro ou cinco, estirando-se e acocorando-se  entrada do corredor. Assustei-me, gritei, acordei toda a gente, descrevi as figuras luminosas que se moviam na escurido, subindo, baixando. Quando subiam, as cabeas delas alcanavam o teto. Fui deitar-me noutro lugar e no dia seguinte obtive uma notoriedade que me envergonhou. Repetiram o fato, acreditaram nele, responsabilizaram-me por minudncias de que no me recordava. Podia um ser to mido inventar [pg. 058] aquilo? Atordoava-me, queria evitar os exageros, dizer que a minha histria no merecia importncia, e receava desprestigiar-me. Eu tinha julgado perceber umas luzes  e as luzes tomavam corpo de repente, entravam nas conversas. Senti remorso, desejei reduzir as minhas almas. Assombrara-me  toa. Vinham-me, porm, dvidas. Afirmaram, desenvolveram o caso estranho  e por fim admiti a viso. Talvez no me houvesse enganado completamente. No enxergara as claridades que se alongavam e encurtavam, mas devia ter visto qualquer coisa.
     Esqueci pouco a pouco a aventura e apaguei-me, reassumi as propores ordinrias. Ficou-me, entretanto, um resto de pavor, que se confundiu com os receios domsticos. Arrepios sbitos, cabelos eriados, tonturas, se algum me falava. Nas trevas das noites compridas consegui afugentar perigos enrolando-me, deixando apenas o rosto descoberto. Uma ponta de lenol envolvia a testa, rodeava a cara. Sentia-me assim protegido: nenhum fantasma viria ameaar-me a boca, o nariz e os olhos expostos. Se o pano se soltava, enchia-me de terrores. Era preciso que as orelhas e o couro cabeludo se escondessem, provavelmente por serem as partes mais sujeitas a acidentes. 'Talvez os duendes viessem mago-las.
     Vivamos numa priso, mal adivinhando o que havia na rua, enevoada longos meses. Conhecamos o beco: da janela do armazm, trepando em rolos de arame, vamos, em dias de sol, matutos de saco no ombro, cavalos amarrados num poste grosso, transeuntes que se chegavam cautelosos ao muro, espiavam os arredores e se afastavam depois de molhar o tijolo vermelho. [pg. 059]
     A alguns passos, na outra esquina, uma casa semelhante  nossa. Trs meninos, uma senhora magra, nervosa, um homem de pernas finas metidas em calas estreitas demais, pernas que lhe tinham rendido a alcunha. Desajeitado em cima delas, Teotoninho Sabi piscava os olhos amarelos de ave, sacudia as grandes asas depenadas e bocejava um cacarejo inexpressivo. Observvamos pedaos de vida, namorvamos o oito da outra gaiola, aberta, e tnhamos inveja imensa dos Sabis pequenos, desejvamos correr e voar com eles.
     Nos dias de inverno o beco se transformava num rego de gua suja, onde se desfaziam complicados edifcios e navegavam barquinhos de papel, sob o comando de um garoto enlameado. A garoa crescia. A chuva oblqua enregelava-nos. Uma cortina oscilante ocultava os mveis, as prateleiras da loja. Os tecidos criariam mofo, os metais se oxidariam. Fechavam-se as portas e as janelas. As figuras moviam-se na sombra, indeterminadas.
     Ia recolher-me  cama da sala de jantar, envolvia-me nas cobertas midas. Enxergava a custo as poas do quintal, as manchas que se alargavam nas paredes, a telha escura, uma quina da prensa de farinha, velha e carunchosa, cada no alpendre. Havia um cheiro acre de lenha verde queimada; a fumaa da cozinha unia-se  poeira de gua, engrossava a fuligem que tingia as teias de aranha. Enorme bica de madeira, um rio suspenso, transbordava nas trovoadas, com surdo rumor. Depois amansava, ficava dias e dias atirando pingos no cho, derramando alm do copiar um esguicho leve e silencioso, que o vento agitava.
     No se distinguia nenhum rudo fora a cantiga dos sapos do aude da Penha, vozes agudas, [pg. 060] graves, lentas, apressadas, e no meio delas o berro do sapo-boi, bicho terrvel que morde como cachorro e, se pega um cristo, s o larga quando o sino toca. Foi Rosenda lavadeira quem me explicou isto. Admirvel o sino. Como seria o sapo-boi? Pelas informaes, possua natureza igual  natureza humana. Esquisito. Se eu pudesse correr, sair de casa, molhar-me, enlamear-me, deitar barquinhos no enxurro e fabricar edifcios de areia, com o Sabi novo, certamente no pensaria nessas coisas. Seria uma criatura viva, alegre. S, encolhido, o jeito que tinha era ocupar-me com o sapo-boi, quase gente, sensvel aos sinos. Nunca os sinos me haviam impressionado.

Sapo cururu
Da beira do rio.
No me bote na gua,
Maninha:
Cururu tem frio.
     
     Cantiga para embalar crianas. Os cururus do aude choravam com frio, de muitos modos, gritando, soluando, exigentes ou resignados. Eu tambm tinha frio e gostava de ouvir os sapos. [pg. 061]

     
Padre Joo Incio




O PONTO de reunio e fuxicos era a sala de jantar, que, por duas portas, olhava o alpendre e a cozinha. Como falavam muito alto, as pessoas se entendiam facilmente de uma pea para outra. Nos feixes de lenha arrumados junto ao fogo, na prensa de farinha, nos bancos duros que ladeavam a mesa, a gente se sentava e ouvia as emboanas do criado, um caboclo besta e palrador. Rosenda lavadeira cachimbava e engomava roupa numa tbua. O moleque Jos e a moleca Maria esgueiravam-se da sombra, perdiam a condio e a cor, no se distinguiam quase dos meninos de Teotoninho Sabi.
     Vivamos todos em grande mistura  e a sala de visitas era intil, com as cadeiras pretas desocupadas, uma litografia de S. Joo Batista e uma do inferno, o pequeno espelho de cristal que Amando, afilhado de meu pai, trouxera do Rio ao deixar o exrcito no posto de sargento. Esse espelho caa da parede e nunca se partiu, rivalizava com o copo [pg. 062] azul, lembrana do casamento de meu av, e o paliteiro que representava dois galos e uma raposa. H meia dzia de anos o paliteiro ainda existia, mau um dos galos se tinha ausentado.
     As cadeiras pretas no se espanavam. Certo dia o tenente de polcia desconfiou delas, tirou o leno e esfregou uma. Horrvel. Minha me se enfureceu, tencionou besuntar os mveis com azeite de peixe, arrumar a farda no-me-toque daquele safadinho. Desistiu da vingana  e a sala se conservou deserta, abrindo-se raramente para receber D. Conceio, D. Clara, D. gueda, outras senhoras que se enfastiavam no silncio, espiando o santo, os demnios chifrudos, o espelho, a sola do marque-so empoeirado.
     Afinal aquilo se transformou em paiol. Retirou-se a moblia, transportou-se para ali o milho que no depsito era um viveiro de borboletas. Ficara o gro exposto, aguardando a carestia por causa da seca, e a lagarta dera nele. Desvalorizava-se agora. Indispensvel trat-lo com veneno, matar os bichos. Uma festa para as crianas. Eu e minhas irms revolvemos a tulha cor de ouro, espalhando o arsnico. Dispensou-se o trabalhador  e ns nos encarregamos gostosamente da tarefa. Abandonamos a prensa de farinha, o armazm atravancado de ferragens, o quintal nu, donde se ouvia o descaroador barulhento do Cavalo-Morto.
     Na sala, mudada em celeiro, o nosso ambiente se alargava de chofre, adquiramos liberdade. As sementes se derramavam no corredor, iam-se acumulando, formavam uma ladeira, que subamos at alcanar as janelas. Da dominvamos a rua, vamos os transeuntes mais baixos que ns. Seu Acrsio errava o caminho, tropeava, batia nas paredes e [pg. 063] rosnava: "Diabo! diabo! diabo!" Alguns passos  direita, Seu Chico Brabo maltratava Joo. No solo movedio achvamos firmeza. A nossa brincadeira representava utilidade  e no viriam desmancha-prazeres aquietar-nos, impor-nos disciplina. Contudo uma sombra s vezes nos toldava a alegria: a recordaro do Vigrio. Na cozinha e na sala de jantar pintavam-no terrvel, uma espcie de lobisomem criado para forar-nos  obedincia. Citavam-se os despropsitos dele na igreja. Isto no nos interessava. Tnhamos, porm, razo para temer aquele homem tenebroso por fora e por dentro. No ria. O olho postio, imvel num crculo negro, dava-lhe aspecto sinistro.
     Alm disso Padre Joo Incio habituara-se a cuidar de variolosos, viventes que infundiam pavor a toda a vila. Se aparecia notcia deles, as portas se fechavam, o comrcio enfraquecia, nas pontas das ruas queimavam excremento de boi e creolina em cacos de telha. Uma noite levavam os infelizes, enrolados, paia os barraces de palha feitos nas brenhas, onde a carne doente apodrecia quase ao abandono, sobre folhas de bananeiras. Alguns enfermeiros imunizados furavam-lhes as pstulas com espinhos de mandacaru, lavavam-nas com aguardente e cnfora. Havia grande mortandade, e as marcas dos sobreviventes eram horrorosas. Os curandeiros dessa praga inspiravam tanto receio como as vtimas dela. Cercava-os uma faixa de isolamento. Admirao e repugnncia.
     Pois numa epidemia das mais violentas Padre Joo Incio e Capito Badega isentos de preservativos, se haviam estabelecido nos barraces. Gente medrosa sucumbira. Os dois tinham sado ilesos e, em conseqncia, virado comendadores. Distino [pg. 064] balda. O Vigrio nunca chegou a Cnego. E Capito Badega permaneceu capito, sumido na fazenda, insensvel a honrarias, lendo Csar Cantu, governando vrios filhos naturais e um lote de cabrochas.
     Depois da faanha, Padre Joo Incio arranjara tubos de linfa e comeara a furar os braos da humanidade na vila e circunvizinhana. Os sertanejos no queriam meter a desgraa no corpo, adoecer por gosto; Se um mdico tentasse a inoculao, haveria distrbios. Mas aquela autoridade franzina usava despotismo, no descia a explicaes. Insultava a canalha, raa de cachorro com porco. Mandava porque tinha poderes: era Albuquerque e sacerdote. E os paroquianos se deixavam contaminar, covardes, lamentando que S. Rev.ma no se dedicasse inteiramente s cerimnias do culto. No se dedicava. Dirigia um partido poltico  e o culto lhe merecia fraca ateno.
     Fora condiscpulo do Padre Ccero. Falava no taumaturgo, que principiava a notabilizar-se: apagado, sofrvel, por no ser Albuquerque.
     Padre Joo Incio era pobre e tinha credores, que dominava. Conseguia, cheio de necessidades, exibir independncia, injuriar, gritar.
     Fomos vacinados na loja, grados e midos. Na surpresa, ignorando a tendncia m do homem, no senti dor nem medo. Mas as feridas que vieram, resguardos, febre, quarenta dias sem toicinho, me pareceram obra do reverendo. Comentei o desastre com minhas irms. A pequena, um animalzinho, no atribua s picadas o longo padecimento e a dieta rigorosa. A mais velha, porm, que j discernia motivos e me auxiliava no furto de doces, concordou comigo: realmente a criatura malvada [pg. 065] nos dava achaques e nos proibia o toicinho. Suspeitamos que a infelicidade se renovaria, e a suspeita, confirmada no alpendre e na cozinha, se cometamos alguma falta, mudou-se em convico.
     "Uma tarde preguivamos no milho. Fazamos buracos, e quando estavam bastante fundos, mergulhvamos neles, provocvamos o desmoronamento, das rampas e desaparecamos sob runas amarelas. Isto me dava imenso prazer.
     Muito me haviam impressionado, em narrativas de Jos Baa, as referncias a oraes fortes, especialmente  da cabra preta, de enorme virtude. Quem possui essa mandinga escapa s mais graves situaes, desdenha emboscadas, suprime inimigos, anda afoito pelos caminhos, emudece as armas de fogo. No perigo, transforma-se num toco. Ou some-se, evapora-se  e diante do bacamarte fixo na forquilha da tocaia apresenta-se a imagem de Nosso Senhor crucificado.
     Eu desejava conhecer a reza valorosa. Ser-me-ia agradvel passar uma hora em sossego, olhando o muro do quintal, ouvindo os sapos do aude da Penha, o descaroador do Cavalo-Morto. No me repreenderiam. Caso me chamassem, conservar-me-ia sentado na prensa de farinha, silencioso. Podiam gritar. Avizinhar-se-iam de mim  eu me afastaria alguns centmetros, calmo, em segurana. E pregaria um susto  moleca Maria, puxando-lhe de leve o pixaim. Depois, defendido pelo feitio enrgico, lanar-me-ia em contravenes importantes: vagaria nas ruas, invisvel, jogando pies invisveis, empinando papagaios invisveis. Demorar-me-ia nas esquinas, escutando histrias curiosas, deitar-me-ia nas caladas, juntar-me-ia aos garotos sujos e turbulentos. Permanecendo isolado, [pg. 066] incorporar-me-ia a todos os grupos. E se avistasse Padre Joo Incio, correria para ele, examinar-lhe-ia a magrm disfarada na batina rua, o olho duro imvel na rbita negra. Passearamos como dois amigos.
     Ali, oculto no milho, apenas com o rosto descoberto, enchia-me dessas idias, imaginava-me um ser encantado. Punha-me a tagarelar. Minha irm divagava tambm, sem corpo, escondida no mistrio. As nossas conversas, s vezes tempestuosas, eram agora um sussurro, como as que tnhamos  noite, na sala de jantar.
     No momento em que o padre chegou, duas covas estavam prontas. Surgiu perto de ns, to perto que poderia, estirando o brao, alcanar-nos com o guarda-chuva.
      Leonor! cochichei numa agonia. Leonor voltou-se e desfaleceu. Camos em desnimo esquisito, como dois bichinhos magnetizados. Faltava-me a fora necessria para mover-me, ganhar a porta, fugir pelo corredor. A figura medonha prendia-me  e o bugalho parecia querer sair da mancha que se alargava na cara magra, saltar em cima de mim. O queixo roava quase o peitoril da janela. A boca franzida comia os beios. Foi o que vi. Isso e o cabo curvo do guarda-chuva cavalgando um ombro. Em seguida veio uma turvao, nevoeiro. E, no burburinho que houve, duas ou trs palavras secas, autoritrias, incompreensveis, feriram-me os ouvidos. Com certeza o Vigrio mandou algum recado aos donos da casa, mas isto ia alm de meu entendimento. Um arrepio, sbito golpe de ar invadindo-me os pulmes e ficando l dentro, aperto na garganta, o corao desmaiado, a carne bamba, a vontade suspensa. O [pg. 067] instinto me atraa para a cova, ali a um palmo de distncia, mas achava-me incapaz de sepultar-me nela. Sob os membros paralisados, as sementes se deslocavam, chiavam, e no se decidiam a resvalar depressa, arrastar nos, cobrir-nos. O fantasma esteve um longo minuto esperando que nos levantssemos e obedecssemos. Como no nos mexemos, desviou-se resmungando fanhoso  o seu modo ordinrio de manifestar desaprovao. Estpidos. Livres das bexigas e ingratos. Deve ter pensado assim.
      Estpidos.
     Padre Joo Incio no sabia falar conosco, sorrir, brincar  e as nossas almas se fecharam para ele. Em Padre Joo Incio, homem de aes admirveis, s percebamos dureza. [pg. 068]
     

O fim do mundo




MINHA me lia devagar, numa toada inexpressiva, fazendo pausas absurdas, engolindo vrgulas e pontos, abolindo esdrxulas, alongando ou encurtando as palavras. No compreendia bem o sentido delas. E, com tal prosdia e tal pontuao, os textos mais simples se obscureciam. Essas deturpaes me afastaram do exerccio penoso, verdadeiro enigma. Isso e o aspecto desagradvel do romance de quatro volumes, enxovalhado e roto, que as vizinhas soletravam, achando intenes picarescas nas gravuras soltas, onde a tinta esmorecia, sob ndoas. "Um grupo estranho e por igual..." Falta o adjetivo que rematava a legenda de uma das ilustraes. Julgo que era vistoso. Vrias pessoas numa caixa com rodas, puxada por dois cavalos, diferente dos carros de bois que chiavam nos caminhos sertanejos. Em cima da caixa emproava-se um tipo de chicote e bigode, um cocheiro, segundo me disseram, nome inadequado, na minha opinio. Cocheiro devia tratar de [pg. 069] cochos, objetos que no se viam no livro. Tudo ali discordava da nossa linguagem familiar. "Um grupo estranho e por igual vistoso." Parecia cantiga.
     Minha me repetiu isso at decorar a histria de Adlia e D. Rufo. Cansou-se, transferiu-se para uns folhetos de capa amarela, publicao dos salesianos. Passava horas no marqueso preto da sala de visitas, os olhos esbugalhados, atenta, a boca franzida, volvendo de longe em longe, com saliva, a pgina piedosa. Enchia-se de milagres ingnuos, parbolas, biografias de santos, lendas, conselhos exigentes, ofertas indefinidas e ameaas. Extasiava-se com as aes de D. Bosco, timo velhinho, semelhante a Frei Caetano, o missionrio que andou pelo Nordeste, elevando as almas caboclas.
     Abandonava essas alturas, tomava-se de pavores, metia-se na camarinha, a esconder-se dos castigos eternos. Excitava-se, desanimava, encontrando talvez na conscincia qualquer miudeza censurada na brochura de capa amarela. Fugia da Terra espiava o alm. Em seguida se ausentava da prova severa, caa no vulgar, comentava os mexericos da vila, repreendia os moleques, resmungando, largando muxoxos. No admitia que falssemos em muxoxo. Era uma birra esquisita. Se um de ns soltava a expresso condenada, ela se zangava e corrigia: tunco. No gostvamos da onomatopia: insistamos no vocbulo perseguido, sabendo que isto nos rendia desgosto.
     A existncia ordinria, entregue a negcios terrestres e caseiros, durava duas, trs semanas, at o correio trazer o fornecimento mensal de literatura religiosa. Surgiam as beatas estigmatizadas, D. Bosco, [pg. 070] dilogos singelos, casos edificantes, delcias vagas do cu e torturas minuciosas do inferno.
     Purificando-se nessa boa fonte, minha me s vezes necessitava expanso: transmitia-me arroubos e sustos. Uma tarde, reunindo slabas penosamente, na gemedeira habitual, teve um sobressalto, chegou o rosto ao papel. Releu a passagem  e os beios finos contraram-se, os olhos abotoados cravaram-se no espelho de cristal. Certamente se inteirava de um sucesso mau e recusava aceit-lo. Antes de mergulhar no pesadelo, segurava-se aos trastes mesquinhos  o espelho, o relgio, as cadeiras  e buscava amparar-se em algum.
     Atraiu-me, segredou queixas sumidas e insensatas. Perplexa, ora se voltava para as janelas, ora examinava o livrinho aberto na sola do marqueso, negra e cncava. No se conservou muito tempo indecisa. Na doentia curiosidade, arrojou-se  leitura, desperdiou uma hora afligindo-se em demasia. Levantou-se, atravessou o corredor, a sala de jantar, arriou na prensa de farinha do alpendre. Seguia-a, sentei-me perto, calado, esperei que ela me chamasse. As nossas desavenas morreram. Julguei-a fraca e boa, desejei poder alivi-la, dizer qualquer coisa oportuna. Sentia o corao pesado, um bolo na garganta, e propendia a alarmar-me tambm. Odiei a brochura, veio-me a idia de furt-la, escond-la ou rasg-la.
     A pobre mulher desesperava em silncio. Apertava as mos ossudas, inofensivas; o peito magro subia e descia; limitando a mancha vermelha da testa, uma veia engrossava. Diversas pessoas da famlia tinham a mancha curiosa. Em momentos de excitao ela se avivava, quase roxa, da sobrancelha [pg. 071]  raiz do cabelo  e essas criaturas se enfureciam, avizinhavam-se da loucura.
     Afinal minha me rebentou em soluos altos, num choro desabalado. Agarrou-me, abraou-me violentamente, molhou-me de lgrimas. Tentei livrar-me DAS carcias speras. Por que no se aquietava, no me deixava em paz?
     A exaltao diminuiu, o pranto correu manso, estancou, e uma vozinha triste confessou-me, entre longos suspiros, que o mundo ia acabar. Estremeci e pedi explicaes. Ia acabar. Estava escrito nos desgnios da Providncia, trazidos regularmente pelo correio. Na passagem do sculo um cometa brabo percorreria o cu e extinguiria a criao: homens, bichos, plantas. Riachos e audes se converteriam em fumaa, as pedras se derreteriam. Antigamente a clera de Deus exterminara a vida com gua; determinava agora suprimi-la a fogo.
     Eu ignorava o sculo, os cometas, a tradio. E estendia fraternalmente a minha ignorncia a todos os indivduos. No percebendo o mistrio das letras, achava difcil que elas se combinassem para narrar a infeliz notcia. Provavelmente minha me se tinha equivocado, supondo ver na folha desastres imaginrios. Expus esta conjectura, que foi repelida. A desgraa estava anunciada com muita clareza. Olhei o muro de tijolo, considerei-o indestrutvel.
     Algum tempo depois eu e minha irm brincvamos junto dele. Corramos da para o copiar, voltvamos, descansvamos um instante na sombra, corramos de novo. Numa dessas viagens, alcanando a prensa de farinha, ouvimos grande barulho. Viramo-nos. O muro tinha desaparecido. Vimos entulho, barro, uma nuvem de poeira, rvores no [pg. 072]
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quintal subitamente crescido, fundos de casas, o descaroador do Cavalo-Morto. Enquanto no se fez outra parede, habituamo-nos a saltar os escombros, admirar ferrinhos caprichosos, a mquina a devorar capulhos, pasta de algodo a esvoaar, lentas, formando uma saraiva grossa e fofa. A diligncia do motor, os giros das rodas, da polia, da correia, das serras, substituam os rumores que nos embalavam durante a safra. Ganhamos experincia, discutimos. E a minha confiana nas construes minguou.
     Naquela tarde, porm, informando-me da profecia, eu ainda no acreditava nos desmoronamentos. O muro estava inabalvel. Convenci-me de que um fenmeno duvidoso e afastado, quase sem nome, no teria fora para derrub-lo. Tambm achei que Deus no eliminaria por atacado, sem motivo, Seu Afro, Carcar, Jos da Luz, Andr Laerte, mestre Firmo, Seu Acrsio, Rosenda, os meninos de Teotoninho Sabi. E Padre Joo Incio. Quem tinha contado ao sujeito do livro que Deus resolvera matar Padre Joo Incio1? Padre Joo Incio era poderoso. Recusei o vaticnio, firme. Conversa: o mundo no ia acabar. Um mundo to vasto, onde se arrumavam desafogadamente a vila e a fazenda, resistiria.
     Minha me estranhou a manifestao rebelde, tentou provar-me que os doutores conheciam as trapalhadas do cu e adivinhavam as conseqncias delas. Mas queria certificar-se de que se enganava, pelo menos na parte relativa ao enorme incndio. Refutou a minha afirmao com descomposturas enrgicas lanadas em tom amvel. Foi serenando, terminou o debate como se nos referssemos a vises de sonho. Teimava em declarar-me um animal. No [pg. 075] conseguiu intimidar-me. E era essa ausncia de medo, indiferena aos perigos distantes, ao fogo, ao extermnio, que a tranqilizava.
     Esteve alguns dias apreensiva, folheando a brochura, os olhos arregalados, sria. Enfim abandonou o cataclismo, embrenhou-se em novos temores.
     O cometa veio ao cabo de, uns dois anos e comportou-se bem. Minha me foi observ-lo da porta da igreja, sem nenhum receio, esquecida inteiramente da predio. Nesse tempo ns nos tnhamos mudado, vivamos longe da vila. O mundo estava imenso, com muitas lguas de comprimento  e desafiava, seguro, profecias e cometas. [pg. 076]
     

O inferno




As vezes minha me perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moo que ela, habituei-me, nessas trguas curtas e valiosas, a julg-la criana, uma companheira de gnio varivel, que era necessrio tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfad-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre ns, alargavam-se de chofre  e causavam-me desgosto.
     Um dia, em mar de conversa, na prensa de farinha do copiar, minha me tentava compor frases no vocabulrio obscuro dos folhetos. Eu me deixava embalar pela msica. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.
     Sbito ouvi uma palavra domstica e veio-me a idia de procurar a significao exata dela. Tratava-se do inferno. Minha me estranhou a curiosidade: impossvel um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente [pg. 077] eu possua noes. O inferno era um nome feio, que no devamos pronunciar. Mas no era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde as pessoas mal-educadas mandavam outras, em discusses. E num lugar existem casas, rvores, audes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrio. Minha me condenou a exigncia e quis permanecer nas generalidades. No me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a cincia dela. Por que no contava o negcio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. No havia l plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, pssimos, torturados por demnios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que as de S. Joo e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.
     Fogueiras de S. Joo eu conhecia. Tinha-se feito uma diante da casa. Eu andara  tardinha em redor do monte de lenha que o moleque Jos arrumava. Admirando os aprestos, espantava-me de haver nascido ali de supeto um mamoeiro carregado de frutos verdes.  noite deitara-se na pilha uma garrafa de querosene, viera um tio. E eu ficara na calada at dez horas, olhando as labaredas, que meu pai alimentava com aduelas e sarrafos. A gente da vila mexia-se, ria e cantava, iluminada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do mamoeiro se torravam, pulverizavam. E na rua, desentulhada, apareciam grandes manchas negras.
     Tambm conhecia o breu derretido. No armazm, barricas finas continham substncia escura que, pisada, tomava a cor das moedas de vintm [pg. 078] livres do azinhavre raspadas no tijolo, molhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedao dessa maravilha, com um peso de meio quilo, junto  balana romana da loja. Tinha posto a massa dourada num cartucho de jornal, riscado um fsforo em cima e esperado o fenmeno. Uma lgrima correra no papel, alcanara-me o dedo anular, descera da unha  primeira falange. Largando a experincia, eu me desesperara, abafando os gritos, fora meter a mo num pote de gua. Tinha sofrido em silncio, receando que percebessem a traquinada e a queimadura.
     Quando minha me falou em breu derretido, examinei a cicatriz do dedo e balancei a cabea, em dvida. Se o pequeno torro, esmagado com o peso de meio quilo, originara aquele desastre, como admitir que pessoas resistissem muitos ano3 a barricas cheias derramadas em tachas fundas, sobre fogueiras de S. Joo?
      A senhora esteve l?
     Desprezou a interrogao inconveniente e prosseguiu com energia.
      Eu queria saber se a senhora tinha estado l. To tinha estado, mas as coisas se passavam daquela forma e no podiam passar-se de forma diversa. Os padres ensinavam que era assim.
      Os padres estiveram l?
     A pergunta no significava desconfiana na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desejava que me explicassem a regio de hbitos curiosos. No me satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vtimas e demnios. Necessitava pormenores.
     Minha me estragada a narrao com uma incongruncia. Assegurara que os diabos se davam [pg. 079] bem na chama e na brasa. Desconhecia, porm, a resistncia das almas supliciadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estgio mais ou menos longo, se transformariam em diabos. Indispensvel esclarecer esse ponto. No busquei razes, bastavam-me afirmaes. Achava-me disposto a crer, aceitaria os casos extraordinrios sem esforo, contanto que no houvesse neles muitas incompatibilidades. Reclamava unia testemunha, algum que tivesse visto diabos chifrudos, almas nadando em breu. Ainda no me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas.
      Os padres estiveram l"? tornei a perguntar.
     Minha me irritou-se, achou-me leviano e estpido. No tinham estado, claro que no tinham estado, mas eram pessoas instrudas, aprendiam tudo no seminrio, nos livros. Senti forte decepo: as chamas eternas e as caldeiras medonhas esfriaram. Comeava a julgar a histria razovel, adivinhava por que motivo Padre Joo Incio, poderoso e meio cego, furava os braos da gente, na vacina. Com certeza Padre Joo Incio havia perdido um olho no inferno e de l trouxera aquele mau costume. A resposta de minha me desiludiu-me, embaralhou-me as idias. E pratiquei um ato de rebeldia:
      No h nada disso.
     Minha me esteve algum tempo analisando-me, de boca aberta, assombrada. E eu, numa indignao por se haverem dissipado as tachas de breu, os demnios, o prestgio de Padre Joo Incio, repeti:
      No h no.  conversa. [pg. 080]
     Minha me curvou-se, descalou-se e aplicou-me vrias chineladas. No me convenci. Conservei-me dcil, tentando acomodar-me s esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos. [pg. 081]
     
O moleque Jos




A preta Quitria engendrou vrios filhos. Os machos fugiram, foram presos, tornaram a fugir  e antes da abolio j estavam meio livres. Sumiram-se. As fmeas, Lusa e Maria, agregavam-se  gente de meu av. Maria, a mais nova nascida forra, nunca deixou de ser escrava. E Joaquina, produto dela, substituiu-a na cozinha at que, mortos os velhos, a famlia no teve recurso para sustent-la. A Joaquina se libertou. E casou, diferenando-se das ascendentes. Lusa era intratvel e vagabunda. Em tempo de seca e fome chegava-se aos antigos senhores, instalava-se na fazenda, resmungona, malcriada, a discutir alto, a fomentar a desordem. Ao cabo de semanas arrumava os picus e entrava na pndega, ia gerar negrinhos, que desapareciam comidos pela verminose ou oferecidos, como crias de gato. Parece que s escaparam os dois recolhidos por meu pai.
     A moleca Maria tinha a natureza da me. E no podendo revelar-se, lavava pratos e varria a [pg. 082] casa em silncio, morna, fechada, isenta de camaradagens, esperando ganhar asas e voar. Realizou esse projeto.
     O moleque Jos, tortuoso, sutil, falava demais, ria constantemente, suave e persuasivo, tentando harmonizar-se com todas as criaturas. Repelido, baixava a cabea. Voltava, expunha as suas pequenas habilidades sem se ofender, jeitoso, humilde, os dentes  mostra. No era alegre. Os olhos brancos ocultavam-se, frios e assustados, os beios tremiam s vezes, mas isto se disfarava numa careta engraada que amolecia a clera das pessoas grandes. E Jos se escapulia, escorregava, brando e gelatinoso, das mos que o queriam agarrar. Apanhado na malandragem, mentia, inocente e sem-vergonha. Juntava os indicadores em cruz, beijava-os: "Por Deus do cu, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, por esta luz que nos alumia." Franzino, magrinho, achatava-se. Uma insignificante mancha trmula.
     Nunca o vi chorar. Gemia, guinchava, pedia, soluava infinitas promessas, e os olhos permaneciam enxutos e duros. Enchia-me de inveja, desejava conter as minhas lgrimas fceis. Tomava-o por modelo. E, sendo-me difcil copiar-lhe as aes, imitava-lhe a pronncia, o que me rendia desgosto. Esfriavam-me a ambio de melhorar e instruir-me, foravam-me a recuperar a fala natural. Haviam obrigado o moleque a tratar-me por senhor, no admitiam que me reconhecesse indigno, me privasse voluntariamente daquele respeito mido. Jos, insensvel s minhas desvantagens, perseverava na obedincia, modesto, a proteger-me.
     amos com freqncia ao stio que meu pai cultivava perto da rua, para l do cemitrio novo. [pg. 083]
     Debaixo das rvores do aceiro, descansando sobre folhas secas, conservava-me horas entorpecido, a olhar as fileiras de mandioca, as cercas, periquitos que namoravam espigas amarelas. Jos vadiava nos ranchos vizinhos. Logo ao sair de casa, dobrando a esquina do Cavalo Morto, reunia-se a um lote de garotos. E o bando aumentava, era diante do muro de Seu Paulo Honrio um peloto ruidoso, que enfeitava a areia, com flores de mulungu. As mulheres da lavoura percebiam nas corolas encarnadas formas indecentes, pisavam-nas furiosas, dirigiam insultos s moitas. Os pirralhos ocultos gritavam, corriam pelo mato, espalhavam no cho outras flores, vermelhas e peludas, ficavam de tocaia, aperreando as mulheres. Montado no meu carneiro branco, espantava-me da indignao delas, queria saber por que esmagavam com os ps coisas to bonitas. Achava tola a brincadeira e enjoava-me dos meninos barulhentos. Certo dia um se aproximou de mim, puxou conversa usando palavras misteriosas. Jos interveio:
      Cala a boca. Ele no entende isso. 
     Entristeci, humilhado por anunciarem a minha ignorncia. Quis reclamar, fingir-me esperto, mas desanimei, confessei interiormente que eles procediam de modo singular. Afastei-me srio, livre de curiosidade.
     O meu carneiro branco morreu, os passeios ao stio findaram.
     Jos conhecia luares, pessoas, bichos e plantas. Uma vez enganou-se. Presumiu enxergar meu bisav num cavaleiro encourado visto de longe:
      Seu Ferreira de gibo, no cavalo de Seu Afro. [pg. 084]
     Discordei. Meu bisav s vestia couro no trabalho do campo. Na rua apresentava-se de colarinho e gravata,  feira,  missa, s eleies, ao jri. E no viajava em animal emprestado. Quando o homem se avizinhou, notamos o equvoco  e isto me deu satisfao. Senti o moleque prximo e falvel. Eu julgava a cincia dele instintiva e segura. Modifiquei o juzo e alimentei a esperana de, com esforo, decorar nomes tambm, orientar-me em caminhos e veredas.
     Apesar do erro, o prestgio de Jos no diminuiu. Convenci-me de que ele se havia expressado bem e repeti com entusiasmo:
      Seu Ferreira de gibo, no cavalo de Seu Afro.
     Acabei por dividir a frase em dois versos, que a princpio declamei e depois cantei:
     
Seu Ferreira de gibo, 
No cavalo de Seu Afro.
     
     Minha me se aborreceu, atirou-me os qualificativos ordinrios. Estpido, idiota. Mordi os beios, fui esconder-me no armazm, olhar o beco. Mas, trepado na janela, as pernas cadas para fora, no esquecia o disparate e monologava, batendo com os calcanhares no tijolo:
     
Seu Ferreira de gibo, 
No cavalo de Seu Afro.
     
     Jos deu-me vrias lies. E a mais valiosa marcou-me a carne e o esprito. Lembro-me perfeitamente da cena. Era de noite, chovia, as goteiras pingavam. Na sala de jantar meu pai argia [pg. 085] o pretinho, que se justificava mal. Nenhum indcio de tempestade e violncia, pois a culpa era leve e meu pai no estava zangado: contentar-se-ia com algumas injrias. Achando-se disposto a absolver, aceitava facilmente as explicaes. A um desconchavo do acusado, a voz spera se amaciava, um riso grosso estalava  e a calma se restabelecia. Atravessvamos, porm, momentos difceis: no podamos saber se ele ia abrandar ou enfurecer-se. E o nosso procedimento o levava para um lado, para outro. Acertvamos ou falhvamos como se jogssemos o cara-ou-cunho. Se os fregueses andavam direito na loja, obtnhamos generosidades imprevistas; se no andavam, suportvamos rigor. Provavelmente  assim em toda a parte, mas ali essas viravoltas se expunham com muita clareza.
     Naquela noite Jos, como de costume, negou uma traquinada insignificante. Apertado na inquirio, continuou a negar. Vieram provas, surgiu a evidencia. O negro estava obtuso, no percebeu que devia soltar ao menos uns pedaos de confisso e defender-se depois, jurar por "esta luz, pelas chagas de Cristo, no reincidir. Perdeu o ensejo  e a autoridade se arrenegou, no por causa da falta, venial, mas pela teimosia, agravada talvez com a recordao de fatos estranhos. Agora o infeliz precisava resignar-se ao castigo. E resistia, procurava atenuar a raiva esmagadora. A infrao inchava, confundia-se com outras mais velhas, j perdoadas, e estas cresciam tambm, tornavam-se crimes horrveis.
     Quando meu pai se tinha irado bastante, segurou o moleque, arrastou-o  cozinha. Segui-os, curioso, excitado por uma viva sede de justia. Nenhuma simpatia ao companheiro desgraado, [pg. 086] que se agoniava no pelourinho, aguardando a tortura. Nem compreendia que uma interveno moderada me seria proveitosa, originaria o reconhecimento de um indivduo superior a mim. Conservei-me perto da lei, desejando a execuo da sentena rigorosa. No me afligiam receios, porque ningum me acusava, ningum me bulia a conscincia. No distinguindo perigos, supunha que eles se haviam dissipado inteiramente.
     As brasas no fogo cobriam-se de cinza, morriam sob chuviscos; a gua da bica salpicava o ladrilho escorregadio; a labareda fumacenta do candeeiro oscilava. Num murmrio, a criana beijava os dedos finos. De repente o chicote lambeu-lhe as costas e uma grande atividade animou-a. Ps-se a girar, desviando-se dos golpes. E as palavras afluam num jorro:
      Por esta luz, meu padrinho. Pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
     A splica lamurienta corria intil, doloroso ganido de cachorro novo. Muitas vergastadas se perdiam, fustigavam as canelas do juiz transformado em carrasco. Este largou o instrumento de suplcio, agarrou a vtima pelas orelhas, suspendeu-a e entrou a sacudi-la. Os gemidos cessaram. O corpo mofino se desengonava, a sombra dele ia e vinha na parede tisnada, alcanava a telha, e os ps se agitavam no ar.
     A me veio a tentao de auxiliar meu pai. No conseguiria prestar servio aprecivel, mas estava certo de que Jos havia cometido grave delito e resolvi colaborar na pena. Retirei uma acha curta do feixe molhado, encostei-a de manso a uma das solas que se moviam por cima da minha cabea. Na verdade apenas toquei a pele do negrinho. No me [pg. 087] arriscaria a mago-lo: queria somente convencer-me de que poderia fazer algum padecer. O meu ato era a simples exteriorizao de um sentimento perverso, que a fraqueza limitava. Se a experincia no tivesse gorado,  possvel que o instinto ruim me tornasse um homem forte. Malogrou-se  e tomei rumo diferente.
     Com certeza Jos nada sentiu. Cobrei nimo, cheguei-lhe novamente ao p o inofensivo pau de lenha. Nesse ponto ele berrou com desespero, a dizer que eu o tinha ferido. Meu pai abandonou-o. E, vendo-me armado, nem olhou o ferimento: levantou-me pelas orelhas e concluiu a punio transferindo para mim todas as culpas do moleque. Fui obrigado a participar do sofrimento alheio. [pg. 088]
     

Um incndio




NUMA das viagens ao stio, Jos convidou-me para visitar os restos do incndio que devorara uma das cabanas arrumadas alm do aceiro. Fui, receoso. Nunca me havia aproximado daqueles ranchos, onde fervilhavam os diabinhos maliciosos que afligiam as mulheres da lavoura.
     Venceu-me a curiosidade: um fogo capaz de suprimir casas era realmente admirvel. Eu no supunha o fogo com tantos poderes. Via-o domstico, lambendo a trempe da cozinha, elevando-se um pouco no largo, em noites de S. Joo, e s vezes causando malefcios diminutos, como no dia em que uma brasa cara do cachimbo de Maria Melo no ombro de minha irm. Responsabilizavam-no agora por uma devastao volumosa  e isto me surpreendia. Zangara-se, procedera como os cavalos mansos que tomam o freio nos dentes.
     Deixei o meu carneiro branco amarrado  sombra e sa com o moleque em direo s cabanas. Uma havia desaparecido. Os destroos dela espalhavam-se, [pg. 089] ainda fumegantes, cinza, um lixo negro e quente que no nos consentia aproximao. De longe, senti-me logrado: esperava descobrir labaredas subindo ao cu, madeira estalando, nuvens rubras  e ali se achatavam porcarias. Desgostei-me e no pude atentar nelas.
     No terreiro, diante do rescaldo, homens e mulheres choravam, lamentavam-se, gesticulavam. E alguns, sentados em bas, pareciam idiotas, silenciosos e inertes. Desviei-me de um objeto escuro, semelhante a um toco chamuscado. Os olhos em redor estavam fixos naquilo, e pouco a pouco distingui palavras no alarido, o esboo do caso medonho.
     Enquanto os homens trabalhavam na roa e os meninos vadiavam pela vizinhana, duas pretinhas faziam a comida, soprando a lenha, agitando o abano. Uma fasca chegara  parede e em minutos a palha ardia. As criaturas haviam tentado reparar o desastre. Nada conseguindo, a mais nova fugira. A outra resolvera esvaziar a casa: salvara as panelas, o ralo, as esteiras, a cama de varas, a trouxa de roupa, as arcas. Surda aos chamados da irm, arrecadara todos os trastes, menos a litografia de Nossa Senhora, provavelmente sapecada na camarinha. As paredes sumiam-se, o teto se desmoronava, a porta nica era uma goela vermelha, donde saam lnguas temerosas. Apesar disso, mergulhara na fornalha, em busca da imagem benta. De volta, achara a passagem obstruda e morrera. Estava ali. Uma rapariga gemia entre soluos que procurara dissuadir a infeliz: Nossa Senhora no precisava de ningum, escaparia, se quisesse. A teimosa recusara os conselhos  e estava ali. Os olhos se pregavam na coisa estendida junto ao borralho. [pg. 090]
     A narrao me embrulhava o estmago, a fumaa me arrancava lgrimas, dava-me dores de cabea. Eu nunca tinha visto um cadver. Receava e desejava examinar aquele, mas certamente se desmanchara na catstrofe. Arrependia-me de haver atendido ao convite de Jos. Bom voltar ao stio, deitar-me num colcho de folhas, admirar os periquitos, as flores de mulungu, as espigas amarelas. No conseguiria, porm, tranqilidade. Excitava-me, preso ao cisco ardente e fuliginoso, ao choro, s lamrias, propenso, num gosto mrbido, a torturar-me.
     Seguindo o gesto do grupo inconsolvel, cheguei-me ao tronco escuro, exposto no cho, uma preciosidade. Por qu? No me capacitava do valor, estranhava que se referissem a ele com respeito, lhe dessem nome de cristo. Pedaos da realidade me entravam no entendimento, eram repelidos, tornavam, confusos. Afirmaes e negaes quase simultneas me assaltavam. Jazia ali um ser humano. Logo recusava a proposio insensata. Nada de humano: tinha a aparncia vaga de um rolo de fumo. Isto, rolo de fumo, semelhante aos que meu pai guardava no armazm, umedecidos em lquido viscoso, empacavirados em bananeira. Apenas aquele no estava mido nem coberto: estava nu e torrado. Um rolo de fumo ordinrio, dos que se vendem nas barracas de feira, pelando-se, esfarelando-se ao sol. Difcil atribuir-lhe nome de mulher, existncia de mulher. Contudo as exclamaes reiteradas, fragmentos de asseres contnuas, desbarataram a evidncia, deram-me afinal a certeza de que se achavam no terreiro pores da negra morta. Forava-me a no perceber nexo entre aquela espcie de barrote queimado e a sujeita valente que se mexera, [pg. 091] defendendo os trens domsticos, a ausncia de braos e de pernas. A energia mencionada e a inrcia visvel debatiam-se dentro de mim. A indeciso transformou-se em grande medo, no da coisa parada, mas da que se movera e continuava a mover-se nas queixas prximas. Esta iria surgir talvez, animar a outra e punir-me. No havendo obtido licena para ver o desastre, sentia-me culpado, mas era impossvel determinar o grau da culpa. Considerava-me profanador. No me permitiriam ver defuntos, sobretudo aquele, privado das formas comuns, conseqncia de tragdia. Curvei-me num arremesso de coragem. Faltava-lhe o cabelo, faltava a pele  e no havendo seios nem sexo, perdiam-se os restos de animalidade. A superfcie vestia-se de crostas, como a dos metais inteis, carcomidos no abandono e na ferrugem. Em alguns pontos semelhava carne assada, e havia realmente um cheiro forte de carne assada; fora da ressecava-se demais. Nesse torro cascalhoso sobressaa a cabea, o que fora cabea, com as rbitas vazias, duas fileiras de dentes alvejando na devastao, o buraco do nariz, a expelir matria verde, amarelenta. Distingui uma cara, sobra de cara, mscara pavorosa, mais feia que as dos papangus do carnaval. No enxerguei pormenores: vi apenas, de relance, a dentadura, as rbitas vazias, o fluxo purulento.
     Mudei a vista, arredei-me engulhando, amaldioando Jos, que me expusera a enorme desgraa e analisava tudo com interesse. Afastei-o, regressamos ao stio, mas as sombras das rvores, as flores de mulungu e as aves no me deram sossego. Condenava-me e condenava o moleque. Se no me houvesse rendido  tentao, aquela imundcie no existiria, pelo menos no existiria no meu esprito. [pg. 092]
     Cheguei a casa precisando confessar-me, livrar-me da recordao medonha. Narrei o que vira e o que ouvira: fagulhas alcanando a palha, roendo a palha, semeando estragos; a mulher conduzindo mveis, defendendo a Virgem Maria, sucumbindo enrolada em chamas, depois estirada no cho, sem braos e sem pernas, os dentes arreganhados numa careta. Dois buracos tenebrosos, gelatina esverdeada a correr das ventas.
     Arrepiava-me, repetia a descrio, excitava-me tanto que meus pais tentaram acalmar-me, reduzir o sinistro. No havia motivo para a gente se aperrear. Fora uma infelicidade, sem dvida. Mas era a vontade de Deus, estava escrito. E podia ser pior, muito pior. Se se tivesse queimado a igreja, ou a loja de Seu Quinca Epifnio, a mais importante da vila, o dano seria tremendo. Deus era misericordioso: contentava-se com uma habitao miservel, situada longe da rua, e com o sacrifcio de uma preta annima. No me convenci. A loja de Seu Quinca Epifnio e a igreja no tinham nada com o negcio. Eu no vira incndio na igreja nem na loja de Seu Quinca Epifnio: vira uma choupana destruda, e a choupana crescia, igualava-se s construes de tijolo. Seu Quinca Epifnio e Padre Joo Incio estavam vivos. Se tivessem morrido no fogaru, no seriam mais nojentos que a negra.
     Deviam repreender-me, dizer que me comportara mal abandonando o aceiro, as rvores, os periquitos, as flores. A lembrana infeliz me atormentava: necessrio que os outros soubessem isto e me censurassem. Tinham sido sempre rigorosos em demasia, e agora me deixavam com aquele peso no interior. A argio e o castigo me dariam talvez um pouco de calma: eu esqueceria, nos lamentos [pg. 093] e na zanga, a visagem terrvel. No me puniram, quiseram transformar aquele horror num fato ordinrio.
      noite o sono fugiu, no houve meio de agarr-lo. A negra estava ali perto da minha cama, na mesa da sala de jantar, sem braos, sem pernas, e tinha dois palmos, trs palmos de menino. De repente se desenvolvia em excesso, monstruosa. Sob a testa imensa rasgavam-se precipcios imensos. O nariz era tini aude imenso, de pus. E os dentes se alargavam, numa gargalhada imensa. Em noites comuns, para escapar aos habitantes da treva, eu envolvia a cabea. Isto me resguardava: nenhum fantasma viria perseguir-me debaixo do lenol. Agora no conseguia preservar-me. O tio apagado avizinhava-se, puxava a coberta, ligava-se ao meu corpo, sujava-me com a salmoura que vertia de gretas profundas. As rbitas vazias espiavam-me, a lama do nariz borbulhava num estertor, os dentes se acavalavam e queriam morder-me. Encolhia-me, escondia o rosto no travesseiro, e a viso continuava a atenazar-me. Os arrepios que me agitavam mudaram-se em tremor violento. No resisti ao suplcio, gritei como um doido, alarmei a famlia. Vieram buscar-me, tentaram varrer-me o espectro da imaginao, acomodaram-me aos ps da cama do casal. A me abati, no crculo de luz da lamparina, ouvindo o canto dos galos, at que a madrugada me trouxe uma ligeira modorra cheia de sonhos ruins. Adormeci com a figura asquerosa, despertei com ela.
     Durante o dia voltei a mencion-la, a descrev-la, nauseado. Procurei o autor daquela srdida agonia e responsabilizei Nossa Senhora. Se a criatura no tivesse tido a idia de salvar a imagem, [pg. 094] estaria cortando palmas de ouricuri para fabricar nova cabana. Tinha devoo, e isto a perdera, evidentemente a me de Deus era ingrata e feroz. Em paga de to puro desvelo  clera, destruio.
     As pessoas grandes, porm, refutaram o meu juzo de modo singular. A Virgem Maria tinha sido generosa. Escolhera a negra porque a julgava digna de salvao. Impusera-lhe algumas dores e em troca lhe oferecia o paraso, sem o estgio do purgatrio. O fogo do purgatrio, horroroso, no se comparava aos lumes terrestres, e todos ns, cedo ou tarde, nos frigiramos nele. A negra tivera sorte. Provavelmente j estava no cu, diante de Jesus, misturada aos serafins.
     Essa esquisita benevolncia deixou-me perplexo. Calei-me, prudente, mas achei o comentrio duvidoso e embrulhado. No me parecia que o purgatrio fosse indispensvel. E a negra, incompleta e imunda, no estava no cu. Que ia fazer l? Estragaria as delcias eternas, mancharia as asas dos anjos. [pg. 095]
     
Jos da Luz




PARA reduzir-me as travessuras, encerrar-me na ordem, utilizaram diversos elementos: a princpio os lobisomens, que, por serem invisveis, nenhum efeito produziram; em seguida a religio e a polcia, reveladas nas figuras de Padre Joo Incio e Jos da Luz. Resumiram-me o valor dessas autoridades, que admirei e temi de longe, mas quando elas se aproximaram, s o Vigrio manteve a reputao. Jos da Luz desprestigiou-se logo. No havia meio de apresent-lo srio e firme, capaz de inspirar medo. Um papo ineficaz. Rosto cor de azeitona, a grenha domada a banha de porco, nos olhos espertos a alegria fervilhando, nariz chato, boca larga, provida de armas fortes, ruidosa. Na pele baa nenhuma ruga, nenhuma ruga na blusa, nas calas alisadas a capricho pela Rosenda lavadeira. Limpo, de colarinho lustroso, botinas ringidoras e brilhantes, Jos da Luz diferia muito dos polcias comuns, desleixados, amarrotados, provocadores [pg. 096] de barulho nas feiras e em pontas de ruas, entre caboclos e meretrizes.
     Provavelmente esses homens se comportavam assim por vingana. Tinham, nos duros tempos do paisanos, sofrido repeles e desaforos, dormido na cadeia sem motivo, agentado nos calos saltos de reinas, zinco no lombo. Vestindo o uniforme, eram insolentes e agressivos, apagavam as humilhaes antigas afligindo outros infelizes. Bebiam cachaa, malandravam, torvos, importantes, vagarosos, e o desmazelo - cinto frouxo, quepe de banda, topete ameaador  dava-lhes considerao. Arredios, oblquos, promoviam sambas e furdunos em casas de palha, onde as violncias passavam despercebidas e ningum se queixava.
     Jos da Luz chegava-se aos tipos que jogavam gamo e discutiam poltica. Um cabor enxerido, bem falante, escorregando na companhia dos proprietrios. Amvel, jeitoso, com certeza escapava s marchas rigorosas da fora volante, s diligncias cruas. No guardava ressentimento, no precisava desforra. Aceitava de corao leve a tarimba. E cantava, fanhoso e mole:
     
Assentei praa. Na polcia eu vivo 
Por ser amigo da distinta farda. 
Agora  tarde. Me recordo e penso. 
Trabalho imenso, no se lucra nada.
     
     Uma das estrofes terminava com estes versos:
     
Eu largo a farda, pego no capote, 
Vou remar no bote: tudo  servio.
     
     Jos da Luz abria muito o e de servio, prosdia que depois ouvi confirmada em vrias terras. Em [pg. 097] geral os militares inferiores arrastam a voz na primeira slaba de servio quando se referem s ocupaes da caserna, que deste modo se distinguem das civis e ordinrias, sem vogal modificada.
     Foi nessa cantiga mofina que Jos da Luz se manifestou, achando excessivas as exigncias do ofcio. Parecia um desgraado, na longa choradeira. Afirmaram-me depois que ele era pssimo, e isto me perturbou. Surgiu-me um terceiro indivduo, nem triste nem mau. Realmente jovial e bom, meio tonto, ingnuo. Os botes amarelos, a farda vermelha e azul, a distinta farda mencionada no lamento, eram brinquedos.
     Nesse tempo, em razo de culpas indecisas, costumavam prender-me algumas horas na loja. Sentenciavam-me sem formalidades, mas o castigo implicava falta. E ali, no silncio e no isolamento, adivinhando o mistrio dos cdigos, fiz compridos exames de conscincia, tentei catalogar as aes prejudiciais e as inofensivas, desenvolvi  toa o meu diminuto senso moral. Atrapalhava-me perceber que um ato s vezes determinava punio, outras vezes no determinava. Impossvel orientar-me, estabelecer norma razovel de procedimento. Mais tarde familiarizei-me com essas incongruncias, mas no comeo da vida elas me apareciam sem disfarces e me atenazavam. Mexia-me "como se andasse entre cacos de vidro. Julgando inteis as cautelas, curvei-me  fatalidade. Corroboravam esta disposio certas frases ouvidas na sala de jantar e na cozinha: "Que se h de fazer? Foi vontade de Deus. Estava escrito." Ainda hoje suponho que os meus poucos acertos e numerosos escorregos so obras de um destino irnico e safado, frtil em astcias desconcertantes. Resignava-me, encolhido [pg. 098] junto ao balco, provisoriamente em segurana. Estava escrito, era vontade de Deus. E esgueirava-me como um rato, desfazia montes de papel, capim e maravalhas da embalagem, sondava as prateleiras e os caixes.
     O castigo moderado, alm de inculcar-me as regras de bem viver, tinha o fim de obrigar-me a vigiar o estabelecimento. Enquanto me achava ali, meu pai se distraa na vizinhana, parolando, aos gritos. Alarmava-me com freqncia, convencia-me de que ele estava brigando. O riso grosso de Filipe Bencio e o cacarejo de Teotoninho Sabi tranqilizavam-me. Livre do susto, recolhia-me ao passatempo ordinrio e arrancava dele alguma satisfao. De fato as horas pingavam montonas no espao que me concediam, mas em qualquer parte a insipidez era a mesma. Proibiam-me sair, e os outros meninos, distantes, causavam-me inveja e receio. Certamente eram perigosos. Afastado, no possuindo bolas de borracha, papagaios, carrinhos de lata, divertia-me com minhas irms, a construir casas de encerado e arreios de animais, no alpendre, e a revolver o milho no depsito. Durante a priso, lembrava-me desses exerccios com pesar. Entretinha-me remexendo as maravalhas, explorando os recantos escuros, observando o trabalho das aranhas e a fuga das baratas. Divagava imaginando o mundo coberto de homens e mulheres da altura de um polegar de criana. No me havendo chegado notcia das viagens de Gulliver, penso que a minha gente liliputiana teve origem nas baratas e nas aranhas. Esse povo mirim falava baixinho, zumbindo como as abelhas. Nem palavras speras nem arranhes, cocorotes e puxes de orelhas. Esforcei-me por dirimir as desavenas. Quando os meus [pg. 099] insetos saam dos eixos, revelavam instintos rudes, eram separados, impossibilitados de molestar-se. E recebiam conselhos, diferentes dos conselhos vulgares. Podiam saltar, correr, molhar-se, derrubar cadeiras, esfolar as mos, deitar barquinhos no enxurro. Nada de zangas. Impedidos os gestos capazes de motivar lgrimas.
     Largando esses devaneios, entregava-me  inspeco das mercadorias. Trepava-me na escada, abria caixas, desmanchava pacotes de dobradias, admirava o mecanismo das fechaduras. Experimentava as chaves, ouvia o tilintar seco, via as lingetas entrando e saindo. Receava que me surpreendessem, reprovassem a curiosidade. Talvez uma pea l dentro se rebentasse. Foras ali contidas iriam soltar-se, explodir, jogar-me da escada abaixo. Recordava-me do caso da pistola. Tinha sido anos atrs, na fazenda. Meu tio, hspede, guardara a arma numa gaveta, recomendando-me que no tocasse naquilo. Eu havia assegurado no tocar. Sozinho, desejara conhecer de perto a mquina horrvel, que detonava, matava bichos. Rondara a mesa, reagindo  tentao, sabendo que no resistiria muito tempo. Descerrara a gaveta, jurando no pegar na pistola. Era o que havia prometido. Queria apenas v-la. Bem, estava ali. Uma garrucha comum, preta, carregada com chumbo e plvora. Apoiando nela um dedo e no acontecendo nenhum desastre, retirara-a, desvanecendo as precaues. Levantara o gatilho e no conseguira faz-lo voltar ao descanso. Em seguida me viera a idia de examinar o contedo de um pequeno estojo embutido na coronha. Erguera a tampa  e uma chuva de espoletas vermelhas se espalhara no cho. Soltando a pistola, escapulira-me, deixando a gaveta aberta. [pg. 100]
     Em horas de angstia, sem me animar a entrar na sala, esperara que me chamassem, me responsabilizassem pelo desarranjo. No chamaram. Num degrau alto da escada, movendo a chave, eu temia que se derramassem espoletas da fechadura. No exatamente espoletas. Mas os ferrinhos tilintantes podiam querer desencaixar-se com espalhafato.
     Repunha tudo nos seus lugares, descia, abandonava as miudezas e as ferragens, ia embeber-me nas estampas que ornavam as peas de chita. O mais vistoso desses pedaos de papel mostrava uma rvore encalombada de frutos em forma de cabaas. Um machado encostava-se ao tronco. E, ameaando inimigos ausentes, um tigre arreganhava a dentua, equilibrava-se em dois ps. Apresentavam-se assim os panos de Machado, Pereira & Cia., grandes fornecedores do Recife. A companhia era o tigre, Delfino Tigre. Eduquei-me no respeito a entidades semelhantes.
     Uma tarde em que espiava na litografia o cabo de Machado, os ramos de Pereira e as garras de Tigre, vi Jos da Luz entrar na loja e esfriei. Quis fugir, esconder-me debaixo do balco: as juntas endureceram, os msculos relaxaram-se. Tentei vencer o medo, endireitar o espinhao, articular uma frase, sorrir. Em vo. Jos da Luz era terrvel. Metia gente na cadeia, dava surras e muxices nos feirantes. Superior a Machado, Pereira & Cia., credores de meu pai. O vermelho e o azul da firma notvel, expostos na chita, exibiam-se no vesturio de Jos da Luz  e isto me isolava. Ainda que eu ignorasse a enorme importncia do cafuzo, no me seria possvel tomar intimidades com as cores das litografias. [pg. 101]
     Deu-se ento o caso extraordinrio. O soldado pregou os cotovelos no balco e ps-se a conversar comigo, natural, como os viventes mesquinhos, Amaro, Jos Baa, os moradores da fazenda. O terror sumiu-se, a espinha gelada aqueceu-se, os movimentos surgiram. Na presena de meu pai, a fala da personagem seria gentileza indireta. Julgava-me indigno de ateno. Contudo, se me viam acompanhado, sujeitos maneirosos falavam-me, careteando, lisonjeando. As caretas e as lisonjas deixavam-me desconfiana. Quando me achava s, tudo isso desaparecia. Jos da Luz no esperava de mim nenhum favor: a conversa dele era gratuita.
     Vieram outras conversas  e tornamo-nos amigos. Por fim no me limitava, na priso, a inventar fantasmagorias, reparar nas fechaduras e nos papis coloridos. Tinha um companheiro excelente, que diminua junto do balco e era quase do meu tamanho. No conservo nenhuma das histrias que ele contava, curtas e variadas, sem dvida pouco significativas. Ouvia-as pensando em coisas diferentes, interrompia-as muitas vezes:
      Cante um bocado, Z da Luz.
     Jos da Luz temperava a goela e dizia as tristezas mentirosas da caserna:
     
Agora  tarde. Me recordo e penso. 
Trabalho imenso...
     Verstil, eu atentava nos botes amarelos da blusa prestigiosa, no quepe mido. Por que era que ele usava chapu sem aba? As perguntas saam espontneas, e Jos da Luz me explicava que chapu de soldado era assim mesmo. Contentava-me com isso, a minha curiosidade no tinha exigncias. [pg. 102] A farda vermelha e azul de Jos da Luz desbotava, no diferia muito da minha roupa. E as botinas de Jos da Luz, brilhantes e ringidoras, aproximavam-se dos meus borzeguins duros, cada vez mais estreitos. ramos duas insignificncias, uma loquaz, buliosa, outra cheia de sonhos, emperrada. Os meus bonecos da altura de um polegar esmoreceram.
     Esse mestio pachola teve influncia grande e benfica na minha vida. Desanuviou-me, atenuou aquela pusilanimidade, avizinhou-me da espcie humana. timo professor. Acho, porm, que era um mau funcionrio. O Estado no lhe pagava etapa e soldo para desviar-se dos colegas, sujos e ferozes, encher com lorotas as cabeas das crianas. Um anarquista. [pg. 103]
     
Leitura




ACHAVA-ME empoleirado no balco, abrindo caixas e pacotes, examinando as miudezas da prateleira. Meu pai, de bom humor, apontava-me objetos singulares e explicava o prstimo deles.
     Demorei a ateno nuns cadernos de capa enfeitada por trs faixas verticais, borres, ndoas cobertas de riscos semelhantes aos dos jornais e dos livros. Tive a idia infeliz de abrir um desses folhetos, percorri as pginas amarelas, de papel ordinrio. Meu pai tentou avivar-me a curiosidade valorizando com energia as linhas mal impressas, falhadas, antipticas. Afirmou que as pessoas familiarizadas com elas dispunham de armas terrveis. Isto me pareceu absurdo: os traos insignificantes no tinham feio perigosa de armas. Ouvi os louvores, incrdulo.
     A meu pai me perguntou se eu no desejava inteirar-me daquelas maravilhas, tornar-me um sujeito sabido como Padre Joo Incio e o advogado [pg. 104] Bento Amrico. Respondi que no. Padre Joo Incio me fazia medo, e o advogado Bento Amrico, notvel na opinio do jri, residia longe da vila e no me interessava. Meu pai insistiu em considerar esses dois homens como padres e relacionou-os com as cartilhas da prateleira. Largou pela segunda vez a interrogao prfida. No me sentia propenso a adivinhar os sinais pretos do papel amarelo?
     Foi assim que se exprimiu o Tentador, humanizado, naquela manh funesta. A consulta me surpreendeu. Em geral no indagavam se qualquer coisa era do meu agrado: havia obrigaes, e tinha de submeter-me. A liberdade que me ofereciam de repente, o direito de optar, insinuou-me vaga desconfiana. Que estaria para acontecer? Mas a pergunta risonha levou-me a adotar procedimento oposto  minha tendncia. Receei mostrar-me descorts e obtuso, recair na sujeio habitual. Deixei-me persuadir, sem nenhum entusiasmo, esperando que os garranchos do papel me dessem as qualidades necessrias para livrar-me de pequenos deveres e pequenos castigos. Decidi-me.
     E a aprendizagem comeou ali mesmo, com a indicao de cinco letras j conhecidas de nome, as que a moa, anos antes, na escola rural, balbuciava junto ao mestre barbado. Admirei-me. Esquisito aparecerem, logo no princpio do caderno, slabas pronunciadas em lugar distante, por pessoa estranha. No haveria engano? Meu pai asseverou que as letras eram realmente batizadas daquele jeito.
     No dia seguinte surgiram outras, depois outras  e iniciou-se a escravido imposta ardilosamente. Condenaram-me  tarefa odiosa, e como no me era possvel realiz-la convenientemente, as horas [pg. 105] se dobravam, todo o tempo se consumia nela. Agora eu no tocava nos pacotes de ferragens e miudezas, no me absorvia nas estampas das peas de chita: ficava sentado num caixo, sem pensamento, a carta sobre os joelhos.
     Meu pai no tinha vocao para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabea. Resisti, ele teimou  e o resultado foi um desastre. Cedo revelou impacincia e assustou-me. Atirava rpido meia dzia de letras, ia jogar solo.  tarde pegava um cvado, levava-me para a sala de visitas
      e a lio era tempestuosa. Se no visse o cvado, eu ainda poderia dizer qualquer coisa. Vendo-o, calava-me. Um pedao de madeira, negro, pesado, da largura de quatro dedos.
     Minha me e minha irm natural me protegeram: arredaram-me da loja e, na prensa do copiar, forneceram-me as noes indispensveis. Arrastava-me, desanimado. O folheto se pua e esfarelava, embebia-se de suor, e eu o esfregava para abreviar o extermnio.
     Isso de nada servia. Chegava outro folheto
      e as linhas gordas e safadas, os trs borres verticais, davam-me engulhos. Que fazer? A lembrana do cvado me arregalava os olhos. Mas ia-me pouco a pouco entorpecendo, a cabea inclinava-se, os braos esmoreciam  e, entre bocejos e cochilos, gemia a cantiga fastidiosa que Mocinha sussurrava junto a mim. Queria agitar-me e despertar. O sono era forte, enjo enorme tapava-me os ouvidos, prendia-me a fala. E as coisas em redor mergulhavam na escurido, as idias se imobilizavam. De fato eu compreendia, ronceiro, as histrias de Trancoso. Eram fceis. O que me obrigavam a decorar parecia-me insensato. [pg. 106]
     Enfim consegui familiarizar-me com as letras quase todas. A me exibiram outras vinte e cinco, diferentes das primeiras e com os mesmos nomes delas. Atordoamento, preguia, desespero, vontade de acabar-me. Veio terceiro alfabeto, veio quarto, e a confuso se estabeleceu, um horror de qiproqus. Quatro sinais com uma s denominao. Se me habituassem s maisculas, deixando as minsculas para mais tarde, talvez no me embrutecesse. Jogaram-me simultaneamente maldades grandes e pequenas, impressas e manuscritas. Um inferno. Resignei-me  e venci as malvadas. Duas porm, se defenderam: as miserveis dentais que ainda hoje me causam dissabores quando escrevo.
     Sozinho no me embaraava, mas na presena de meu pai emudecia. Ele endureceu algumas semanas, antes de concluir que no valia a pena tentar esclarecer-me. Uma vez por dia o grito severo me chamava  lio. Levantava-me, com um baque por dentro, dirigia-me  sala, gelado. E emburrava: a lngua fugia dos dentes, engrolava rudos confusos. Livrara-me do aperto crismando as consoantes difceis: o T era um boi, o D uma peruinha. Meu pai rira da inovao, mas retomara depressa a exigncia e a gravidade. Impossvel content-lo. E o cvado me batia nas mos. Ao avizinhar-me dos pontos perigosos, tinha o corao desarranjado num desmaio, a garganta seca, a vista escura, e no burburinho que me enchia os ouvidos a reclamao spera avultava. Se as duas letras estivessem juntas, o martrio se reduziria, pois, libertando-me da primeira, a segunda acudia facilmente. Distanciavam-se, com certeza havia na colocao um desgnio perverso  e os meus tormentos se duplicavam. [pg. 107]
     AS pobres mos inchavam, as palmas vermelhas, arroxeadas, os dedos grossos mal se movendo. Latejavam, como se funcionassem relgios dentro delas. Era preciso ergu-las. Finda a tortura, sentava-me num banco da sala de jantar, estirava os braos em cima da mesa, procurando esquecer as palpitaes dolorosas. Os sapos cantavam no aude da Penha; o descaroador rangia no Cavalo-Morto; D. Conceio, alm do beco, se esganiava chamando as filhas. Estavam ali perto, no alpendre e no corredor, brincando com minhas irms, e eu no as enxergava. Os meus olhos molhados percebiam a custo o porto do quintal. As mos descansavam na tbua, imveis. Julgo que estive meio louco. E amparei-me ansioso s figurinhas de sonho que me atenuavam a solido. O mundo feito caixa de brinquedos, os homens reduzidos ao tamanho de um polegar de criana.
     Muitas infelicidades me haviam perseguido. Mas vinham de chofre, dissipavam-se. s vezes se multiplicavam. Depois, longos perodos de repouso. Em momentos de otimismo supus que estivessem definitivamente acabadas.
     Agora no alcanava esse engano. As trs manchas verticais, midas de lgrimas, estiravam-se junto  mo doda, as letras renitentes iriam afligir-me dia e noite, sempre. As rstias que passeavam no tijolo e subiam a parede marcavam a aproximao do suplcio. Dentro de algumas horas, de alguns minutos, a cena terrvel se reproduziria: berros, clera imensa a envolver-me, aniquilar-me, destruir os ltimos vestgios de conscincia, e o pedao de madeira a martelar a carne machucada.
     Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um maluco e deixou-me. [pg. 108] Respirei, meti-me na soletrao, guiado por Mocinha. E as duas letras amansaram. Gaguejei slabas um ms. No fim da carta elas se reuniam, formavam sentenas graves, arrevesadas, que me atordoavam. Certamente meu pai usara um horrvel embuste naquela maldita manh, inculcando-me a excelncia do papel impresso. Eu no lia direito, mas, arfando penosamente, conseguia mastigar os conceitos sisudos: "A preguia  a chave da pobreza  Quem no ouve conselhos raras vezes acerta  Fala pouco e bem: ter-te-o por algum."
     Esse Terteo para mim era um homem, e no pude saber que fazia ele na pgina final da carta. As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resumo da cincia anunciada por meu pai.
      Mocinha, quem  o Terteo?
     Mocinha estranhou a pergunta. No havia pensado que Terteo fosse homem. Talvez fosse. "Fala pouco e bem: ter-te-o por algum."
      Mocinha, que quer dizer isso?
     Mocinha confessou honestamente que no conhecia Terteo. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepes. [pg. 109]
     
Escola




A preguia, chave da pobreza, e outros conceitos poderosos lanados na ltima folha da carta empaparam-se de suor, decompuseram-se, manchando-me os dedos de tinta  e durante alguns dias pude mexer-me no quintal, ver a rua, pisar na calada, associar-me aos filhos de Teotoninho Sabi. Inquietava-me na verdade. No recebi novo folheto, daqueles que se vendiam a cem ris e tinham na capa trs faixas e letras quase imperceptveis. Achava-me aparentemente em liberdade. Mas, arengando com Joaquim, na areia do beco, ou admirando o rostinho de anjo de Teresa, assaltava-me s vezes um desassossego, aterrorizava-me a lembrana do exerccio penoso. Vozes impacientes subiam, transformavam-se em gritos, furavam-me os ouvidos; as minhas mos suadas se encolhiam, experimentando nas palmas o rigor das pancadas; uma corda me apertava a garganta, suprimia a fala; e as duas consoantes inimigas danavam: [pg. 110] d. t. Esforava-me por esquec-las revolvendo a terra, construindo montes, aluindo rios e audes.
     As amolaes da carta no me saam do pensa mento. "Fala pouco e bem: ter-te-o por algum." No me explicaram isto  e veio-me grande enjo s adivinhaes e aos aforismos.
     Afligia-me recordando a promessa feita no balco, meses antes. De nada me serviam os conselhos em negrita da ltima pgina da carta. Nenhum ganho, talvez por me faltar ainda aprender muito. Conseguia gaguejar slabas, reuni-las em palavras e, gemendo, engolindo sinais, articular um perodo vazio. Com certeza minha famlia no ia conformar-se com resultado to medocre: as lies continuariam na sala de visitas, na prensa do copiar, fiscalizadas por Mocinha. Reproduzir-se-iam as durezas da iniciao.
     Tentei imaginar livros. Queria v-los, terminar as frias insossas que me concediam. Sem dvida estavam prximos: conversas temerosas afastavam-me as iluses, azedavam-me os brinquedos. Bom virem logo. Piores que o folheto no deviam ser  e esta considerao me incutia alguma confiana no futuro. Mas as duas infames dentais me importunavam, resumiam temores indecisos.
     Foi por esse tempo que o negro velho apareceu, limpo, de colarinho, gravata, botinas, roupa de cassineta, culos. Estranhei, pois no admitia tal decncia em negros, e manifestei a surpresa em linguagem de cozinha. Meu pai achou a observao original, enxergou nela intenes inexistentes em mim, referiu-a na loja aos fregueses, aos parceiros do gamo e do solo. Ouvia-a recomposta por Seu Afro, completamente desfigurada, com palavras [pg. 111] que no me aventuraria a pronunciar. Responsabilizei-me pelas interpolaes e adquiri uma notoriedade momentnea, embaraosa. Repugnava-me sair do meu canto e representar, parecia-me que mangavam de mim. O culpado era meu pai. Muitas vezes me havia insultado, excedera-se em punies por causa de duas letras, que intentava eliminar de chofre. Mas isto era indelvel. Provavelmente ele desejava enganar-se e enganar os outros. "Esto vendo esta maravilha'? Produto meu." Desdenhava a maravilha, decerto, apresentava objeto falsificado, mas negociante no tem os escrpulos comuns das pessoas comuns. Tanto elogiara as mercadorias chinfrins expostas na prateleira que sem dificuldade esquecia as minhas falhas evidentes e me transformava numa espcie de fechadura garantida, com boas molas. O fabricante era ele.  fora de repeties, chegaria a supor que fechaduras de boas molas me abriam o entendimento. E recolheria disso- alguma vaidade. Tornei-me, de qualquer forma, autor de uma frase aparatosa e amaldioei o negro velho, origem dela. Incapaz de forjar semelhante coisa, reconhecia-me instrumento de um embuste e desagradava-me ouvir meu pai alinhavar opinies contraditrias. Essa incoerncia reduzia-o, desvalorizava-lhe o julgamento. Agora eu no sabia se efetivamente era um idiota, como ele havia afirmado, inclinava-me a ver na sentena arrasadora precipitao e exagero, s vezes me capacitava de que emitira uma idia razovel, ampliada por Seu Afro. Impossvel dizer onde ela estava, como tinha surgido, mas teimavam em aceit-la, em declar-la minha, e isto me deixava perplexo.
     A reviravolta de meu pai alvoroava-me. O juzo favorvel e imprevisto lev-lo-ia talvez a [pg. 112] jogar-me segunda isca louvando o papel escrito, engabelar-me, obrigar-me a iniciar a leitura do volume temeroso que me andava na imaginao  estragava os divertimentos na areia do beco. Desgraas iriam surgir. O riso grosso amorteceria, a voz atroaria, rouca, um pedao de pau me bateria nas palmas das mos midas.
     Mas os sustos esmoreceram, vieram receios diversos. Houve um transtorno, e isto se operou sem que eu revelasse que alguma coisa se havia alterado c dentro. Pouco a pouco mudei. Arrojaram-me numa aventura, o comeo de uma srie de aventuras funestas. Quando iam cicatrizando as leses causadas pelo alfabeto, anunciaram-me o desgnio perverso  e as minhas dores voltaram. De fato estavam apenas adormecidas, a cicatrizao fora na superfcie, e s vezes a carne se contraa e rasgava, o interior se revolvia, abalavam-me tormentos indeterminados, semelhantes aos que me produziam as histrias de almas do outro mundo. Desnimo, covardia.
     A notcia veio de supeto: iam meter-me na escola. J me haviam falado nisso, em horas de zanga, mas nunca me convencera de que realizassem a ameaa. A escola, segundo informaes dignas de crdito, era um lugar para onde se enviavam as crianas rebeldes. Eu me comportava direito: encolhido e morno, deslizava como sombra. As minhas brincadeiras eram silenciosas. E nem me afoitava a incomodar as pessoas grandes com perguntas. Em conseqncia, possua idias absurdas, apanhadas em ditos ouvidos na cozinha, na loja, perto dos tabuleiros de gamo. A escola era horrvel  e eu no podia neg-la, como negara o inferno. Considerei a resoluo de meus pais uma [pg. 113] injustia. Procurei na conscincia, desesperado, ato que determinasse a priso, o exlio entre paredes escuras. Certamente haveria unia tbua para desconjuntar-me os dedos, um homem furioso a bradar-me noes esquivas. Lembrei-me do professor pblico, austero e cabeludo, arrepiei-me calculando o vigor daqueles braos. No me defendi, no mostrei as razes que me fervilhavam na cabea, a mgoa que me inchava o corao. Intil qualquer resistncia.
     Trouxeram-me a roupa nova de fusto branco. Tentaram calar-me os borzeguins amarelos: os ps tinham crescido e no houve meio de reduzi-los. Machucaram-me, comprimiram-me os ossos. As meias rasgavam-se, os borzeguins estavam secos,, minguados. No senti esfoladuras e advertncias. As barbas do professor eram imponentes, os msculos do professor deviam ser tremendos. A roupa de fusto branco, engomada pela Rosenda, juntava-se a um gorro de palha. Os fragmentos da carta de ABC, pulverizados, atirados ao quintal, danavam-me diante dos olhos. "A preguia  a chave da pobreza. Pala pouco e bem: ter-te-o por algum. D, t, d, t." Quem era Terteo? Um homem desconhecido. Iria o professor mandar-me explicar Terteo e a chave? Enorme tristeza por no perceber nenhuma simpatia em redor. Arranjavam impiedosos o sacrifcio  e eu me deixava arrastar, mole e resignado, res infeliz antevendo o matadouro.
     Suspenderam o suplcio, experimentaram-me uns sapatos roxos de marroquim, folgados. Tive um largo suspiro de consolo passageiro. Pelo menos estava livre dos calos. Para que pensar no resto? Males inevitveis iam chover em cima de mim. Joaquim Sabi era feliz. D. Conceio, ocupada no oratrio, dirigindo-se aos santos, largava-o na areia do beco.  [pg. 114]
     [pg. 115] imagem
     [pg. 116] pgina em branco

     
     Lavaram-me, esfregaram-me, pentearam-me, portaram-me as unhas sujas de terra. E, com a roupa nova de fusto branco, os sapatos roxos de marroquim, o gorro de palha, folhas de almao numa caixa, penas, lpis, uma brochura de capa amarela, sa de casa, to perturbado que no vi para onde me levavam. Nem tinha tido a curiosidade de informar-me: estava certo de que seria entregue ao sujeito barbado e severo, residente no largo, perto da igreja.
     Conduziram-me  Rua da Palha, mas s mais tarde notei que me achava l, numa sala pequena. Avizinharam-me de uma senhora baixinha, gordinha, de cabelos brancos. Fileiras de alunos perdiam-se num aglomerado confuso. As minhas mos frias no acertavam com os objetos guardados na caixa; os olhos vagueavam turvos, buscando uma salincia na massa indistinta; a voz da mulher gorda sussurrava docemente.
     Dias depois, vi chegar um rapazinho seguro por dois homens. Resistia, debatia-se, mordia, agarrava-se  porta e urrava, feroz. Entrou aos arrancos, e se conseguia soltar-se, tentava ganhar a calada. Foi difcil subjugar o bicho brabo, sent-lo, imobiliz-lo. O garoto caiu num choro largo. Examinei-o com espanto, desprezo e inveja. No me seria possvel espernear, berrar daquele jeito, exibir fora, escoicear, utilizar os dentes, cuspir nas pessoas, espumante e selvagem. Tinham-me domado. Na civilizao e na fraqueza, ia para onde me impeliam, muito dcil, muito leve, como os pedaos da carta de A B C, triturados, soltos no ar. [pg. 117]
     
     
D. Maria




A mulher gorda chamou-me, deu-me uma cadeira, examinou-me a roupa, o couro cabeludo, as unhas e os dentes. Em seguida abriu a caixinha branca, retirou o folheto:
      Leia.
      No senhora, respondi confuso.
     Ainda no havia estudado as letras finas, menores que as da carta de A B C. Necessrio que me esclarecessem as dificuldades.
     D. Maria resolveu esclarec-las, mas parou logo, deixou-me andar s no caminho desconhecido. Parei tambm, ela me incitou a continuar. Percebi que os sinais midos se assemelhavam aos borres da carta, aventurei-me a design-los, agrup-los, numa cantiga lenta que a professora corrigia. O exerccio prolongou-se e arrisquei a perguntar at onde era a lio.
      Est cansado? sussurrou a mulher.
      No senhora.
      Ento vamos para diante. [pg. 118]
     Isto me pareceu desarrazoado: exigiam de mim trabalho intil. Mas obedeci. Obedeci realmente com satisfao. Aquela brandura, a voz mansa, a consertar-me as barbaridades, a mo curta, a virar a folha, apontar a linha, o vestido claro e limpo, tudo me seduzia. Alm disso a extraordinria criatura tinha um cheiro agradvel. As pessoas comuns exalavam odores fortes e excitantes, de fumo, suor, banha de porco, mofo, sangue. E bafos nauseabundos. Os dentes de Rosenda eram pretos de sarro de cachimbo; Andr Laerte usava um avental imundo; por detrs dos bas de couro, brilhantes de tachas amarelas, escondiam-se camisas ensangentadas.
     Agora, livre das emanaes speras, eu me tranqilizava. Mas no estava bem tranqilo: tinha a calma precisa para arrumar, sem muitos despropsitos, as slabas que se combinavam em perodos concisos. Dominava os receios e a tremura, desejava findar a obrigao antes que estalasse a clera da professora. Com certeza ia estalar: impossvel manter-se um vivente naquela serenidade, falando baixo.
     A clera no se manifestou  e explorei diversas pginas. Ento D. Maria me interrompeu, fez-me alguns elogios moderados. Pedi-lhe que marcasse a lio. Indicou vagamente o meio do livro.
      E o princpio?
     Declarou que no valia a pena repisar as folhas j lidas e conservou-me perto dela. Provavelmente era recomendao de meu pai. Ao apresentar-me, exagerara-me a rudeza e a teimosia. Um pretexto: isolava-me, temendo que me corrompesse, permitia-me raros companheiros inocentes. s vezes [pg. 119] esquecia a vigilncia, autorizava os passeios ao cercado, onde o moleque Jos e os garotos vadiavam.
     Findo o embarao, fechei o volume e observei os colegas. A caixa de pinho, a roupa de fusto branco e os sapatos roxos incutiam-me alguma segurana. No ntimo julgava-me fraco. Tinham-me dado esta convico e era difcil vencer o acanhamento.
     Comeou vida nova. Semanas e semanas tentei ambientar-me. No me exibia natural e chinfrim, diligenciava por qualquer modo compensar as minhas deficincias. Exprimia-me deploravelmente. E pouco tempo nos deixavam para comunicaes. Na ausncia da professora, abandonvamos os nossos lugares, cochichvamos. Vrios tipos mostraram-me indiferena ou antipatia, e Ceclia, cheia de arestas e orgulhosa, arrepiou-se, empinou-se, a boca torcida, um desdm to grande nos olhinhos acesos que me desviei vexado, com receio de molest-la.
     Isso me privou de excelentes mestres. Na verdade os melhores que tive foram indivduos ignorantes. Graas a eles, complicaes eruditas enfraqueceram, traduziram-se em calo.
     Felizmente D. Maria encerrava uma alma infantil. O mundo dela era o nosso mundo, a vivia farejando pequenos mistrios nas cartilhas. Tinha dvidas numerosas, admitia a cooperao dos alunos, e cavaqueiras democrticas animavam a sala. Certo dia apareceu na gaveta da mesa um objeto com feitio de lpis. Lpis grado, alvacento numa extremidade, escuro na outra. Que seria? Toda a aula foi interrogada, examinou o pedao de madeira, apalpou-o, mordeu-o, balanou a cabea e estirou o beio indecisa. D. Maria recolheu-se, ponderou, [pg. 120] afinal sugeriu que talvez aquilo fosse medida para Seu Antnio Justino cortar fumo. Seu Antnio Justino cortava sem medida o fumo de corda. E a raspadeira de borracha, imprestvel e sem ponta, ficou sobre a mesa, a desafiar-nos a argcia, a inspirar-nos humildade, junto  palmatria. A escola exigia palmatria, mas no consta que o modesto emblema de autoridade e saber haja trazido lgrimas a algum. D. Maria nunca o manejou. Nem sequer recorria s ameaas. Quando se aperreava, erguia o dedinho, uma nota desafinava na voz carinhosa  e ns nos alarmvamos. As manifestaes de desagrado eram raras e breves. A excelente criatura logo se fatigava da severidade, restabelecia a camaradagem, rascunhava palavras e algarismos, que reproduzamos.
     No me ajeitava a esse trabalho: a mo segurava mal a caneta, ia e vinha em sacudidelas, a pena caprichosa fugia da linha, evitava as curvas, rasgava o papel, andava  toa como uma barata doida, semeando borres. De nada servia pegarem-me os dedos, tentarem domin-los: resistiam, divagavam, pesados, midos, e a tinta se misturava ao suor, deixava na folha grandes manchas. D. Maria olhava os estragos com desnimo, procurava atenu-los debalde. As consolaes atormentavam-me, e eu tinha a certeza de que no me corrigiria.
     Uma vez em que me extenuava na desgraada tarefa percebi um murmrio:
      Lavou as orelhas hoje?
      Lavei o rosto, gaguejei atarantado.
      Perguntei se lavou as orelhas.
      Ento? Se lavei o rosto, devo ter lavado as orelhas. [pg. 121]
     
     D. Maria, num discurso, afastou-me as orelhas do rosto, aconselhou-me a tratar delas cuidadosamente. Isto me encheu de perturbao e vergonha. Se a mulher me desse cocorotes ou bolos, eu me zangaria, mas aquela advertncia num rumor leve deixou-me confuso, de olhos baixos, com desejo de meter-me na gua, tirar do corpo as impurezas que ofendiam vistas exigentes. Nunca minha famlia se ocupava com semelhantes ninharias, e a higiene era considerada luxo. Lembro-me de ter ouvido algum condenar certa hspeda que, antes de ir para a cama, pretendia banhar-se:
      Moa porca.
     A observao da mestra pareceu-me descabida, mas afligi-me, esquivei-me a exames desagradveis, e  noite dormi pouco. Na manh seguinte levantei-me cedo, abri a janela da sala de jantar, cheguei-me ao lavatrio de ferro, enchi a bacia, vagarosamente, para no acordar as pessoas e o papagaio. Ainda havia um pretume no quintal e silncio nos quartos. Fiquei talvez uma hora a friccionar-me, a ensaboar-me, at que o sol nasceu e as dobradias das portas rangeram. Fui olhar-me ao espelho da sala: as orelhas se arroxeavam, como se tivessem recebido puxavantes. Estariam bem limpas? As mos se engelhavam, insensveis, mas isto no tinha importncia. O que me preocupava eram as orelhas. Continuei a asse-las rigoroso, e ao cabo de uma semana surgiram nelas esfoladuras e gretas que dificultaram as esfregaes.
     A professora notou o exagero, segredou-me que deixasse as orelhas em paz. Desobedeci: havia contrado um hbito e receava outra admoestao, pior que insultos e gritos. [pg. 122]
     Minha me tinha engordado muito em alguns meses. As bochechas estavam murchas o os braos finos, mas a barriga crescia, os ps inchavam. Nervosa, movia-se a custo, arriava no marqueso, cuspindo nas gravuras do romance, abanando-se no calor. No nos vamos pela manh. Arranjava-me s. E engolido o caf, largava-me para a escola deserta.
     Sinh e Seu Antnio Justino vinham ensinar-me o catecismo. Depois a sala se povoava, D. Maria nos impunha o dever sonolento. Distraa-me espiando o teto, o vo das moscas, um pedao do corredor, as janelas, a casa de azulejos, cabeas de transeuntes. Perto, no quartel da polcia, Jos da Luz cantava. Uma rstia descia a parede, avanava no tijolo, subia outra parede, alcanava o trao que indicava duas horas. Os garotos soltavam os livros, fechavam com rumor as caixinhas, ganhavam a rua numa algazarra, iam jogar pio nas caladas. Admirava-me das expanses ruidosas, censurava-as e invejava-as. Conservar-me-ia na aula por gosto. Os meus temores ali se dispersavam, entendia-me bem com aquela gente: o homem preguioso, de chinelos, fumante, bocejador; a solteirona que me desbastava com pacincia e me orientava os dedos teimosos; a velha amorvel, bondade verdadeira, semelhante s figuras celestes do fls-santrio.
     D. Maria no era triste nem alegre, no lisonjeava nem magoava o prximo. Nunca se ria, mas da boca entreaberta, dos olhos doces, um sorriso permanente se derramava, rejuvenescia a cara redonda. Os acontecimentos surgiam-lhe numa claridade tnue, que alterava, purificava as desgraas. E se notcias de violncia ou paixo toldavam essa [pg. 123] luz, assustava-se, apertava as mos, uma nuvem cobria-lhe o sorriso. No compreendia as violncias e as paixes. Se o marido e a filha morressem, sofreria  e resignar-se-ia, confiante nas promessas de Cristo. De fato j se haviam realizado essas promessas. "Bem-aventurados os que tm sede de justia", zumbiam os meninos cochilando no catecismo. D. Maria no tinha sede de justia, no tinha nenhuma espcie de sede, mas era bem-aventurada: a sua alma simples desejava pouco e se avizinhava do reino de Deus. No irradiava demasiado calor. Tambm no esfriava. Justificava a comparao de certo pregador desajeitado: "Nossa Senhora  como uma perua que abre as asas quando chove, acolhe os peruzinhos." De Nossa Senhora conhecamos, em litografias, o vestido azul, o xtase, a aurola. D. Maria representava para ns essa grande ave maternal  e, ninhada heterognea, perdamos, na tepidez e no aconchego, os diferentes instintos de bichos nascidos de ovos diferentes.
     Nessa paz misericordiosa os meus desgostos ordinrios se entorpeceram, uma estranha confiana me atirava  santa de cabelos brancos, aliviava-me o corao. Narrei-lhe tolices. D. Maria escutou-me. Assim amparado, elevei-me um pouco. Os garranchos a tinta continuaram horrorosos, apesar dos esforos de Sinh, mas o folheto de capa amarela foi vencido rapidamente. Tudo ali era fcil e desenxabido: combinaes j vistas na carta de A B C, frases que se articulavam de um flego. E ausncia de conselhos absurdos, as monstruosidades que se arrumavam na pgina odiosa, triturada, rasgada com satisfao.
     Lendo o bilhete em que se pedia um segundo livro, meu pai manifestou surpresa com espalhafato. [pg. 124] Houve uma aragem de otimismo, chegaram-me retalhos de felicidade. Ofereceram-me um carretel de linha, mandaram-me comprar uma folha de papel vermelho na loja de Seu Filipe Bencio, obtive uma tesoura, grude, pedaos de tbua, e fabriquei no alpendre um papagaio que no voou. No jantar deram-me toicinho. E exibiram-me a preciosidade que exteriorizava o meu progresso: volume feio, com um retrato barbudo e antiptico. Ericei-me, pressenti que no sairia boa coisa dali.
     Realmente, encrenquei, para bem dizer ca num longo sono, de que a perseverana da mestra no me arrancou. Eu nunca revelara nenhum gnero de aptido. Xingado, s vezes tolerado, em raros momentos elogiado sem motivo, propriamente estpido no era; mas tornei-me estpido, creio que me tornei quase idiota. Os sentidos embotaram-se, o esprito opaco tomou uma dureza de pedra. Completamente inerte.
     Depois, muito depois, avancei uns passos na sombra. Recuei, desnorteei-me. Andei sempre em ziguezagues. Certamente no foi o segundo livro a causa nica do meu infortnio. Houve outras, sem dvida. Julgo, porm, que o maior culpado foi ele. [pg. 125]
     
O Baro de Macabas




UM grosso volume escuro, cartonagem severa. Nas folhas delgadas, incontveis, as letras fervilhavam, midas, e as ilustraes avultavam num papel brilhante como rasto de lesma ou catarro seco.
     Principiei a leitura de m vontade. E logo emperrei na histria de um menino vadio que, dirigindo-se  escola, se retardava a conversar com os passarinhos e recebia deles opinies sisudas e bons conselhos.
      Passarinho, queres tu brincar comigo?
     Forma de perguntar esquisita, pensei. E o animalejo, atarefado na construo de um ninho, exprimia-se de maneira ainda mais confusa. Ave sabida e imodesta, que se confessava trabalhadora em excesso e orientava o pequeno vagabundo no caminho do dever.
     Em seguida vinham outros irracionais, igualmente bem intencionados e bem falantes. Havia a moscazinha, que morava na parede de uma chamin [pg. 126] e voava  toa, desobedecendo s ordens maternas. Tanto voou que afinal caiu no fogo.
     Esses dois contos me intrigaram com o Baro de Macabas. Examinei-lhe o retrato e assaltaram-me pressgios funestos. Um tipo de barbas espessas, como as do mestre rural visto anos atrs. Carrancudo, cabeludo. E perverso. Perverso com a mosca inocente e perverso com os leitores. Que levava a personagem barbuda a ingerir-se em negcios de pssaros, de insetos e de crianas? Nada tinha com esses viventes. O que ele intentava era elevar as crianas, os insetos e os pssaros ao nvel dos professores.
     No me parecia desarrazoado os brutos se entenderem, brigarem, fazerem as pazes, narrarem as suas aventuras, sem dvida curiosas. Tinha refletido nisso, admitia que os sapos do aude da Penha manifestassem, cantando, coisas ininteligveis para ns Os fracos se queixavam, os fortes gritavam mandando. Constituam uma sociedade. Sapos negociantes, sapos vaqueiros, o Reverendo sapo Joo Incio, o sapo Jos da Luz, amigo da distinta farda, sapos traquinas, filhos do cururu Teotoninho Sabi, o sapo alfaiate mestre Firmo, a sapa Rosenda lavadeira a tagarelar os mexericos da beira da gua. O nosso mundo exguo podia alargar-se um pouco, enfeitar-se de sonhos e caraminholas.
     Infelizmente um doutor, utilizando bichinhos, impunha-nos a linguagem dos doutores.
      Queres tu brincar comigo?
     O passarinho, no galho, respondia com preceito e moral. E a mosca usava adjetivos colhidos no dicionrio. A figura do baro manchava o frontispcio do livro  e a gente percebia que era dele [pg. 127] o pedantismo atribudo  mosca e ao passarinho. Ridculo um indivduo hirsuto e grave, doutor e baro, pipilar conselhos, zumbir admoestaes.
     E isso ainda era condescendncia. Decifrados a custo os dois aplogos, encolhi-me e desanimei, incapaz de achar sentido nas pginas seguintes. Li-as soletrando e gaguejando, nauseado. Lembro-me de um desses horrores, que bocejei longamente. Um sujeito, acossado, ocultava-se numa caverna. A aranha providencial veio estender fios  entrada do refgio. E os perseguidores no incomodaram o fugitivo: se ele estivesse ali, teria desmanchado a teia.
     D. Maria resumiu essa literatura, explicou-a. E o meu desalento aumentou. Julguei que ela fantasiava; impossvel enxergar a narrativa simples nas palavras desarrumadas e compridas.
     Temi o Baro de Macabas, considerei-o um sbio enorme, confundi a cincia dele com o enigma apresentado no catecismo.
      Podemos entender bem isso?
      No:  um mistrio.
     Os meus infelizes miolos ferviam, evaporavam-se, transformavam-se em nevoeiro, e nessa neblina flutuavam moscas, aranhas e passarinhos, nomes difceis, vastas barbas pedaggicas. Achava-me obtuso. A cabea pendia em largos cochilos, os dedos esmoreciam, deixavam cair o volume pesado. Contudo cheguei ao fim dele. Acordei bambo, certo de que nunca me desembaraaria dos cipoais escritos.
     De quem seria o defeito, do Baro de Macabas ou meu? Devia ser meu. Um homem coberto de responsabilidades com certeza escrevia direito. No havia desordem na composio. S eu me atrapalhava nela, os meninos comuns viam facilmente [pg. 128] o fugitivo esconder-se na gruta, a aranha fabricar a teia. Humilhava-me  e na horrvel cartonagem s percebia uma confuso de veredas espinhosas. No valia a pena esforar-me por andar nelas. Na verdade nem tentava qualquer esforo: o exerccio me produzia enjo.
     Restava-me, porm, uma dbil esperana, pois naquela idade ningum  inteiramente pessimista: segurava-me  iluso de que o terceiro livro no seria to ruim como o segundo. Procurava enganar-me amparando-me numa incongruncia. De fato, reconhecendo-me inepto, era absurdo pretender melhoria. No me conformava. E se o catecismo tivesse para mim algum significado, pegar-me-ia a Deus, pedir-lhe-ia que me livrasse do Baro de Macabas. Nenhum proveito a libertao me daria: os outros organizadores de histrias infantis eram provavelmente como ele. Em todo o caso ambicionei afastar a mosca, a teia de aranha, o pssaro virtuoso.
     Desejo perdido. Recebi um livro corpulento, origem de calafrios. Papel ordinrio, letra safada. E, logo no intrito, o sinal do malefcio: as barbas considerveis, a sisudez cabeluda. Desse objeto sinistro guardo a lembrana mortificadora de muitas pginas relativas  boa pontuao. Avizinhava-me dos sete anos, no conseguia ler e os meus rascunhos eram pavorosos. Apesar disso emaranhei-me em regras complicadas, resmunguei expresses tcnicas e encerrei-me num embrutecimento admirvel.
     A tabuada e o catecismo eram penosos, mas a apenas me obrigavam a decorar certo nmero de linhas.
      Sete vezes nove? [pg. 129]
     Sessenta, pouco mais ou menos. A exigncia de D. Maria no se inquietava com unidades.
      Quantos so os inimigos da alma?
     Em trs palavras isentava-me da imposio. Estranhava que se juntasse a carne ao diabo: naturalmente havia equvoco na resposta. Quis insurgir-me contra o disparate, mas os sortilgios da tipografia comeavam a dominar-me. Em falta de explicao, imaginei um diabo carnvoro. A redao desviava esta idia. Pacincia. Todas as frases artificiais me deixavam perplexo. Enfim a minha obrigao era papaguear algumas slabas. D. Maria no entrava em mincias, talvez aceitasse o diabo carnvoro. Um mistrio, curto, por felicidade.
     O outro mistrio, o que se referia a pontos, vrgulas, parnteses e aspas, estirava-se demais e produzia um sono terrvel.
     Foi por esse tempo que me infligiram Cames, no manuscrito. Sim senhor: Cames, em medonhos caracteres borrados  e manuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha lngua, fui compelido a adivinhar, em lngua estranha, as filhas do Mondego, a linda Ins, as armas e os bares assinalados. Um desses bares era provavelmente o de Macabas, o dos passarinhos, da mosca, da teia de aranha, da pontuao. Deus me perdoe. Abominei Cames. E ao Baro de Macabas associei Vasco da Gama, Afonso de Alburquerque, o gigante Adamastor, baro tambm, decerto. [pg. 130]
     

Meu av




MINHA me adoeceu. Engordou muito na barriga e nos ps, mas as outras partes do corpo ficaram magras. No pescoo o gog crescia, as bossas da testa avultavam, o vestido subia na frente, cada vez mais se levantava, exibindo as pernas finas como cambitos.
     Foi passar meses na fazenda do pai. Antes de curar-se, esteve uns dias de cama, alimentado-se com piro escaldado e capes que vinham do galinheiro construdo a um canto do jardim. E bebia cachimbo, mistura de aguardente e mel de abelha dos cortios pendurados no beirai do alpendre. Em obedincia  medicina bruta do serto, adicionavam cebola  beberagem, o que a tornava repugnante. Afinal minha me largou o choco. Estava plida, sem ventre, a saia arrastando, fraca e bamba. E amamentava uma criana chorona.
     Tinham-me levado ao campo, na garupa do cavalo de meu tio Serapio. Os dentes de um cisca-dor me haviam furado o p na vspera. O chouto [pg. 131] do animal me sacudia, o rabicho e o aro da sela me incomodavam, a ferida se inflamava, doa. E Serapio me assustava narrando histrias de almas, de lugares mal-assombrados.
      Sarapo, no conte isso. Cale a boca.
     Serapio insistira, eu saltara nos seixos midos do caminho, magoara as estrepadas. Na fazenda, mal podia andar, capengava dos currais ao chiqueiro das cabras, aos juazeiros do fim do ptio, firmando-me no calcanhar.
     Meus tios pequenos se distanciavam, corriam na catinga, abandonavam-me ao capricho de meu av, que me jungiu  prosa do Baro de Macabas e ao catecismo, trazidos na carona de Sarapo. Mas o velho dava s letras nomes desconhecidos, lia de forma esquisita  e eu lamentava a ausncia de D. Maria, a excelente mestra que me deixava errar, murmurava conselhos com doura, como se pedisse desculpa. Meu av era exigente. Detinha-se numa desgraada slaba, forava-me a repeti-la, e isto me perturbava. As longas barbas brancas varriam-me a cara assustada; os olhos azuis, repletos de ameaas, feriam-me; a voz engrossava, rolava, entrava-me nos ouvidos como um trovo fanhoso e encatarroado. Os meus conhecimentos debandavam; as linhas misturavam-se, fugiam; no papel e dentro de mim grandes manchas alargavam-se. Nessa deplorvel situao, eu embrulhava estupidamente a leitura, balbuciava respostas insensatas. O grito ribombava, enchia-me de pavor, transformava-se pouco a pouco numa gargalhada imensa que atraa gente e me encabulava. A alegria ruidosa parecia-me intempestiva; as minhas tolices no tinham graa. [pg. 132]
     De repente o medo findava, uma bondade singular me envolvia, spera, adstringente, manifesta na fala cavernosa e autoritria, no riso grosso e incmodo. Bondade espessa, com cheiro de curtume, de angico.
     Perneiras, gibes, peitorais, enormes chapus de barbicachos, pendiam de tornos cravados na taipa negra. Rolos de sola arrumavam-se nos cantos, cordas flexveis em sebo. Enfileiravam-se num cavalete selas de campo de suadouros midos e escuros. Sapates cabeludos em toda a parte, mantas de peles, correias, cabrestos, chicotes, ltegos. Isso animalizava um pouco as pessoas.
     Em dias de matana trepava-me na porteira do curral, via meu av derrubar a machado, sangrar e esfolar uma novilha, aprumar-se no cho vermelho, as mos vermelhas. Comparei-o mais tarde aos judeus antigos, Abrao, Isaac, Esa, religiosos e carnvoros.
     A religio de meu av era segura e familiar. Revelava-se diante do oratrio erguido na sala, sobre a mesa coberta de pano vistoso. Na gaveta desse altar guardavam-se macetes, chifres de veado, sovelas, cera, pregos, torqueses, pedaos de couro em que se pulverizava fumo torrado. Em cima, na luz, entre fitas e flores secas, litografias piedosas, figurinhas santas esculpidas por imaginrios rudes. O velho se ajoelhava na esteira, persignava-se, batia no peito, ouvia a ladainha que Maria Melo, sacerdotisa e mulher do vaqueiro, cantava numa espcie de latim. Ali agachado e contrito, perto da negra Vitria e de Maria Moleca, voluntariamente escravas porque no tinham em que empregar a liberdade, reduzia-se muito, no se diferenava [pg. 133] quase de Ciraco, pastor de cabras. Finda a cerimnia, recuperava a grandeza e o comando:
       negra!
     Maria Moleca trazia a gamela de gua, vinha lavar-lhe os ps, de ccoras, enxug-los na toalha encardida. Essa posio era natural. De ccoras preparava a comida, temperava a panela, atiava o fogo na trempe de pedras. De ccoras varria a casa com um molho de vassourinha cortado no fundo do terreiro, onde o muamb e o velame desbotavam. Dormia de ccoras, arrimada  parede, sob as cortinas de pucum que desciam do teto.
     Se a gamela tardava,, minha av intervinha ranzinza:
      Vai lavar os ps de teu senhor, negra. 
     Dirigia-se a uma negra indeterminada, pois temia o gnio de Vitria, que arrastava no servio o quarto desmantelado, andava cambaleando, fazia trabalhos duros de homem, zangava-se facilmente e, endireitando o busto franzino de virgem murcha, uma coragem feroz a sacudi-la, despia a subservincia hereditria, roncava:
      Cativeiro j se acabou, dona. Se eu morrer na cozinha de Seu Pedro Ferro, no me salvo.
     Mas envelhecia, encarquilhava-se na cozinha. s vezes a coxa se desarticulava  e a infeliz se torcia gemendo, os bugalhos doloridos fixos nas crianas, que mangavam das caretas dela. Os amos se condoam, levavam para a cama de varas a pequena mquina desarranjada, tentavam desenferruj-la e azeit-la. Os ossos se juntavam, levantavam-se, iam coxeando consertar as cercas do jardim, regar os craveiros e a losna, encher no rio o pote, que voltava penso na rodilha, ameaando cair, um penacho de folhas verdes no gargalo. [pg. 134]
     Essa runa vacilante e obstinada era um refgio: defendia-nos dos perigos caseiros, enrolava-nos na saia de chita, protegia-nos as orelhas e os cabelos com ternura resmungona, esquisita expresso de maternidade gora. Estvamos em segurana perto dela.
      Se eu morrer na cozinha de Seu Pedro Ferro, no me salvo.
     Morreu de supeto, vomitando sangue, debaixo do jirau onde se acumulavam frigideiras, mochilas de sal, rstias de alho. E com certeza se salvou, porque endureceu na virgindade e conservou o esprito limpo. Fez muita falta, embora, j no podendo ser vendida e com uma banda desconchavada, representasse apenas valor estimativo.
     Antes da abolio alguns pretos haviam abandonado a casa, sido presos pelo capito-de-mato, fugido novamente. Meu av os deixara em paz, julgando-os malucos e ingratos. Como se arranjariam? Ali estavam quietos. O servio exigia pouco esforo, as vaquejadas eram torneios, o proprietrio passava dias no banco do copiar ou escanchado na rede, fungando tabaco, um leno no ombro, de alpercatas e roupa de algodo cru, descaroado na bolandeira prxima, tecido no tear domstico.
     A catinga imensa no tinha dono, o gado pastava livremente nela, de ribeira a ribeira, aumentava, definhava, bichos de vrias fazendas, reconhecveis pelas marcas a fogo. De manh as vacas leiteiras saam, voltavam  tarde. O resto dos animais ficava longe, sumido na vegetao rala, de cardo e favela, que vestia a campina. A riqueza aparecia no inverno, sem vantagem sensvel, desapareceria no vero, sem inconveniente. Na prosperidade, os hbitos da famlia no se modificavam, [pg. 135] porque a ausncia de saber limitava os desejos; se a penria chegava, permaneciam todos calmos, recolhendo-se  boca da noite, rezando o tero.
     Meu av possua bois em abundncia, espalhados na capoeira, difceis de juntar. No os levava ao mercado. Esperava que o marchante viesse busc-los. Mandava ento pegar alguns, mirava-os cuidadoso e determinava o peso: tantas arrobas e tantas libras. Nunca se enganava. Debatido pachorrentamente o negcio, afastados os compradores, sumia-se nas trevas do quarto, cochichava nmeros  mulher, ia esconder um mao de notas em arca de boas dobradias e boa fechadura. No tempo da monarquia o tesouro certamente era invisvel, constitudo por moedas amarelas. Depois, varivel e de papel, foi necessrio s vezes desentranh-lo, exibi-lo na rua a pessoas idneas, antes que ele se convertesse num monto de smbolos desvalorizados.
     Nos meses de seca, os raros habitantes daqueles cafunds mexiam-se cavando bebedouros na areia, cortando em cestos mandacaru para o gado, que se finava no carrapato. Dobravam-se as redes. As mos sangravam no trabalho rijo, curavam-se as rachaduras dos ps com sebo derretido na brasa. Nenhuma nuvem toldava os dias compridos; vos sinistros de arribaes riscavam o cu azul; os ramos das rvores eram gravetos escuros; as folhas tostavam-se; no cho branco e liso da vazante abriam-se largas fendas.
     Inteis os cuidados com os bichos moribundos, porque Deus os condenava e contra as resolues de Deus ningum pode. Entretanto meu av andava para cima e para baixo, furando-se nos espinhos, ordenando, fanhoso e lento, medidas vs. [pg. 136] Sossegaria quando os estragos, completos, abrandassem a clera divina. Sentar-se-ia de novo na rede, sem credores, isento de culpa. Inquietaes e fadigas eram penitncia que ele mesmo se impunha. O seu tribunal, antigo e particular, estava longe do de Padre Joo Incio. Purgava no extenso vero pecados ligeiros, o inverno ia encontr-lo forte e altivo. A certeza de proceder bem dava-lhe aquela serenidade perfeita. Cumpria deveres simples, no poderia viver de outra maneira. Tratar do gado, v-lo multiplicar-se ou diminuir; gerar filhos, cri-los, proporcionar-lhes batismo e casamento, no se afastar muito deles, ampar-los na pobreza e na doena, pr-lhes a vela na mo, amortalh-los, conduzi-los ao cemitrio e  eternidade. Nenhum pensamento estranho o perturbava, nenhum escrito ia modificar o velho Deus agreste e pastoril.
     Os livros existentes na fazenda eram as minhas cartonagens insossas, que o patriarca, nessas frias, tentou esclarecer-me no vozeiro temvel findo em riso grosso. No conseguiu melhorar-me o intelecto. A repreenso fingida e a alegria rouca me atordoavam. Desviei-me das carcias rsticas, das barbas alvas que me arranhavam a cara.
     A ferida do p cicatrizou. Fui ocultar-me entre as catingueiras que ensombravam as margens da lagoa vazia. Meninos andavam por ali, brincando com ossos e seixos. Serapio me ensinava complicaes da Histria do Brasil, errando bastante. E quando no havia testemunhas, uma rapariguinha silenciosa me examinava pacientemente o corpo. Levantava-me a camisa de chita, a roupa que eu usava no campo, utilizava os dedos e os olhos, num estudo profundo. [pg. 137]
     
     
Cegueira




AFASTOU-ME da escola, atrasou-me, enquanto os filhos de Seu Jos Galvo se internavam em grandes volumes coloridos, a doena de olhos que me perseguiu na meninice. Torturava-me semanas e semanas, eu vivia na treva, o rosto oculto num pano escuro, tropeando nos mveis, guiando-me s apalpadelas, ao longo das paredes. As plpebras inflamadas colavam-se. Para descerr-las, eu ficava tempo sem fim mergulhando a cara na bacia de gua, lavando-me vagarosamente, pois o contacto dos dedos era doloroso em excesso. Finda a operao extensa, o espelho da sala de visitas mostrava-me dois bugalhos sangrentos, que se molhavam depressa e queriam esconder-se. Os objetos surgiam empastados e brumosos. Voltava a abrigar-me sob o pano escuro, mas isto no atenuava o padecimento. Qualquer luz me deslumbrava, feria-me como pontas de agulhas. E as lgrimas corriam, engrossavam, solidificavam-se na [pg. 138] pele vermelha e crestada. Necessrio mexer-me  toa, em busca da bacia de gua.
     Sem dvida o meu aspecto era desagradvel, inspirava repugnncia. E a gente da casa se impacientava. Minha me tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia. Dava-me dois apelidos: bezerro-encourado e cabra-cega.
     Bezerro-encourado  um intruso. Quando uma cria morre, tiram-lhe o couro, vestem com ele um rfo, que, neste disfarce,  amamentado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal. Devo o apodo ao meu desarranjo,  feira, ao desengono. No havia roupa que me assentasse no corpo: a camisa tufava na barriga, as mangas se encurtavam ou alongavam, o palet se alargava nas costas, enchia-se, como um balo. Na verdade o traje fora composto pela costureira mdica, atarefada, pouco atenta s medidas. Todos os meninos, porm, usavam na vila fatiotas iguais, e conseguiam modific-las, ajeit-las. Eu aparentava pendurar nos ombros um casaco alheio. Bezerro-encourado. Mas no me fazia tolerar. Essa injria revelou muito cedo a minha condio na famlia: comparado ao bicho infeliz, considerei-me um pupilo enfadonho, aceito a custo. Zanguei-me, permanecendo exteriormente calmo, depois serenei. Ningum tinha culpa do meu desalinho, daqueles modos horrveis de cambembe. Censurando-me a inferioridade, talvez quisessem corrigir-me.
     A outra alcunha era mais insultuosa que a primeira. Lembrava-me do jogo infantil e arreliava-me:
 Cabra-cega!
 Inh. [pg. 139]
 Donde vem?
 Do mundu.
 Traz ouro ou prata?
 Ouro.
     
     Largavam em seguida uma porcaria que tinha besouro como rima; se a resposta fosse prata, a indecncia terminava, em barata. Eu abominava os nomes sujos, a brincadeira imunda enojava-me. No sabia por que me balizavam daquela forma. Se se referissem a uni cavalo cego, no me ofenderiam tanto. Com certeza pensavam no dilogo, lanavam-me indiretamente as grosserias ligadas ao besouro e  barata. Aperreava-me, no esquecia o folguedo mortificante:
 Cabra-cegal
 Inh.
 Donde vem?
 Do mundu.
     
     Ia at o fim, repisava mentalmente a safadeza que no ousava dizer em voz alta. Aquilo no era comigo, convencia-me de que minha me no tivera a idia de juntar-me ao besouro e  barata. Se a oftalmia desaparecesse, a expresso vexatria desapareceria tambm, eu regressaria ao catecismo, s histrias do Baro de Macabas.
     A doena estirava-se  e eu sofria duplamente os efeitos dela. Parece que se aborreciam por meu organismo teimar em conservar-se achacado e mofino. De fato no havia medicao, mas punham-me s vezes nos olhos uma camada pegajosa de clara de ovo batida, imobilizavam-me na cama de lona. Isolavam o rgo deteriorado: a clara transformava-se numa espcie de resina, grudava [pg. 140] as pestanas. No me queixava nem gemia. Debaixo daquela mscara, as feridas resguardavam-se dos mosquitos, mas as dores eram atrozes, o calor imenso. Picadas multiplicavam-se: mos invisveis metiam-me pregos finos na cabea. Tentava distrair-me ouvindo os sapos do aude da Penha. Os sapos s se explicavam de noite: durante o dia as vozes deles misturavam-se a outros rumores. Quando me permitiriam levantar-me, chegar ao lavatrio de ferro, diluir a pasta seca pregada na minha cara? L iria capengando, tateando as paredes. Livre do terrvel medicamento, voltaria  cama, o choro cairia manso.
     Na escurido percebi o valor enorme das palavras. Em dias de claridade e movimento entretinha-me a observar a loja e o armazm, percorria alguns metros do largo e alguns metros da Rua da Palha, de casa para a escola, da escola para casa. No conhecia a vila, mas certos pontos e certas figuras me despertavam a ateno, ganhavam relevo: a torre da igreja, residncia de corujas, o quartel da polcia, o jardim e as mulheres que podavam roseiras, a maravilhosa frontaria de azulejos, Filipe Bencio, Teotoninho Sabi, Jos da Luz, D. Maria, Padre Joo Incio. Nos arames bambos do telgrafo pousavam lavadeiras, enganchavam-se rabos de papagaios de papel. O porto, sempre fechado, nos separava do beco. No muro de tijolo vermelho passeavam lagartixas.
     Agora a sombra espessa cobria tudo. O muro se desmoronava, como o outro se desmoronara anos atrs. De novo surgiam as plantas meio esvadas, o descaroador do Cavalo-Morto, nuvens de algodo esvoaando. A igreja, os postes e os arames do telgrafo, aves e flores, a fachada luminosa, transeuntes, [pg. 141] dissipavam-se, vagos e distantes: no rigor do vero envolviam-..e numa densa garoa de inverno.
     Mas os rudos avultavam, todos os sons adquiriam sentido. Os passos revelavam as criaturas, quase se confundiam com elas: para bem dizer tinham forma, feies, e era-me possvel saber de longe se estavam zangados ou satisfeitos. D. Conceio rezava o bendito na casa prxima: certamente calejava o esprito e os joelhos, adorando as litografias do oratrio. Pedras de gamo estalavam  distncia, dados chocalhavam, os parceiros gritavam nmeros, excitados ou deprimidos. Ao ramerro externo associava-se o caseiro: pedaos de conversas, lamrias de criana, o chiar da gua a ferver na chaleira, o crepitar das labaredas, a vibrao do abano, o cochicho dos moleques. Os meus ouvidos aguavam-se, reconstituam frases indistintas, supriam lacunas  e isto encurtava ou alongava o tempo. Aos dois eptetos injuriosos uniam-se falas speras, que me atormentavam, agravavam as ferroadas dos mosquitos. Num sussurro, a voz de minha irm feia e boa tinha ao entorpecente, deslizava branda pelas feridas, como penugem. As dores esmoreciam, as horas passavam rpidas.
     Em falta desse enlevo, procurava anestesiar-me ouvindo as cantigas de minha me, duas cantigas desafinadas que a divertiam na fazenda. Provavelmente surgiram antes, mas foi l que me inteirei delas. Continuaram na vila, durante alguns anos. Depois, quando nos mudamos para a cidade e melhoraram as condies econmicas, sumiram-se, porque o sentimento artstico de minha me se embotou ou porque se tornou mais exigente. Uma das poesias comeava assim: [pg. 142]

A letra A quer dizer  amaria minha; 
A letra B quer dizer  bela adoraria, 
A letra C quer dizer  casta mulher; 
A letra D quer dizer  donzela amada; 
A letra E quer dizer  s uma imagem; 
A letra F quer dizer  formosa deusa.
     
     Em vez de efe, minha me pronunciava f, o que decerto convinha ao ltimo verso, e rematava-o com formosa deus, pois no admitia divindade fmea alm da Virgem Maria. Insinuei-lhe mais tarde que tambm se podia usar efe. E a donzela amada era uma deusa, na opinio do poeta. Enjoou-se, considerou as novidades impertinncias. A lengalenga se arrastava por todo o alfabeto. Quase todo o alfabeto: impossvel encaixar a bela adorada no K e no Y.
     A segunda composio referia-se a episdios da chegana, briga de mouros e crentes verdadeiros, mas tinha o nome de marujada e encerrava diversas interpolaes. Acomodara-se a epopia  cantiga.
     
    Mestre piloto, 
Onde est o seu juzo? 
Por causa de sua cachaa 
Todos ns estamos perdidos.

     A cantora se interrompia, descrevia a cena: oficiais indignados, mestre piloto aos bordos, levando  boca o gargalo de uma garrafa. A agitao diminua. Agora os marinheiros se esgoelavam:
     
O capito cheira a cravo; 
O mar-e-guerra, a canela; 
O pobre do cozinheiro 
Fede a tisna de panela,
     
     A havia uma deturpao: mar-de-guerra. Eu tinha idia de mar, aude infinito, e imaginava [pg. 143] guerra, barulho multiplicado, mas no chegava a perceber uma guerra dona do mar. Esquisito. Na comprida noite esforava-me por decifrar esse desconchavo. O pensamento divagava, escorregava de um assunto a outro, buscava segurar-se a paredes negras.
     Na Rua da Palha, meninos cantavam a tabuada, adquiriam as virtudes teologais, fugiam dos inimigos da alma, detinham-se em bonitas estampas coloridas, recitavam o caso de uma ferradura achada, vendida, substituda por um cacho de cerejas. Quando a rstia chegasse ao risco do lpis que marcava duas horas, todos se levantariam, sairiam pelas ruas em algazarra. Nunca me agitaria assim.
     Um dia as trevas se adelgaavam, pedaos do mundo apareciam-me confusos na madrugada nebulosa. Queria fixar-me neles, cheio de alegria louca, a pestanejar furiosamente. Voltava s ocupaes midas, s brincadeiras mornas e tranqilas. J no era cabra-cega. Mas permanecia bezerro-encourado. Em silncio, resvalava na tristeza e no desnimo. Osrio e Ceclia falavam com segurana e clareza, liam depressa, distanciavam-se. Os meus desgraados olhos vagueavam na pgina amarelada, molhavam os contos execrveis do Baro de Macabas. Os dedos emperrados manchavam-se de tinta, sujavam o papel, traavam garranchos ilegveis fora das linhas. No havia meio de ir para diante.
     E meses depois, nova pausa, novo mergulho na sombra. Movia-me penosamente pelos cantos, infeliz e cabra-cega, contentando-me com migalhas de sons, farrapos de imagens, dolorosos. [pg. 144]
     

Chico Brabo




O que mais me desagradava naqueles dias de cegueira peridica era a fala de Seu Chico Brabo, o vizinho da direita. A minha cama de lona, encostada  parede que nos separava do beco, estava perto da famlia Sabi. A casa de Seu Chico Brabo distanciava-se: havia de permeio a sala de jantar e a despensa. Mas quando ele falava, o bendito de D. Conceio esmorecia, findavam as conversas, os cochichos dos moleques na cozinha, o rumor do abano, o crepitar das labaredas que lambiam o angico no fogo. Era como se o homem tivesse atravessado muros e portas, estivesse ali junto de mim. Surpreendia-me o vozeiro tremendo, quase irreconhecvel despido das gentilezas macias que o abrandavam na calada e na rua.
     Seu Chico Brabo era solteiro, de meia-idade, grosso, baixo, na cara balofa e amarelenta uma barba ruiva, olhos midos e de porco. No me lembro de t-lo visto nas cavaqueiras de proprietrios e negociantes, que, depois do Vigrio e do Juiz, formavam [pg. 145] a aristocracia do lugar e marcavam a distino usando capotes e cache-nez de l no inverno. Vivia modestamente, aparecia em mangas de camisa, no peito descoberto uma grenha vermelhaa. Ignoro que ofcio tinha. Arredio, isentava-se dos deveres sociais com sorrisos tmidos, cumprimentos, alguma frase obsequiosa.
     Manipulava, drogas, possua uma farmcia caseira, chegava se aos doentes e medicava-os de graa. Fazia festas s crianas, acariciava-as passando-lhes nos cabelos os dedos curtos e gordos.
     Interessou-se vivamente pela asma de Leonor. Debruado  janela, conversou com minha me, pedindo notcias e dando conselhos. No dia seguinte ofereceu-lhe uns pacotinhos de p branco. Seguindo as prescries dele, minha irm curou-se.
     Na casa de Seu Chico Brabo no havia saias: todo o servio estava a cargo de Joo, um garoto de dez anos, estabanado, alegre, a alma se espelhando em duas filas de dentes largos, sempre expostos. Joo preparava a comida, trazia da feira os mantimentos, ia buscar gua na cacimba da Intendncia. Da minha cama de invlido, eu notava pedaos do trabalho dele: mveis deslocados, o chiar da vassoura no tijolo. De repente tudo se sumia, dominado pelo grito rouco e poderoso de Seu Chico Brabo:
      Joo!  Joo!
     O rapaz se esquivava, o chamado persistia, enrgico:
      Joo!  Joo!
     Eu desejava que o menino acorresse, findasse o brado longo, a repreenso, o castigo. Se ele tardasse, o amo se zangaria, agravaria a punio. Engano. Seu Chico Brabo no se zangava: prosseguia do mesmo jeito, at que o pequeno se desentocasse [pg. 146] e fosse receber as pancadas. Essa falta de pressa nas duas partes me alarmava, dava-me suores frios. Como podia algum conservar tranqilidade em semelhante situao? Quando me acontecia, uma desgraa como aquela, mexia-me, na tremura e no medo, a tentar uma defesa improvvel, a condenar-me.
     Realmente eu no sabia se Seu Chico Brabo estava tranqilo. Talvez houvesse nele uma clera macia, inaltervel. O objeto dela ficaria escondido muitas horas, sem aument-la, sem diminu-la. A ausncia de gradao enchia-me de pasmo, de mal-estar novo. As cinco slabas caam pesadas, as duas primeiras juntas, as ltimas depois de uma pausa. Arrepiava-me, cobria as orelhas com as palmas das mos midas, torcia-me Com desespero, mentalmente me dirigia a um esconderijo: 
      Sai, Joo. Vai logo.
     Certamente aquilo era pior que todas as chicotadas. Um instante de silncio, resflego encatarroado, tosse, gorgolejo de bicho frio. Na minha imaginao um corpo lento se desenroscava, o toicinho da papada tomava consistncia, a brancura e a moleza se coloriam. Dedos curtos se alongavam, transformavam-se em garras.
     E o apelo tornava, rouco, formidvel grunhido paciente de animal forte que nunca deixa o sossego.
     Bem. Agora Joo tinha resolvido largar o refgio, confiar-se ao destino, mas isto no abreviava a representao. Antes de lhe tombar no cachao, com fora de malho, o punho cabeludo, havia uma extensa argio, um minucioso rol de culpas, dividido em captulos espaados, findos na voz imutvel: [pg. 147]
      Joo!  Joo!
     Como se gritava daquele modo a uma pessoa que estava ali perto, Deus do cu? Um grito longo, interrompido, recomeado. Na cara biliosa haveria, sem dvida umas gotas de sangue. Isto no precipitava o desenlace: a tortura se aprofundava e alargava, metdica. Duas mos inchadas seguravam braos finos, sacudiam-nos reforando as objurgatrias. Suponho que Seu Chico Brabo no sentia prazer em magoar fisicamente a criana: gostava de aperre-la devagar, feri-la com palavras.  possvel que as palavras no ferissem, resvalassem na alma habituada s ameaas. Afinal dois ou trs golpes fofos. Guinehos de um; sopros, respirao ofegante do outro. Depois tudo se acalmava e os rumores comuns voltavam a embalar-me.
     No dia seguinte Joo estaria assobiando, cantando, arrastando as cadeiras, varrendo o tijolo. O homem lvido espalharia as banhas de capado no peitoril da janela, rosnaria grave e tmido  saudao dos transeuntes, falaria s mulheres da vizinhana, ensinando-lhes mezinhas, prestimoso, solcito.
     Duas figuras me perseguiam na doena prolongada: o sujeito amvel, visto na rua, e a criatura feroz da sala de jantar. As discrepncias avultavam, acumulavam-se - e era difcil admitir que algum fosse to generoso e to cruel. A recordao daquela doura mole, dos papelinhos de p branco, dos sorrisos, trazia-me ao esprito bondade completa; os urros furiosos e os sopapos descarregados em Joo exibiam-me completa maldade. Onde estava Chico Brabo? Qual dos dois era o verdadeiro Chico Brabo? Estarrecia-me esse desdobramento. Decerto havia nos filhos de Deus muito desconchavo [pg. 148]
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e muita rabugem. Poucos chegavam, como D. Maria, a apresentar serenidade invarivel, resistente a dores de barriga e enxaquecas. Mas, D. Maria, a velha professora quase analfabeta, aproximava-se da santidade. Os outros viventes possuam virtudes e defeitos, com desvios e oscilaes. Chico Brabo parecia-me dois seres incompatveis. Em vo tentei harmoniz-los. As lembranas multiplicavam-se, exageravam-se. Arriado na cama de lona, as plpebras coladas, via distintamente um deles. Os ouvidos excitados na cegueira fixavam-me na imaginao o segundo.
     Quando a viso tornava, os dois tipos faziam as pazes, reciprocavam concesses. Os meus olhos enchiam-se de imagens. Os meninos de Teotoninho Sabi esvoaavam. Jos da Luz vinha contar-me histrias. Uma porta se abria na Rua da Palha, expunha  vila a festa permanente do jardim florido. Nos sbados o largo se povoava de barracas; matutos, de gibo e guarda-peito, andavam na feira, aos tropices, as rosetas das esporas tilintando. Domingo, na missa das dez, nuvens de incenso escureciam os altares, ramagens de chita e vus de noivas; repiques de sinos abafavam o burburinho da multido, gritos de almas novas a esgoelar-se na pia, batizando-se. A vila se agitava. E nessa agitao Chico Brabo se dilua, pedaos de Chico Brabo se confundiam com pedaos de outros viventes. Os meus olhos piscos divagavam, buscando andorinhas no cu ou tropeando na leitura.
     Mas tornavam a inutilizar-se, a esconder-se, lacrimosos e supurantes, sob o pano escuro. E Chico Brabo novamente se desagregava. A parte boa ficava l fora, gastando-se em gentilezas, em obsquios s donas de casas, aos meninos asmticos. [pg. 151]
     A parte ruim se concentrava na sala de jantar e demolia Joo.
     Se Chico Brabo tivesse criados, vaqueiros, mulher, filhos, moleques na cozinha, dividiria, subdividiria a zanga, distribu-la-ia eqitativamente, e as parcelas nem seriam percebidas. Chico Brabo s dispunha daquela pequena subservincia. Depositava nela o veneno que produzia, purificava-se, voltava  sala, ia alagar as crianas, oferecer remdio s vizinhas. [pg. 152]
     
     

Jos Leonardo




APARECIA aos sbados na feira, sob um vasto chapu, aprumado na carona bojuda, numa complicao de alforjes, ltegos e bagagens. Foi o sujeito mais digno que j vi. Srio, de uma seriedade imvel e de esttua, os grandes olhos claros cheios de franqueza.
     Conservo a impresso de que Jos Leonardo, sem se apressar, fazia tudo direito: funcionava como um relgio, as rodas movendo-se regulares, os ponteiros indicando certo nmero de deveres.
     Os negociantes festejavam-no e disputavam-no. O irmo, Antnio Freire, no ligava importncia a obrigaes: vivia na rua, pedindo aqui e ali o que precisava. Toda a gente o atendia. Jos Leonardo pagava sem regatear, fingia no perceber aquelas descadas, e os bodegueiros inventavam contas, sangravam-no.
     No sei como esse homem se aproximou de mim. A seriedade e o silncio deviam afastar-nos. Trouxe-me presentes, ficamos amigos, levou-me ao Pico, [pg. 153] a fazenda que possua a duas lguas da vila. De inverno a vero, a campina alongava uma faixa de verdura na catinga. Longe, um serrote se erguia a prumo, esquisito muro de pedra rematado por unia ponta com aparncia de rvore morta. Da, o nome da propriedade. Corria de l um fio de gua, que no engrossava nem se reduzia. Canalizado na valeta, domesticado na bica de madeira, despejava no cocho que apodrecia debaixo de um p de jit, excelente banheiro. Lembro-me do meu primeiro banho. No calor, o jacto frio nos acariciava. Seu Filipe Fencio esfregava-se com sabo e estava cor de alfenim. Sacudia uma parte do corpo, como se quisesse despreg-la. Mergulhando no tanque raso, resfolegava como um bicho. Erguia-se, livre da espuma, limpo e fresco. Os bigodes longos derramavam-se, brancos, os pelos da barriga emaranhavam-se, brancos tambm, e surpreendiam-me. Eu no supunha que existissem pessoas to cabeludas.
     Do cocho a gua se derramava, corria solta na vrzea, regava o canavial, de canas enormes, nico por aqueles stios. Finda a umidade, o serto ia surgindo, a princpio vacilante e morno, povoado de ouricuris e cajueiros chinfrins, depois seco e amarelo, coberto de cactos, ossadas e seixos. A se arrastavam as criaturas famintas e sujas que vendiam na feira cestos de imbu e caa mida. Em tempo de escassez viviam disso, e como a escassez era freqente, emigravam, finavam-se na misria. Uma ou outra cabana, chiqueiros de cabras morrinhentas, badalar triste de chocalho.
     Nas minhas viagens ao Pico, arrumado  garupa do cavalo de Jos Leonardo, eu bocejava no mormao, olhando a plancie crestada, buscando uma folhagem de juazeiro. De repente, fartura e [pg. 154] sombra, inalterveis, que tinham dado ao pequeno proprietrio aquela serenidade. Realmente Jos Leonardo no dependia. Os fazendeiros da regio submetiam-se a alternativas: anos de abundncia e anos de penria. s vezes a terra produzia em excesso, outras vezes no produzia nada. Dissipao, mesquinharia. E contra isso qualquer esforo era intil.
     Jos Leonardo no conhecia lucros desmedidos nem prejuzos. Dedicava-se a uma indstria segura, diferente da dos vizinhos, No criava gado  e o Pico estava isento da lama e das moscas dos currais. Vestia pano em casa e no trabalho, coisa espantosa. Em geral s os habitantes da rua usavam tecido. Os matutos se encouravam, mexiam-se como tatus. Pelas redondezas para bem dizer no havia lavoura alm da sovina plantao feita nas vazantes dos audes e nas margens gretadas dos rios peridicos. Os surres de milho e feijo, em casa de meu av, procediam da mata, distante. Os homens ferravam, capavam, ordenhavam, retalhavam mantas de carne, curtiam, fabricavam ltegos e cordas; as mulheres enchiam potes de leite, mudavam-no em coalhada e em queijo.
     No Pico no se percebia o cheiro do sangue nem a podrido das bicheiras. E ocupaes desconhecidas logo me impressionaram. Fiquei tempo esquecido na engenhoca, admirando bois encangados, a mover-se em redor de um eixo, a cana a triturar-se em moendas de pau, o caldo a esguichar numa calha que despejava na primeira tacha do assentamento. Da se baldeava a outras, em cuias presas em varas. E da terceira um melado vermelho passava s formas, que deixavam no cho coberto de bagao uma chusma de rapaduras. [pg. 155]
     Nunca me havia ocorrido que as rapaduras fossem conseqncia de trabalho humano. Encaixadas, nas bodegas, no pareciam exigir tantos preparos. Aquilo era uma diverso curiosa. Bonitas, cor de ouro, empilhavam-se ainda quentes. E desejei permanecer ali, ao calor da fornalha, vendo a cana esmagar-se, o lquido borbulhar nas talhas, engrossar, solidificar-se.
      noite, na casa-grande, danavam e cantavam. O luar feria pedrinhas alvas nos caminhos. Achei que uma delas brilhava mais que as outras  e Jos Leonardo obrigou-me a aceit-la. Conservei alguns anos a preciosidade que faiscava na treva. Num canto de parede, como brasa perdida no borralho, avivava, em horas de aborrecimento e dor, aquelas recordaes  a faixa do canavial, gua empapando a vrzea, bois mansos pezunhando na engenhoca, o mel a ferver nas tachas, danas, cantigas, a plumagem viva das araras. E iluminava a figura que se ia distanciando no passado, fria, digna, tranqila. Bondade diferente das bondades comuns. No nos atraa, mas inspirava confiana, vencia o desgraado acanhamento que me embrulhava a lngua, escurecia a vista, gelava as mos.
     Fiz numerosas perguntas a Jos Leonardo, e ele nunca se espantou. s vezes hesitava, procurava-me na cara o sentido da frase obscura. E a informao vinha, natural e paciente. Sem me haver impressionado em demasia, esse homem deixou-me lembrana que se estirou e me disps a sentimentos benvolos.
     Mudei-me, fui viver na cidade. A pedra faiscante sumiu-se  e o meu quarto, rezadas as oraes, apagado o candeeiro de querosene, escureceu. [pg. 156] Mas a imagem serena me acompanhou. Fixou-se na parede,  noite, perto das litografias de santos, compreensiva e generosa, sem tentar corrigir-me, sem dar-me os conselhos que sempre me aperrearam e no serviram para nada. [pg. 157]
     
Minha irm natural




TNHAMOS feito diversas viagens  fazenda de meu av. Naquela, a mais importante, demoramos trs meses  e a famlia ganhou um membro, perdeu outro.
     O ganho foi representado por um menino choro, que morreu cedo. Minha me deitou-se na cama de lastro de couro cru, exilaram-me algumas horas no bosque de catingueiras,  beira da lagoa. Quando voltei, o pequeno estava nos cueiros, de figa no brao, defumado a alfazema, e submetia-se s predies de Maria Melo. Tudo se normalizou: minha me convalesceu, os capes que engordavam no cercadinho do oito, pegado ao jardim, morreram. A pessoa que desapareceu da famlia foi Mocinha. No sei bem se desapareceu da famlia, mas  certo que nos deixou. Talvez no a julgassem parenta: as relaes dela conosco eram imprecisas. Antes de meu pai casar, Mocinha lhe fora enviada por portas travessas, passara s mos de tia Dona, viva pobre que vivia com le e tinha duas filhas [pg. 158] novas. Viera o casamento, viera a mudana, tia e primas se haviam distanciado e Mocinha nos acompanhara ao serto.
     Era branca e forte, de olhos grandes, cabelos negros, to bonita que duvidei ser do meu sangue. Parece que no queriam tomar conhecimento dela. Aferrolhavam-na em camarinha tenebrosa. Natural: sempre tivemos camarinhas midas, tristes, seguras, fechadas, para as mulheres. Sentava-se a uma canto da mesa, rezava, comia de cabea baixa. O constrangimento devia tortur-la, pois no quintal, na cozinha, no alpendre, ria, cantava, entendia-se com Rosenda lavadeira. Do corredor para a sala de visitas encolhia-se, reprimia expanses, anulava-se.
     Minha me tratava-a quase cerimoniosamente. s vezes embirrava com ela, resmungava, largava muxoxos  e ns, viventes fracos, meninos e moleques, observvamos apreensivos essas manifestaes, de agouro ruim. A Mocinha no -chegavam dissabores. Era como estranha, hspeda permanente, embora se entretivesse em servios leves: bordava palmas e florinhas lentas em pedaos de morim estendidos em grades, remendava camisas, endurecia saias brancas na goma anilada, alisava-as a ferro numa tbua vestida em lenol, suspensa nos encostos de duas cadeiras.
     Isso lhe bastava  necessidade de movimento. E as exigncias do esprito satisfaziam-se com missas, novenas, teros de maio, conversas na prensa do copiar, leitura do romance longo, a histria de Adlia e D. Rufo. Na verdade Mocinha era meio analfabeta, mas a narrativa, pisada e repisada, j no apresentava obstculo; Adlia e D. Rufo mostravam-se. [pg. 159]
     As excelncias de D. Bosco, expostas nos folhetos amarelos dos Salesianos,  que se traduziam com esforo e incerteza.
     Ao levantar-se e antes de encafuar-se no quarto sombrio, que tinha apenas uma abertura, Mocinha se aproximava de meu pai, cochichava rapidamente. Ele rosnava uma beno, afastava se carrancudo.
     Aquilo era uni dever, dever tradicional que o lisonjeava e diminua. Provavelmente a situao do negcio (gado a morrer, pano barato na prateleira) no lhe permitia engendrar filhos em muitas barrigas, fortalecer-se com o trabalho deles. Reprodutor mesquinho, sujeitava-se  moral comum  e naquela bno engrolada ao amanhecer e ao cair da noite havia a confisso de que lhe faltava o direito de cobrir muitas mulheres, gerar descendncia numerosa. Cobria e gerava, mas devagar e com mtodo. Era um patriarca refletido e oblquo, escriturava zeloso os seus escorregos sentimentais. Mocinha no representava utilidade. Valor estimativo, de origem pecaminosa. E meu pai tentava convencer os outros de que ela no existia.
     Difcil. A intrusa se encorpava e embelezava, alargava a roupa, namorava-se ao espelho da sala. E do espelho saltou  janela, onde Miguel lhe foi segredar ternuras ao lusco-fusco.
     Miguel, indivduo importante, dos mais importantes do lugar, no podia ligar-se decentemente a uma filha das ervas. A gente dele, proprietria da casa de azulejos, motivo do meu assombro ao apear-me na vila, estrilou. E meu pai estrilou tambm, considervel e cheio de prospias, orgulhando-se daquela preferncia, mas rigoroso, intransigente. Fecharam-se e fiscalizaram-se as venezianas; estorvaram-se as relaes com o exterior; a menina, elevada [pg. 160]  categoria de pessoa, ouviu grilos, censuras speras, e as duas bnos dirias nunca mais lhe foram concedidas.
     Pensei mais tarde nas razes que levaram meu pai a repelir um sujeito de boa raa, influente na poltica local. Talvez desejasse evitar falatrios, que lhe causavam medo. Talvez receasse assumir responsabilidade, ir at o fim do caminho. Nunca se comportava assim. Ordinariamente parava, ocupado com mincias, e no jogo do solo, o seu divertimento no inverno, passava demais, enchia o pires de tentos, s se arriscava quando os trunfos lhe choviam nas mos. Temia vantagens, desconfiava dos lucros rpidos e fceis, que exigem capital e coragem  e aps o desastre na fazenda, bichos famintos, morrinha, destruio, tornara-se precavido em excesso. Realmente era ambicioso, mas a sua ambio voava curto. Leve amor s aventuras e riscos, aventuras e riscos medianos, o induzia a vender fiado. Tomava todas as precaues, estudava o fregus pelo direito e pelo avesso, duplicava o preo da mercadoria, e se a fatura se elevava um pouco, suava numa angstia verdadeira. Findos os noventa dias do prazo, esfolava o devedor com juro de dois por cento ao ms.  possvel que, nesse caso afetivo, ele haja, adotando os seus hbitos comerciais, procedido economicamente. Se acolhesse as boas intenes de Miguel, precisaria mandar fazer enxoval, comprar malas, realizar uma festa com anncio em banhos, cerimnia de igreja, msica, jantar para dezenas de convidados. Viriam Padre Joo Incio, o Comendador Badega, Seu Flix Cursino, Teotoninho Sabi, Filipe Bencio. Teramos discursos, teramos dana. Esses desarranjos, alm de caros, no estavam na ndole de meu pai. Desorganizar-lhe-iam [pg. 161] a vida. A nossa mesa era exgua, ladeada de bancou duros. Com os anos, aumentou, recebeu hspedes numerosos, mas naquele tempo em geral se acomodavam em redor dela seis ou oito pessoas. E na sala de visitas, retirados o marqueso e as cadeiras, poucos pares conseguiriam mexer-se. Meu pai detestava a dana, formalidade necessria em bodas. Certamente se lembrava de culpas nascidas na valsa e na quadrilha  e da o horror. Havia na existncia dele, no escuro do passado, uma Deolinda, a que minha me se referia com inveja. Deolinda surgira escandalosamente na quadrilha e na valsa, trara o marido  e, em conseqncia, meu pai reprovava com energia o exerccio abominvel. Minha me esqueceu a reprovao e cometeu uma falta: danou com um primo barbado, em casa de meu av. Arrependeu-se, achegou-me ao peito magro, pediu-me que no revelasse a ningum o desgraado sucesso. Comprometi-me. Quando nos desaviemos, ameacei-a. No ligou importncia s ameaas: puxou-me as orelhas. Senti a perfdia, mas fui generoso, guardei o segredo. E a paz do casal no se alterou.
     Deolinda se esfumara. E, na frieza, Mocinha bordava palmas e flores, engomava saias, ouvia missas. No romance extenso e amarfanhado travara conhecimento com D. Rufo e Adlia. E transformava Miguel num virtuoso gal. O nosso governo totalitrio admitia Adlia e D. Rufo, mas no admitia Miguel. No tentava suprimir a fico contida nos volumes sujos. Consentia a leitura, reconhecendo a inutilidade dela fora do artigo poltico e dos lanamentos do borrador. Mas, deixando  menina o direito de pensar em tipos de histrias, decidiu conserv-la na virgindade. Obrigava-se a [pg. 162] aliment-la por largos anos, vesti-la, cal-la. Isto representava uma despesa pingada, quase insensvel. Gastos extraordinrios  lenis, fronhas, camisas, o vestido branco, vu, grinalda, fita, renda, muita comida, muita bebida, msica etc.  perturbar-lhe-iam as finanas. Tia Dona arranjara um casamento infeliz, enviuvara, tuberculosa, com duas filhas. Tia Josefa envelhecia longe, solteira. Tia Jovina envelhecia tambm, e ainda envelhece, coxa e triste, em companhia da ltima de minhas irms naturais. Meu pai distribua migalhas a essas pobres. Continuaria a sustentar Mocinha, contanto que ela procedesse direito, vivesse calma, na gaiola e na moral.
     Fervia nela, porm, o sangue materno, a solido afligia-a. E Miguel no queria ser figura de romance. Entenderam-se, apesar da proibio, inflamaram-se, cambiaram acenos e bilhetes. E tudo se resolveu.
     A gente de meu av se reunia na sala, em torno da mesa que tinha nas gavetas bolas de cera e macetes de capar boi, e em cima, na glria, litografias e esculturas, Jesus e a Virgem, santos e santas. Minha me embalava o filho novo na rede, junto  cama de lastro de couro cru,  luz da lamparina que esmorecia no copo. Maria Melo puxava a ladainha. O patro, o velho cabreiro Ciraco, diversos apaniguados, abatiam-se rezando, os joelhos sobre chapus de couro. A patroa, caboclas da vizinhana, as negras da cozinha, sucumbidas na esteira, esmurravam o peito e cantavam. Os meus olhos dodos e purulentos escondiam-se num pano preto, lacrimejavam, enxergavam a custo vultos indecisos, as labaredas trmulas das velas. Fragmentos do exterior confuso entravam-me nos ouvidos. Os armadores da rede calaram-se, as vozes enfraqueceram, a ladainha [pg. 163] findou, as mulheres ergueram-se num frufru amarrotado, alpercatas e chinelos arrastaram-se, o claro do oratrio morreu, as paredes sem reboco enegreceram mais.
     Sbito, um rebulio: Mocinha estava sumida. Procuraram-na por Iodos os cantos; as tochas dos candeeiros do querosene iluminaram os quartos, o depsito do algodo, o quintal, o bosque de catinguoiras, o ptio; os gritos de meu av ecoaram nas ribanceiras do Ipanema. No se descobriu Mocinha. lia piada por vrios cavaleiros, num simulacro de fora e conquista, foi, em conformidade com a praxe, acolhida e vigiada por senhoras idosas. Nesse asilo nenhum mal lhe chegaria, mas estabeleceu-se que moa fugida  moa avariada.
     Para sanar a avaria absurda, medianeiros verbosos diligenciaram um conchavo entre as duas famlias. Houve as conversaes usuais e o acordo no se realizou. Meu pai conservou-se intransigente e digno. Ao regressar  vila, achei-o com a barba crescida, afirmando que a ingrata significava para ele mo cortada. Frase esquisita. Efetivamente nunca a pequena lhe servira de mo. Meu pai era assim: gostava de expresses enfticas e no reparava no sentido das palavras. Mo cortada. Essa amputao o eximia de banhos, vu, grinalda, renda, fita, lenis, fronhas, jantar. Mocinha casou silenciosamente, sem msica e sem dana, na missa das sete. E teve alguns anos de equilbrio e felicidade.
     Tentou reconciliar-se conosco. Enquanto meu pai jogava solo na loja, entrava pelo porto do quintal, ficava uma hora falando baixo com minha me, na prensa de farinha do alpendre. [pg. 164]
     Depois veio a mudana e nos distanciamos. Miguel abandonou-a, ligou-se a outra, no civil. Se no me engano, ligou-se tambm a uma ndia, na lei dos ndios, para as bandas do Amazonas. Mocinha desapareceu e no deixou vestgio. [pg. 165]
     
Antnio Vale




TNHAMOS feito uma estao na vila, para bem dizer estvamos ali hospedados, com grande economia e sem nenhum conforto. Vivamos como retirantes que se fixam algum tempo e ganham foras para seguir caminho. Meu pai, educado no balco, aceitara os conselhos da sogra, metera-se em pecuria nos cafunds de Pernambuco. Arruinando-se na seca usara os restos do capital e o crdito, mercadejava com o fim de obter meios para regressar s Alagoas e  mata.
     A situao transitria lhe fornecia desculpa ao recusar negcios inconvenientes. Era passageiro, no queria imveis nem vendia fiado. Mas adquiriu e lavrou o cercadinho prximo ao cemitrio. E acontecia deixar-se vencer pelo medo. Assustava-se diante de um ferrabrs, largava-lhe a mercadoria exposta. Diligenciava escond-la, exibia-lhe os defeitos, amunhecava faturando-a, embrulhando-a  [pg. 166] e no borrador ficava o sinal do prejuzo, a amargur-lo. Quantias mdicas ampliavam-se, apavoravam-no.
     De tempos a tempos esses fregueses indesejveis lhe causavam surpresas boas, como Seu Antnio Vale, fazendeiro, de famlia considerada e reimoso. Seu Antnio Vale comprava regularmente, a dinheiro, sem regatear. Um dia, ao ver a conta, esvaziou os bolsos e concluiu que as notas, os nqueis e as pratas escasseavam. O jeito que tinha era deixar alguns artigos. Chegara o momento infeliz, esperado com nsia. Meu pai se preparara e utilizou a franqueza e a ingenuidade precisas: conhecia a m reputao do homem, os outros negociantes diziam dele cobras e lagartos e no lhe fiavam duas patacas. Maledicncia, calnias. Podia levar os panos. Via-se bem que era pessoa direita. A loja ia acabar, mas, enquanto estivesse com as portas abertas, ele mandava. Sem dvida. Seu Antnio Vale engrossou o papo, avermelhou-se, bateu o p na calada e gritou para o largo que os bodegueiros todos eram umas pestes, magote de safados. Mostraria que no passavam de uns mentirosos.
     Mostrou. Em numerosas transaes foi pontual demais: com certeza maquinava um calote rijo. Sobre a derradeira meu pai se manifestou na sala de jantar,  ceia, com aquele modo vago de falar como se no se dirigisse a ningum. De fato no se dirigia. Minha me espalhava o pensamento curto em assuntos mais fceis, e o monlogo servia para ele arrumar as idias.
      Afinal podia ser pior. Engana, e claro, desta vez engana. Sabe que estou de muda e escapole-se. Natural. No me queixo: procedeu com [pg. 167] decncia trs anos e deu lucro. Felizmente deve pouco.
     Algum tempo depois Seu Antnio Vale veio informar se da viagem e prometeu voltar. Na vspera ainda no tinha aparecido.
      Eu sabia, gemeu o credor. No esperava outra coisa.
     Mas de madrugada, quando os almocreves inqueriam as ltimas cargas e minha me fiscalizava a cana deserta, embaraando-se na enorme saia de montar, Seu Antnio Vale surgiu num cavalo esquipador, a carona pejada, os alforjes cheios, resolvido a acompanhar-nos. Trazia um rolo de cdulas e pagou a dvida. [pg. 168]
     

Mudana



UMA caminhada extensa, dezenas de lguas. Eu ia de garupa, escanchado num travesseiro, agarrando-me ao palet de Jos Leonardo para equilibrar-me, em posio muito incmoda. A princpio a novidade me tornou loquaz e curioso, perguntei os nomes de aves e plantas, mas veio o sol, veio o mormao, e ca numa sonolncia estpida. As virilhas suadas ardiam-me, o chouto do animal sacolejava-me, revolvia-me as tripas, deslocava-me os ossos. Amolecido, bambo, admirava-me de ver em redor cavaleiros palradores, satisfeitos com o duro como um papagaio, trpego, as juntas dodas.
     Descansamos "uma tarde em casa do poeta po-exerccio. Nos pousos, arrastava-me, cambaleava, pular Cordeiro Manso. Pernoitamos depois junto a um aude lamacento, onde patos nadavam. Construiu-se com fardos, caixas e encerados uma tenda, e a me estirei sobre peas de estopa, friorento, iluminado a cera de carnaba. As estacas de uma [pg. 169] cerca roavam nu- MM costelas; interrompiam-me o sono o choro do vento, a conversa dos arrieiros aboletados na vizinhana e os gemidos quase humanos de uma ovelha doente.
     Outras estaes fugiram-me da memria. Jos Leonardo e Antnio Vale despediram-se  e com eles o serto desapareceu. Xiquexiques e mandacarus foram substitudos por uma vegetao densa e muito verde; nos caminhos escuros os chocalhos calaram-se; surgiram regatos, cresceram, transformaram-se em rios e atrasaram a marcha.
     Figuras desconhecidas vieram encontrar-nos, amveis, risonhas, primos em vrios graus, familiares como se tivssemos vivido sempre juntos. Evidentemente a situao econmica de meu pai era razovel. Emigrara, encalacrara-se, mas recompusera-se, e, graas s cargas de fazenda, tranqilizava os parentes. Os mais grados perceberiam de longe a existncia dele; os pequenos se chegariam, flexveis, exaltando-o. E assim, tolerado por uns, adulado por outros, fixaria de novo na terra antiga as razes cortadas.
     Jos da Luz, Padre Joo Incio, a velha professora de cabelos brancos, Filipe Bencio, Chico Brabo e os meninos de Teotoninho Sabi diluam-se a distncia. E as caras estranhas me inspiravam receio.
     Fiz o resto da viagem com um moo alegre, que tentou explicar-me as chamins dos bangs, os campos de lavoura, rvores robustas, associadas, atravancando a paisagem. Tinham-se sumido os grandes espaos alvacentos, de areia e cascalho, despovoados, o mato franzino, bancos de macambira, cercas de pedra, chiqueiros e currais, dias luminosos riscados pelo vo das arribaes. Veredas [pg. 170] subiam, desciam, torciam-se, e  beira delas arrumavam-se casas, jardins, hortas. Os transeuntes no se vestiam de couro. Em qualquer ponto, achava-me num buraco, entre morros. gua abundante e ruidosa, capinzais imensos, manhs nevoentas.
     Chegamos ao municpio de Viosa, em Alagoas. Antes de estabelecer-se na cidade, meu pai se hospedou num engenho de fogo morto. E durante meses, em longas ausncias, trabalhou com Seu Manuel Costa, assentando as bases de uma sociedade comercial, gora em pouco tempo.
     Constrangi-me no ambiente novo, perdi hbitos e adquiri hbitos. Numerosos acidentes perturbavam-me: atoleiros, cancelas, arame farpado, canaviais de folhas cortantes, valas. Impossvel correr por causa das ladeiras. Objetos e palavras inexistentes no serto originavam incerteza, e a maneira de falar me chocava os ouvidos. As pessoas e as relaes me desnorteavam: no podia saber se me comportava direito com a parentela confusa e respeitvel.
     Os irmos de minha me eram pequenos, alguns menores que eu, e brincvamos juntos no bosque de catingueiras que rodeava a lagoa. Jacinta me dissera uma vez, zangada e vermelha, encompridando o vestido de chita:
      Me respeite. Eu sou sua tia. 
     E eu respondera, naturalmente: 
      Voc  besta.
     Agora me apresentavam mulheres speras e de cachimbo, homens importantes e enrugados: tia Jovina e tia Josefa, tio Pedro e tio Incio. Conselhos, dureza, carranca. Obtive uma irm natural, morena, grossa, feia. E duas primas bonitas, que findaram tuberculosas. [pg. 171]
     No fim do ptio a bagaceira fermentava Roseiras floresciam no jardim, cips emaranhavam-se na latada. Um riacho se escondia entre verduras comia a terra negra e pedras limosas. Vivamos ali em promiscuidade, bichos e cristos midos [pg. 172]
     

Adelaide




A sociedade comercial Ramos & Costa, explorando o negcio de fazenda, miudeza, ferragem e perfumaria estabeleceu-se numa esquina do largo principal da cidade: prdio vistoso, com diversas portas, um letreiro vermelho e negro feito por Joaquim Corrento, que pintava ndios empenachados e falava muito em chimpanzs e orango-tangos. Na loja havia dois caixeiros e um guarda-livros.
     A famlia se instalou na Rua do Juazeiro, numa casa prxima  cadeia, e dissabores a nos surgiram. Certamente meu pai se esforava demais por agentar-se e trepar. Comeou a ter vertigens e sncopes, desacordava minutos compridos, e ns nos alarmvamos, rfos, chorvamos olhando o corpo morto. Levantava-se e revivia, continuava na faina de subir, nivelar-se aos parentes enraizados na lavoura. Alguns iam visitar-nos, duros, tesos. Findas essas cerimnias, meu pai caa num abatimento profundo. s vezes se deitava, enrolava-se nos cobertores, [pg. 173] desalentava-se, em tremuras, anunciava aos gritos que ia morrer. Vinha o Dr. Mota Lima, dava-lhe um vomitrio de substncia, encorajava-o pregando lhe os culos grossos de mope. O doente se envergonhava daquele barulho  e horas depois lisonjeava os proprietrios, colaborava na poltica.
     A terra era um lamaal cheio de ladeiras. Em tempo de inverno a gente andava com dificuldade no calamento de pedras soltas, entremeadas de barrocas.
     Matricularam-me na escola pblica da professora Maria do O, mulata fosca, robusta em demasia, uma das criaturas mais vigorosas que j vi. Esse vigor se manifestava em repeles, em berros, aos setenta ou oitenta alunos arrumados por todos os cantos.
     Localizaram-me no corredor  e, pouco fiscalizado, quase despercebido, reabri desgostoso o terceiro livro do Baro de Macabas, tornei a encalhar nas regras de pontuao. As minhas deficincias ocultaram-se alguns dias: Dondom, mocinha plida e misericordiosa, tomou-me as lies, protegeu-me, corrigiu-me a pronncia, inutilmente, e fez por mim na ardsia as contas enigmticas.
     Mandavam-me rabiscar algumas linhas pela manh. Logo no incio desse terrvel dever, o pior de todos, surgiu uma novidade que me levou a desconfiar da instruo de Alagoas: no interior de Pernambuco havia 1899 depois dos nomes da terra e do ms; escrevamos agora 1900, e isto me embrulhou o esprito. Faltou-me a explicao necessria. Como a doce mestra sertaneja, clara, de belos caracis imaculados, superava a outra, escura, agreste, de msculos rijos, nos olhos raivosos estrias amarelas, considerei a nova data um erro. Com [pg. 174] certeza no foi esta reflexo que mo endureceu a munheca e povoou de borres o traslado, mas pode ter tido influncia: realmente no caprichei na fatura de sinais duvidosos.
     Uma vez, notando-me o desnimo diante da folha machucada, Dondom tomou a pena, traou vrios caracteres em caligrafia direita, emagrecendo-os, engordando-os convenientemente, e induziu-me a prosseguir daquela maneira. Conselho perdido: as garatujas de 1900 eram iguais s de 1899. E quando a professora foi julgar as escritas e viu o dolo, chamou-me, exigiu esclarecimento. Desejei mentir, responsabilizar-me. Impossvel. Olhei desesperado a minha cmplice. D. Maria do O envolveu a mo nos cabelos da menina, deixando livres o indicador e o polegar, com que me agarrou uma orelha. E, tendo-nos seguros, agitou o brao violentamente: rodopiamos como dois bonecos e alumos sobre os bancos.
     Voltei ao anonimato e  sombra, contundido. Mas a benvola imprudncia da moa e a raiva da enorme bruta falharam: permaneci obtuso, odiando as vrgulas e o catecismo, s abrindo os volumes sujos  hora da lio. Felizmente escapava entre dezenas de garotos rudes. Se no fosse a recordao de uns dedos que me apertavam a orelha, conseguiria achar paz e segurana. Na sala, vendo a mulata ou cafuza brandir a palmatria, precisaria comportar-me bem, simular ateno, molhar de saliva as pginas detestveis. Ali, no encolhimento e na insignificncia, os livros fechados, embrutecia-me em leves cochilos, quase s. Desperto, bocejava, examinava o quintal estreito, que subia o morro do cemitrio, argiloso e resvaladio. [pg. 175]
     Perto, na cozinha, trs velhas, tias da professora, midas e cor de piche, torravam milho no caco, pisavam milho no pilo, enchiam de fub caixinhas coloridas e franjadas. Os alunos astutos compravam aquilo, massa pegajosa, amarga, nauseabunda  e os ganhos da indstria caseira excediam talvez o vencimento que o Tesouro pingava. Constrangida no espartilho, branqueada a p-de-arroz, D. Maria do O fingia humanizar-se l fora: a voz amansava, a carne se reprimia, domstica, os bugalhos amarelentos se ocultavam sob as plpebras roxas  e a fera metia as garras nos cabelos das crianas, adulando.
     Entre as vtimas desse diabo, a mais infeliz era minha prima Adelaide. Os pais no queriam separar-se dela. E, ricos, podendo confi-la a estabelecimento que ensinasse lnguas difceis, tinham resolvido instru-la sem perd-la de vista. Os colgios mais ou menos europeus ficavam longe. Iriam solt-la por este mundo, sujeita a inconvenincias? No. A pequena conservaria, perto de casa, todas as virtudes: bordaria fronhas; ligar-se-ia no altar, sem namoro, a um rapaz de juzo e fortuna, bem apessoado. E diferenar-se-ia das mulheres que fumavam cachimbo de barro. Uma Adelaide letrada, no muito letrada, com as inovaes e as letras necessrias. Uma Adelaide que se banhasse no riacho e falasse francs.
     Ora, Joo Leite, dono do Cavalo-Escuro, no conhecia os degraus da cincia. Acreditara num diploma da escola normal, entregara a filha a D. Maria do O. E, em conseqncia, uma vez por semana, carros de bois e cargueiros derramavam na escola formas de acar, melado, sacos de gro, farinha. A princpio esse exagero fora recebido com [pg. 176] alvoroo, mas habituaram-se a ele, esqueceram agradecimentos, enfim aboliram as gatimnias dispensadas ao portador risonho, o crioulo Jos Lus. Adelaide se rebaixara. Estava ali quase rf  e a horrenda mulata inchava e se envaidecia, publicando por meios indiretos que fazia caridade a uma intrusa. Insensvel ao pagamento largo, torturava-a.
     Certamente no comeara impondo-lhe maus tratos: afeita  liberdade, ao mando, s correrias, s injrias a caboclos na bagaceira, Adelaide se rebelaria contra a nova autoridade, aparentemente igual s figuras que serviam na casa-grande. Indispensveis meses e anos para dominar a criaturinha, degrad-la, enquanto o algoz se acomodava tambm  situao, experimentava as foras, apurava a maldade. No comeo o jeito servil, o sorriso convencional; em seguida um olhar frio, gesto de enfado, palavra dura; a lisonja recomposta; novamente acrimnia e aspereza. Idas e vindas, intermitncias. Um castigo  e logo o af de obliter-lo, explic-lo como trabalho de educao. A covardia manhosa adoava umas trguas curtas. No fosse a garota badalar, pedir aos pais que a retirassem daquele inferno. No pedia. Talvez at ignorasse que estava nele. Tinham-na vencido, tinham-lhe gasto o fio em pedra de amolar. Afinal desapareceram as precaues. El a menina, triste, olhava a rua, os montes verdes. Silenciosa, descia, cada vez mais descia, esgueirava-se, tentava ocultar a magreza, na aula muito povoada. Tentativa intil. D. Maria do O atravessava as pessoas com os olhos, achava num canto da sala o corpinho fugidio, imputava-lhe qualquer falta. s vezes a casa no estava bem varrida. Marcas de poeira, visveis entre os [pg. 177] bancos, avultavam apontadas pelo grosso dedo severo, comentadas pela voz estridente. E a infeliz, vergando sob a clera despropositada, ia buscar a vassoura, limpar o tijolo, havia-se reduzido  condio de criada. Na labuta domstica, sofria a birra das trs velhas midas e cor de piche. Essas frias boais vinham de classe muito baixa, tinham decerto adquirido em senzalas o veneno que destilavam. Da subservincia, antiga, passavam s ordens brutais, vingavam-se numa possvel descendente de senhores remotos. Adelaide curvava o espinhao, calejava na obedincia, esmorecia nos trabalhos mais humildes.
     A estranha inverso de papis me surpreendia e revoltava, mas a surpresa e a revolta nunca se manifestaram. Longe da escola, em arrancos de coragem, afrontei as megeras.
      Ah! negras!
     Ali no corredor, o livro esquecido nos joelhos, vendo o quintal, o morro, ouvindo as lies cantadas e a arrelia da mestra, anulava-me, colava-me  parede, pusilnime e esquivo. No ousaria revelar afeto a minha prima, no me arriscaria sequer a observar o martrio dela. Nas horas de aflio, multiplicadas, baixava a cabea, fingia no perceber os braos finos, o rosto murcho e plido, a boca torcida, os grandes olhos assustados, sem lgrimas. Receava, mostrando qualquer sinal de interesse, magoar a pobre, humilh-la ainda mais. Talvez isso fosse hipocrisia: o que eu receava intimamente era comprometer-me associando-me quela fraqueza, receber cachaes destinados a ela. No me parecia que Adelaide pudesse reabilitar-se, recuperar a alma de proprietria, dominar os cambembes esvados no eito. O engenho perdera a grandeza, [pg. 178] era uma sombra de engenho, e a sinh-moa arrastaria anos de vexame, at o fim da vida.
     Tinha-me chegado vagas notcias da escravido, sem relho e sem tronco, aceitvel, quase desejvel. Maria Moleca e Vitria, livres, viviam sossegadas em casa de meu av. No me vinha a idia de que se conservassem ali por hbito ou por no terem para onde ir. Estavam bem, sempre tinham estado bem. As tias da professora haviam sido mucamas de luxo, sem dvida, antes da maluqueira de uma princesa odiosa. Ingratas. No me ocorria que algum manejara a enxada, suara no cultivo do algodo e da cana: as plantas nasciam espontaneamente. E no pensava no sacrifcio necessrio s trs mulheres para levantar a sobrinha fusca, desbast-la, vesti-la, escov-la, impingi-la na sociedade. Essa metamorfose era casual. E arrepiava-me.
     Coitada de minha prima, to boa, to dbil, suportando as enxaquecas das miserveis. Lugar de negro era a cozinha. Por que haviam sado de l, vindo para a sala, puxar as orelhas de Adelaide? No me conformava. Que mal lhes tinha feito Adelaide? Por que procediam daquele modo1? Por qu? [pg. 179]
     
     
Um enterro




NAQUELE dia feriamos. Encontrei  porta da escola os meninos em alvoroo, e algum nos guiou a uma casa distante, onde mulheres chorosas punham estrelinhas no manto que adornava um cadver pequeno, transformado em anjo. Findo esses retoques, o choro aumentou e quatro alunos seguraram as alas do caixo azul. Samos, andamos caminhos esburacados, lamacentos, subimos uma ladeira ngreme e, escorregando no barro vermelho, alcanamos paredes brancas, simples manchas vistas l debaixo, agora altas e largas, zebradas de verde. Atravessei o porto.
     Nunca havia entrado em cemitrios e habituara-me a rece-los, por causa dos espectros que me descreviam na cozinha.  noite essas narraes davam-me tremuras, arrepiavam-me os cabelos. A treva se enchia de mistrios, as labaredas fumacentas do fogo viviam, acompanhavam a dana das bruxas. Ali, porm, na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam. O bando de crianas ria, [pg. 180] espalhava-se" nas ruas estreitas, galgava montculos fofos, alinhados.
     Largou-se  beira de uma cova o caixo azul, o velho Simeo escondeu-o, tomou a p e cobriu-o de terra, fabricou uma espcie de canteiro. Ouvi as pancadas ocas, indiferente  cerimnia.
     Lembrava-me do que se dizia do coveiro, lento, de mos trmulas. Perdera a famlia, despojara-se de todos os interesses que o prendiam  vida e, quase na decrepitude, s estimava a companhia dos mortos. Calejara no ofcio. Como as pernas trpegas exigiam repouso, descia raro  cidade. Consumia o resto das foras  sombra dos tmulos, arrancando ervas nocivas, podando roseiras. E concluda a tarefa, sossegava em cima de uma catacumba e dormia. Quando o achassem teso, no seria preciso transport-lo em viagem difcil: deix-lo-iam entre as suas plantas. Essa figura engelhada me tranqilizava. Simeo vivia com defuntos  e nunca um deles o incomodara. Homem poderoso. Ou ento os defuntos eram bem fracos.
     Distanciei-me, fui examinar flores roxas de loua, cabeas de lagartixas nas rachaduras dos sepulcros. As narrativas noturnas  diabos com olhos de brasas, cachorros mastigando pedaos de carne podre  sumiam-se. E o medo tambm cessava, no trabalho de adivinhar nomes e datas que desbotavam nas lousas. O que eu sentia era nojo. Nojo das pedras, dos tijolos, dos garranchos, certamente impregnados de leo. Receava tocar em objetos sujos de gordura fnebre, indelvel. Farrapos sem cor, folhas secas, ptalas murchas, fragmentos vagos, juntos em lixo, nauseavam-me: apesar de lavados pelo inverno, queimados pelo vero, deviam conter pus ou tutano. [pg. 181]
     Arredei-me para um canto, onde o muro se abria. Era um ossurio. Vi esqueletos em desordem, arcarias de costelas emaranhando-se umas s outras, rosrios de vrtebras. No monte lgubre, uma caveira me espiava e parecia zombar de mim. Nunca me viera  idia semelhante horror. Um acervo de porcarias. Difcil imagin-las fraes de pessoas, misturadas, decompondo-se num monturo. O crnio avultava, para bem dizer adquiria feies, tinha vontade de falar. As minhas mos se umedeceram, a vista se turvou. Zangava-me por no conseguir afastar-me, correr na relva com os garotos, ver, de esprito leve, os pssaros, as roseiras do velho Simeo. Preso ao depsito sinistro, um n a apertar-me as goelas, senti desejo de chorar. Sentimento diverso do que me assaltava quando ouvia histrias de casas mal-assombradas. O desespero me paralisava. Asco, a sensao de me achar cado numa estrumeira, sem poder limpar-me, e a certeza de haver em qualquer parte irremedivel estrago. Aquilo era feio e triste. E a feira e a tristeza se animavam, arreganhavam dentes fortes e queriam morder-me. Engano: indiferena, imobilidade. A imobilidade e a indiferena me atraam. Tentei invocar as almas penadas, os diabos que se agitam nas chamas eternas. Essas criaturas me inspiravam piedade ou terror. Diante das carcaas nuas, era impossvel comover-me. Loucura supor que mangassem de mim.
     Longamente estive a contemplar as runas, ignoro como e quando me retirei. Decerto os colegas foram buscar-me. No me recordo.
     Entrei em casa mergulhado numa sombra espessa.  mesa, repeli a comida. Meus parentes no perceberam o fastio, deixaram-me s, os cotovelos [pg. 182]
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sobre a tbua, reparando nas laranjeiras da vizinhana. Anoiteceu, um negrume tingiu a folhagem, no trouxeram luz, os pequenos se recolheram. Deitei-me num banco, as juntas estalaram. A escurido cresceu. Fechei os olhos. Mexi os dedos, procurei as falanges, apalpei os braos, o tronco, o pescoo. Tateei o couro cabeludo, forcejando por descobrir l embaixo as suturas e as salincias. Toquei as maxilas e os zigomas. Contornei as rbitas, esfreguei as plpebras: o globo se deslocava devagar. Imundcie. As plpebras e o globo iam apodrecer, estavam apodrecendo. S o esqueleto resistiria. Ossos. Aquela misria segurava-se a mim, e no havia jeito de elimin-la. Uma caveira me acompanharia por toda a parte, estaria comigo na cama, nas horas de brinquedo, nos desalentos, curvar-se-ia sobre pginas enfadonhas e agentaria cocorotes. Ia encher-se de noes e de sonhos, esvaziar-se, descansar num ossurio, ao sol,  chuva, mostrar os dentes s crianas. Acabar-me-ia assim. No interrompia o exame das rbitas, e as cavidades horrveis se alargavam e aprofundavam, semelhantes aos dois buracos que me haviam observado no cemitrio. Os moleques pairavam na cozinha, certamente sentados no- pilo, aquecendo-se ao fogo, embebendo-se em maravilhas extraterrenas. Em momentos ordinrios teria ido entender-me com eles, afrontar duendes e gigantes ferozes. Ali deitado no banco, no me vinha a necessidade de comunicar-me, fortalecer-me na companhia dos negrinhos. Os duendes e os gigantes eram s palavras, os inimigos indeterminados que vivem na treva se dispersaram. Intentei recordar-me deles, assustar-me. Debalde. L fora cantavam grilos, o vento zumbia nos ramos das laranjeiras e na cerca de pau-a-pique, [pg. 185] vaga-lumes e baratas comeavam a manifestar-se, os moleques cochichavam. Apenas. E c dentro  um feixe de ossos. Apenas. A carne se eriava, o sangue badalava na artria. Isso tudo seria gasto pelos vermes. A imagem horrorosa se obstinava. As imagens tambm seriam gastas pelos vermes. Ento para que me fatigar, rezar, ir  loja e  escola, receber castigos da mestra, escaldar os miolos na soma e na diminuio? Para que, se os miolos iam derreter-se, abandonar a caixa intil1? O que mais me impressionava eram as rbitas: a pesquisa minuciosa prosseguia e achava-as desertas. Ocas e sombrias, como as outras. E o resto1? No havia resto. Ali no havia nada. Aqui no haveria nada. O velho Simeo habituara-se a dormir  luz dos fogos-ftuos, que j no eram amantes falecidos em incesto, perseguindo-se, repelindo-se, entre as sepulturas. Libertara-se de crenas, fugira ao sobrenatural. E resignava-se. Eu no podia resignar-me. As almas do outro mundo e os lobisomens adquiriam muito valor, faziam-me falta.
     Estas letras me pareceriam naquele tempo confusas e pedantes. Mas o artifcio da composio no exclui a substncia do fato. Esforcei-me por destrinar as coisas inominveis existentes no meu esprito infantil, numa balbrdia.  por terem sido inominveis que agora se apresentam duvidosas. Afinal no me surgiam dificuldades. Haviam-me exposto vrias lendas. Vencida a resistncia inicial, pusera-me a confirm-las. Negava-as de repente em globo, sem anlises. No me embaraava em dvidas. Tinha dito sim; entrava a dizer no: uma caveira motivava o desmoronamento.
     No pretendo insinuar, porm, que me haja encerrado no atesmo, diferenando-me dos meninos [pg. 186] vulgares. Nem sequer pensei em Deus. O que me inquietava eram as almas. E a minha no morreu de todo. Aquele enorme desengano passou. Os fantasmas voltaram, abrandaram-me a solido. Sumiram-se pouco a pouco e foram substitudos por outros fantasmas. [pg. 187]
     
Um novo professor




TIRARAM-ME da escola da mestia, puseram-me na de um mestio, no porque esta se avantajasse quela, mas porque minha famlia se mudou para a Rua da Matriz, e D. Maria do O, no Juazeiro, ficava longe, graas a Deus. O novo mestre funcionava no Largo do Comrcio, numa casa de jardim com duas ou trs palmeiras.
     Um irmo dele, claro e simptico, certo dia me apareceu zangado no armazm de Seu Costa, sentou-se num fardo de algodo, abriu um jornal, fechou-o, encarou-me e rugiu:
      Tenho o meu lugar definido na sociedade.
     No o contrariei. Admirava-lhe a caligrafia, os discursos na Loja Manica e a linguagem nas conversas. Desejaria falar to facilmente, rir como ele. Mas naquela hora o homem no queria falar nem rir. Bbedo, espumava, recordando alguma ofensa:
      Tenho o meu lugar definido. [pg. 188]
     Provavelmente algum o molestara, algum que no recebera a resposta adequada e ali, na perturbao da embriaguez, se confundia comigo.
      Sem dvida.
     O sujeito desdenhou a confirmao: bateu na coxa e martelou, reimoso, disposto a luta, babando-se:
      Tenho o meu lugar definido.
     Mas isso foi muito depois de eu entrar na escola do irmo. Este no tinha lugar definido na sociedade. Para bem dizer, no tinha lugar definido na espcie humana: era um tipo mesquinho, de voz fina, modos ambguos, e passava os dias alisando o pixaim com uma escova de cabelos duros. Azeite e banha no domavam a carapinha  e o dono teimava, esfregava-a constantemente, mirando-se num espelho, namorando-se, mordendo a ponta da lngua. Era feio, quase negro  e a feira e o pretume o afligiam. Porque tinha senso de beleza, mas procurava-a loucamente no seu corpo mofino. Friccionava-se, empoava-se, arrebicava-se, examinava-se no vidro, entortando os bugalhos estriados de vermelho.
     Eu permanecia nas histrias enigmticas do Baro de Macabas. Soletrava mentalmente, sabendo que no conseguiria dizer alto as frases arranjadas no interior. E cabeceava na ardsia, sobre os algarismos de somas e diminuies lentas. Mas a ateno se desviava dali, buscava a janela, que me exibia cabeas de transeuntes, muros, telhados, as palmeiras grvidas abanando-se. Inquietava-me o espelho, onde se refletia a pacholice do mulato. Bom que o p-de-arroz se fixasse na pele azinhavrada, o leo assentasse no crnio mido os plos rebeldes. [pg. 189]
     Quando isso acontecia, o professor deixava a sala, ia apresentar-se s irms, saracoteando-se, lanando guinchinhos de quem sente ccegas. Voltava iluminado, um sorriso infantil boiando-lhe nos beios grossos. Abancava, observava os dedos, as unhas enfeitadas de manchas brancas, metia-se num sonho dengoso. Estremecia, despertava, olhava as quatro paredes, soltava um largo suspiro. Em seguida, ronceiro, como se levantasse grande peso, tomava as nossas escritas, corria por elas a vista baa e distante, julgava-as atirando-lhes nmeros convencionais. Com um gesto lnguido, chamava-nos  lio, que decorria sonolenta e morna.
     Aproveitava-me desses instantes para saltar linhas, engolir perodos, subtrair pginas inteiras. No comeo aventurava-me receoso a tais contravenes, jogando ao pardavasco olhadelas tmidas e culposas. Vendo-o tranqilo, escorregava de novo na prosa desenxabida, animava-me a outro pulo, fantasiava em sossego um livro diferente, sem explicaes confusas, sem lengalengas cheias de moral. Uma interjeio me puxava  realidade, esfriava-me o sangue; a falta se revelava, erguia-me o rosto alarmado. Nenhum castigo. O professor andava no mundo da lua, as plpebras meio cerradas, mexendo-se devagar na cadeira, como sonmbulo. No se espantara, no se indignara: a exclamao traduzia algum sentimento nebuloso, estranho  leitura. Findo o susto, considerava-me isolado, continuava nas infraes sem nenhuma vergonha.
     s vezes, porm, o espelho nos anunciava borrasca. O desgraado no se achava liso e alvacento, azedava-se, repentina aspereza substitua a doura comum. Arriava na cadeira, agitava-se, parecia mordido de pulgas. Tudo lhe cheirava mal. Segurava [pg. 190] a palmatria como se quisesse derrubar com ela o mundo. E ns, meia dzia de alunos, tremamos da clera macia, tentvamos esconder-nos uns por detrs dos outros. Daramos os nossos cabelos, trocaramos as nossas figuras por aquela misria que se acabrunhava junto  mesa. Por que se aperreava tanto? Insignificncias. Eu dizia comigo que o professor, como o irmo, poderia recitar discursos brilhantes e crescer. Tornar-se um homem.
     O infeliz no pretendia ser homem. E ali estava, sucumbido, enxofrado, ressumando peonha. Os olhos ensangentavam-se, os dentes rangiam. E consertava-nos furiosamente a pronncia, obediente a vrgulas e pontos, forava-nos a repetir uma frase dez vezes, punha notas baixas nas escritas, rasgando o papel, farejava as contas at que o erro surgia e se publicava com estridncia arrepiada. Nesse policiamento sbito acuvamos  e as folhas virgens endureciam.
     Desalentava-me no banco, os miolos a arder, zonzo. Quando se acabaria aquele horrvel estrupcio? Evidentemente no se acabaria: precisava habituar-me a ele, gostar da insipidez. Voltava  obrigao, reduzida por bocejos e cochilos.
     Felizmente a exigncia durava pouco. O sujeito melindroso enxergava no vidro uma cara atraente, alvoroava-se, deixava-me em paz. As complicaes do livro adelgaavam, perdiam-se, enquanto o meu esprito vagaroso andava longe, pezunhando nos atoleiros que se espalhavam na cidade. Ia  estao da estrada de ferro, apreciava locomotivas, fumaa, apitos, vages, passageiros e carregadores, trilhos, dormentes, rapaduras de carvo; detinha-se no mercado, que aos sbados se povoava de matutos ruidosos; visitava lojas, armazns, a [pg. 191] agncia do correio; subia e descia ladeiras, passeava nos montes verdes, nas margens do rio largo e pedregoso. Assim divagando, sapequei o resto das histrias espessas, surdo aos conselhos que havia nelas. Nem me inteirava da existncia dos conselhos.
     Despedi-me enfim do Baro de Macabas, larguei a cartonagem, respirei. Mas a satisfao foi rpida: meteram-me noutra escola ruim e adquiri uma seleta clssica. [pg. 192]
     

Um intervalo




SEU Nuno quis transformar-me em ajudante de missa, e isto me atraiu, deixei-me sugestionar, embora ignorando que esforos a novidade exigiria de mim. De fato o catecismo no me inspirava simpatia, mas a aritmtica e a seleta clssica eram piores  e imaginei, com a preferncia, libertar-me delas.  possvel que muitas vocaes comecem desse jeito.
     Meu pai confiou-me a Seu Nuno, proprietrio, dono de loja de fazendas e padaria, senhor de longas barbas respeitveis, devoto, de uma devoo alegre e ruidosa, que manifestava tocando violino em festas. Possua tambm a prenda de cortar vidro com diamante e alicate, economizando os retalhos, que utilizava cobrindo santinhos espichados em molduras de espelhos. Ofereceu-me vrias dessas preciosidades; mandei-as benzer e com elas enfeitei uma parede do meu quarto.
     Assim me edifiquei, a princpio moderadamente, depois excessivo e entusiasmado. Afeioei-me [pg. 193] aos toques de sino, ao cheiro de incenso, decorei as frases do ritual, e, de casa para a loja, da loja para casa, ao passar diante da igreja, tirava o chapu, rezava um padre-nosso e uma ave-maria.
     Nesse tempo a minha grande ambio foi dedicar-me inteiramente ao servio de Deus e entrar no seminrio. No entrei, mas andei perto. Guardadas na memria as palavras exticas, recebi o favor que, em oraes,  noite, ajoelhado no tijolo, pedi ao cu: uma batina de casimira e um roquete de linho com renda larga. Enverguei esses trajes, orgulhoso, e, branco da barriga para cima, o resto negro, compareci um domingo na sacristia, disposto a colaborar no santo sacrifcio. Imitei os gestos do meu companheiro, um formigo abalizado, mas desempenhei-me de maneira triste. Certamente era comoo da estria, afirmou Seu Nuno. E encheu-me de recomendaes, ensinou-me com pachorra os movimentos necessrios ao ato.
     No era comoo, era incapacidade. A segunda experincia foi igual  primeira: arriei num degrau do altar, engrolei desatento a minha parte, baralhando as respostas, calando-me. E assim continuei. Adiantava-me, atrasava-me, escorregava no tapete, confundia a epstola com o evangelho, no segurava direito o missal, nos momentos mais srios distraa-me olhando os vitrais. No manejo das galhetas fui to inbil que retrogradei. Cassaram-me funes, nem o turbulo me deixaram, porque no consegui alongar ou encurtar as correntes, e nas minhas mos o objeto, em vez de lanar fumaa, lanava cinza. Afinal tudo se transferiu para o outro aclito, e resignei-me a calejar os joelhos, equilibrando-me ora na rtula direita, ora na esquerda, indiferente  cerimnia, resmungando slabas [pg. 194] insensatas, esquecendo-me de esmurrar o peito e concentrar-me na elevao.
     No comeo Padre Loureiro tentou corrigir-me. Desanimou e impacientou-se: eu queria auxili-lo quando se desparamentava  e ele franzia o nariz, fungava, espiava-me por cima dos culos, balanava a cabea, dispensava-me, reclamava a percia do Moreira sacristo. E a minha f pouco a pouco arrefeceu: a liturgia encrencada afastou da igreja um ministro.
     Findara o tempo dos eclesisticos soltos, numerosos no sculo passado. Entravam no rigor. Padre Joo Incio e Padre Loureiro viviam com feias e honestas parentas idosas. Em conseqncia, esmorecimento, deseres. Fazendeiros, senhores de engenho e negociantes metiam os filhos em colgios leigos, formavam-nos em academias liberais. Ou largavam-nos na bagaceira, se a rudeza era grande, prendiam-nos ao balco.
     Pois, com tanta falta de pessoal, os meus bons desejos foram desprezados. Espacei e abreviei as penitncias; as flores que me ornavam as imagens pequenas desbotaram, murcharam e caram. Um dia, no quintal, descobri uma de minhas irms vestida na batina, mascarada, fazendo carnaval. Indignei-me, depois encolhi os ombros, insensvel  profanao. A batina envelhecia, desfiava-se nos bolsos e nas extremidades, cobria-se de ndoas. Esfarrapou-se nos brinquedos  e esquecia-a.
     Impressionaram-me nessa poca, alm de missas, confisses, batizados e casrios, as visitas a Seu Nuno, durante a aprendizagem. Familiarizei-me: findo o acanhamento, entrava sem pedir licena, como se a casa fosse minha. Gente agradvel: a velha mida, as moas risonhas e tranqilas, que [pg. 195] se moviam como peas de mquina vagarosa, o rapaz ordenado de fresco.
     Padre Pimental era uma santa criatura e insinuou-me alguns conhecimentos, os primeiros que aceitei com prazer. Narrou-me a viagem de Abrao, a vida nas tendas, a chegada  Palestina. Usava linguagem simples, comparaes que atualizavam os acontecimentos. No hesitei, ouvindo a mudana de homens e gado, com certeza tangidos pela seca, em situar a Caldia no interior de Pernambuco. E Cana, terra de leite e mel, aproximava-se dos engenhos e da cana-de-acar. Mantive essa localizao arbitrria, til  verossimilhana do enredo, espalhei seixos, mandacarus e xiquexiques no deserto srio, e isto no desapareceu inteiramente quando os mapas vieram.
     Padre Pimentel admitia dvidas e aclarava os pontos obscuros. Realmente no explicou direito o holocausto goro de Isaac e disfarou, para evitar-me transtorno, o procedimento das filhas de Lot, mas os outros casos se desenrolaram fceis e naturais. Jacob brigou com Esa por causa de herana, coisa vulgar entre pessoas ricas, fugiu, foi protegido e enganado por um tio, tomou-lhe um rebanho e casou com duas mulheres. Uma delas tinha olhos de sapiranga. A poligamia, o furto e as safadezas no me espantavam. Onze malvados se desembaraaram de um irmo.
     At a, tudo razovel. Em seguida enxerguei na histria certo exagero. Moiss era um grande chefe, mas teria vencido os egpcios, atravessado o mar a p enxuto, recebido alimento do cu, tirado gua das pedras, visto Deus? Pedi confirmao. Havia prova de que o Judeu realizara tantos milagres? [pg. 196] Padre Pimentel no se enfadava. Claro que tinha realizado.
     Ia refugiar-me, zonzo, na companhia das moas. Conversavam demais. Discutiam, graves, um corte de vestido, parando em cada prega, analisando fitas e botes, discordavam, criticavam-se, enfim se combinavam. O que me surpreendia nelas era a ausncia de pressa. Uma estava noiva, quase noiva. Adiava-se a resoluo  e na sala de jantar havia sobre o assunto vivas cavaqueiras, em que todas pareciam ter igual interesse. Somavam as convenincias, as inconvenincias, e isto s vezes favorecia o pretendente, outras vezes o desfavorecia. Enquanto buscavam deciso, iam preparando o enxoval. Fora dada uma anuncia tcita, mas os debates prosseguiam, com o arranjo das fronhas e dos lenis. Mediam tudo, pesavam tudo, para no surgirem decepes.
     Essas moas tinham o vezo de afirmar o contrrio do que desejavam. Notei a singularidade quando principiaram a elogiar o meu palet cor de macaco. Examinavam-no srias, achavam o pano e os aviamentos de qualidade superior, o feitio admirvel. Envaideci-me: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram, trouxeram-me desconfiana. Percebi afinal que elas zombavam, e no me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara. Em geral me diziam com franqueza que a roupa no me assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidentes, e eu considerava estupidez virem indic-los. Dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malcia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatveis assombrava-me [pg. 197]  e pela primeira vez ri de mim mesmo. A doura picante no me reformava,  claro, mas exibia-me como eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate me houvessem dado os recursos indispensveis. Satisfazia-me a idia de que a minha figura no provocava inevitavelmente irritao ou desdm, e as novas amigas surgiram-me compreensivas e caridosas.
     Guardei a lio, conservei longos anos esse palet. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das minhas aes cor de macaco. Pacincia, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele  realmente: chinfrim e cor de macaco.[pg. 198]


Os astrnomos




Aos nove anos, eu era quase analfabeto. E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construdo de maneira diversa. Esses garotos, felizes, para mim eram perfeitos: andavam limpos, riam alto, freqentavam escola decente e possuam mquinas que rodavam na calada como trens. Eu vestia roupas ordinrias, usava tamancos, enlameava-me no quintal, engenhando bonecos de barro, falava pouco.
     Na minha escola de ponta de rua, alguns desgraadinhos cochilavam em bancos estreitos e sem encosto, que s vezes se raspavam e lavavam. Nesses dias ns nos sentvamos na madeira molhada. A professora tinha me e filha. A me, caduca, fazia renda, batendo os bilros, com a almofada entre as pernas. A filha, mulata sarar enjoada e enxerida, nos ensinava as lies, mas ensinava de tal forma que percebemos nela tanta ignorncia como em ns. Perto da mesa havia uma esteira, [pg. 199] onde as mulheres se agachavam, cortavam panos e cosiam.
     D. Agnelina rezingava com a filha por questes de namoro e, em caso de necessidade, administrava-lhe corretivos. Uma vez discutiram a respeito da palavra aurola, que surgiu na minha seleta. A moa acertou, mas D. Agnelina, debruando um vestido, julgou aurola equivalente a debrum, estirou o beio e, depois de hesitar, misturando baixinho aurola com ourela recomendou-me que, para evitar dvidas, dissesse aurela.
     O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: cinco horas de suplcio, uma crucificao. Certo dia vi moscas na cara de um, roendo o canto do olho, entrando no olho. E o olho sem se mexer, como se o menino estivesse morto. No h priso pior que uma escola primria do interior. A imobilidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos e as aurolas, no deixei que as moscas me comessem. Assim, aos nove anos ainda no sabia ler.
     Ora, uma noite, depois do caf, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama. Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido o caf, beijava-lhe a mo, porque isto era praxe, mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no quarto, peguei com repugnncia o antiptico objeto e voltei  sala de jantar. A recebi ordem para me sentar e abrir o volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperana de que uma visita me interrompesse. Ningum nos visitou naquela noite extraordinria.
     Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente [pg. 200]  pontuao, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da pgina, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.
     Com certeza o negociante recebera alguma dvida perdida: no meio do captulo ps-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma histria, um romance, exigiu ateno e resumiu a parte j lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam  cabana de um lenhador. Era ou no era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expresses literrias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difcil conhecer tudo.
     Alinhavei o resto do captulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me s vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptvel surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu esprito.
     Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio  escola, aos brinquedos de minhas irms,  tagarelice dos moleques, vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.
      noite meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da vspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicaes.
     Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso. [pg. 201]
     E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo. Nunca experimentei decepo to grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontr-la, no imaginou a minha desgraa. A princpio foi desespero, sensao de perda e runa, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e no podiam durar.
     Findas, porm, as manifestaes secretas de mgoa, refleti, achei que o mal tinha remdio e expliquei o negcio a Emlia, minha excelente prima. O rosto sereno, largos olhos pretos, um ar de seriedade  linda moa. A irm, brincalhona e rabugenta, ora pelos ps, ora pela cabea, ria como doida e logo explodia em acessos de clera. Mas Emlia no era deste mundo. S se zangou comigo uma vez, no dia em que, tuberculosa, me viu beber gua no copo dela. Um anjo.
     Confessei, pois, a Emlia o meu desgosto e propus-lhe que me dirigisse a leitura. Esforcei-me por interess-la contando-lhe a escurido na mata, os lobos, os meninos apavorados, a conversa em casa do lenhador, o aparecimento de uma sujeita que se chamava gueda.
     Passado algum tempo, essa gueda me serviu muito. Eusbio doido pegou o volume na loja, entrou a declam-lo e, topando o nome da personagem, pronunciou Aguda. Isto me deu satisfao: apesar de maduro, Eusbio doido era mais atrasado que eu.
     Quando falei a Emlia, porm, ignorava que houvesse pessoas to rudes quanto Eusbio e admitia [pg. 202] facilmente as aurelas da professora. Em conformidade com a opinio de minha me, considerava-me uma besta. Assim, era necessrio que a priminha lesse comigo o romance e me auxiliasse na decifrao dele.
     Emlia respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que no me arriscava a tentar a leitura sozinho?
     Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difceis, sobretudo na ordem terrvel em que se juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era bruto em demasia, todos me achavam bruto em demasia.
     Emlia combateu a minha convico, falou-me dos astrnomos, indivduos que liam no cu, percebiam tudo quanto h no cu. No no cu onde moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ningum tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrnomos conheciam perfeitamente. Ora, se eles enxergavam coisas to distantes, porque no conseguiria eu adivinhar a pgina aberta diante dos meus olhos? No distinguia as letras? No sabia reuni-las e formar palavras?
     Matutei na lembrana de Emlia. Eu, os astrnomos, que doidice! Ler as coisas do cu, quem havia de supor?
     E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas j percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente [pg. 203] me penetravam a inteligncia espessa. Vagarosamente.
     Os astrnomos eram formidveis. Eu, pobre de mim, no desvendaria os segredos do cu. Preso  terra, sensibilizar-me-ia com histrias tristes, em que h homens perseguidos, mulheres e crianas abandonadas, escurido e animais ferozes. [pg. 204]
     

Samuel Smiles




EU tinha visto esse nome vrias vezes na seleta, mas, como no sabia pronunci-lo, acostumei-me a tossir no fim das lies em que ele aparecia subscrevendo medonhas trapalhadas. Deviam ser regras importantes, imaginei, regras teis se me entrassem na cabea; mas naquele tempo no adivinhei o que Samuel Smiles exigia de mim. Aborrecendo-o, respeitei-o demais, por no perceber o que ele dizia e at por ignorar como se chamava.
     Esse caso rendeu-me decepes e algum proveito. Cantarolei bocejando os nebulosos conselhos. A professora me corrigia. Quando, porm, eu engrolava, tossindo, o nome do autor, faltava a emenda  e em conseqncia presumi que, pelo menos nesse ponto, a rudeza da mulher coincidia com a minha. Certifiquei-me disso deixando de tossir e pronunciando Smiles de vrias maneiras, sem que D. Agnelina me repreendesse. [pg. 205]
     Afinal percebi nela um procedimento esquisito: antes que eu largasse barbaramente a extraordinria palavra, fechava o livro e desconversava. Nasceu da uma espcie de cumplicidade, que a tornou razovel durante meses. Em aritmtica eu era um selvagem, pouco mais ou menos um selvagem, mas fui tolerado, e creio que devo isto a Samuel Smiles.
     Essa professora atrasada possua raro talento para narrar histrias de Trancoso. Visitava-nos, prendia-nos at meia-noite com lendas e romances, que estirava e coloria admiravelmente. Nada me ensinou, mas transmitiu-me afeio s mentiras impressas.
     Talvez a prenda notvel de D. Agnelina tenha induzido meu pai a afastar-me do mau caminho, confiar-me ao Professor Rijo, aposentado, rbula distinto. ramos apenas dois alunos, eu e meu primo Jos, um pouco mais bruto que eu. Na ausncia do mestre, bocejvamos, olhvamos as andorinhas no cu, as lagartixas brancas na parede e os lombos temerosos dos livros nas estantes. O homem aparecia de salto, tomava as nossas lies rapidamente, encoivarava algumas perguntas e dava logo as respostas, sem esperar que acertssemos ou errssemos.
     A me caiu a leitura de uma das maadas de Samuel Smailes. Tossi e resmunguei a segunda palavra enchendo a boca de lngua. O professor interrompeu-me, separando as slabas com bastante clareza: Samuel Smailes. Arregalei o olho, o sujeito repetiu: Smailes. Balbuciei o nome encrencado sem nenhuma segurana. Imaginei um engano: tinha por erro o que divergia da minha maneira habitual de falar. Realmente pronunciara Smiles [pg. 206] de vrios modos, mas supunha que alguns deles estivesse direito. Julguei o professor uma besta  e meu primo Jos concordou.
     Finda, porm, essa manifestao de rebeldia, chegaram-me dvidas, grande espanto em seguida, por fim mistura vaga de resistncia e admirao quele homem que alterava as letras. A firmeza sria me deu a suspeita de que me achava na presena de uma autoridade. E como no me seria possvel discernir razes profundas, contentei-me com as aparncias  e a suspeita se transformou em convico.
     Eu afirmava com facilidade. Lera um romance e conseguira entend-lo. Entendera pedaos, que o meu vocabulrio era insignificante. Pois julguei-o, seguro, o maior romance do mundo. Depois a certeza se abalou, assaltaram-me vacilaes dolorosas.
     O professor no podia comparar-se aos viventes comuns. Grave, o dedo na pgina, articulara: Smailes. Nas lies seguintes percebi que ele no se contradizia. Comecei ento a admir-lo. Procurei outras palavras em que o i se pronunciasse daquele jeito. Inutilmente. Apesar de tudo Smiles era Smailes, e ningum me tirava da.
     Ora, um dia, na loja, achava-me remoendo um jornal em voz alta, s para me familiarizar com a literatura, sem notar que me escutavam. De repente o meu conhecido avultou no papel. Temperei a goela e exclamei: Samuel Smailes. Um dos caixeiros censurou-me a ignorncia e corrigiu: Samuel Smiles. Outro caixeiro hesitou entre Smiles e Simles. Repeti que era Smailes, e isto produziu hilaridade.
     O moo que dizia Simles costumava zombar de mim com barulho. Qualquer dito meu o excitava: [pg. 207] mordia os beios, avermelhava-se como um peru, lacrimejava, enfim no se continha, caa num riso convulso, rolava sobre o balco, meio sufocado. Certamente eu era ridculo: alguma tolice provocara a manifestao ruidosa. Que tolice? No a enxergava. Inteligncia curta.
     O empregado que dizia Simles, mulato vaidoso e seco, nunca me olhava de frente. Quando eu lhe falava, virava-se para outro lado e rosnava ofensas em linguagem escolhida.
     Entre os indivduos que freqentavam a loja, havia um particularmente desagradvel: Fernando. Esse monstro sentia prazer em martirizar-me. Grosseiro demais, insultava-me sem preciso.
     Eu tinha o juzo fraco e em vo tentava emendar-me: provocava risos, muxoxos, palavres. Encolhia-me, esfriava, a vista escurecia. Calava-me na presena desses entes ruins, escapulia-me como um rato, mas no conseguia livrar-me. Sentava-me num canto, em silncio, folheando o dicionrio para interpretar o romance de capa e espada, e eles se chegavam, pouco a pouco tomavam conta de mim, quase sempre referindo-se a vagos disparates meus.
     Algumas vezes busquei desembaraar-me reproduzindo molemente, com as orelhas pegando fogo, os insultos de Fernando. Sempre me dei mal: as risadas cresciam, os muxoxos engrossavam, Fernando se tornava mais feroz. Intil reagir.
     Naquele dia, porm, quando o mulato me replicou duramente, jurei que ele estava errado. O tipo branco foi-se avermelhando, acabou explodindo na risada ordinria. Asseverei de novo que Samuel era Smailes, perfeitamente Smailes, mas falei bambo, muito infeliz e com vontade de chorar. O [pg. 208] rapaz continuava a rir, o mulato resmungava e franzia as ventas, Fernando me injuriava.
     Diante disso, invoquei a autoridade do professor, que devia conhecer bem Samuel Smiles. O professor dizia Smailes. Mentira, gritou Fernando  injustia, pois eu no sabia mentir.
     Cobriram-me de motejos e resolveram adotar a opinio do mulato: Samuel Smiles. Arriei, vencido.
     Mas sosseguei. Aquela vaia no me alcanava: feria uma pessoa sabida. Achei apoio, indaguei se as bobagens que a trinca maliciosa me atribua eram bobagens. Cresci um pouco, esteado no homem que s me ensinou o nome de Samuel Smiles, e ensinou muito. Sentado num caixo, o dicionrio nas pernas, ri-me dos trs. Idiotas.
     Eu era meio parvo, todos se impacientavam com a minha falta de esprito. Rude, sem dvida. Vocabulrio mesquinho, entendimento escasso.
     Mas Samuel Smiles impunha-se facilmente. Era Smailes porque a voz do professor me chegava clara, porque a unha amarela do professor riscava a pgina com energia. Samuel Smailes, pois no.
     E as pilhrias dos sujeitos resvalaram por mim sem fazer mossa. O corao aliviou. Isolei-me, o rosto metido no dicionrio. Imbecis. Tinham decidido por maioria que Samuel era Smiles.
     Pus-me a ler baixo, inteiramente desanuviado. Imbecis. Samuel Smailes, com certeza. E enrosquei-me, embrenhei-me no dicionrio, eximi-me da influncia dos trs malvados.
     Samuel Smiles, escritor cacete, prestou-me servio imenso. [pg. 209]
     
     
O menino da mata e o seu co Piloto




DESCOBRI um folheto de capa amarela e papel ordinrio, cheio de letras midas, as linhas juntas, to juntas que para um olho inexperiente os saltos e as repeties eram inevitveis. Creio que isso me apareceu depois do meu acesso de religio. Deve ter sido por a. Os santos que se penduravam nas paredes do meu quarto cresciam demais. Diminuram e foram substitudos pelos seres que povoavam as histrias volumosas.
     Hoje tudo se embaralha, uma confuso. Talvez a necessidade de mistrio e grandeza me tenha levado a acreditar nos santos e nos heris, que se desenvolveram simultaneamente. Houve, porm, um desequilbrio: os primeiros subiram muito, enquanto os segundos desciam; em seguida os que estavam embaixo comearam a levantar-se, alcanaram os outros e ganharam a dianteira. Essas coisas, lentas, quase insensveis, passaram-se num esprito nebuloso. Para bem dizer, no havia tempo. Na sombra avultavam figuras luminosas. Mas entre [pg. 210] elas ficavam espaos vazios, que novas imagens vieram preencher.
     Por que brigaram no meu interior esses entes de sonho no sei. Julgo que foi por causa de uma proibio, terrvel proibio, relativa  brochura de capa amarela. Algum a deixou na loja. Folheei-a devagar, soletrando, consultando o dicionrio, sentado num caixo de velas. Os livros do estabelecimento eram o razo, o dirio, o caixa, outros que Jos Batista manejava. Entre as mercadorias, porm, existia meia dzia de dicionrios. Examinei com algum proveito esses gneros, que no achavam comprador. Tinham as bandeiras de todos os pases (a comecei a minha geografia) e retratos de figures (origem da pouca histria que sei). Meu pai me permitiu as consultas, pois a encadernao vermelha, as bandeiras e os retratos no representavam nenhum valor: era at bom que se estragassem, poupassem ao comerciante a lembrana de um mau negcio. Mercadorias. A mim revelaram pedaos do folheto amarelo, que se chamava O Menino da Mata e o seu Co Piloto.
     Arranjava-me lentamente, procurando as definies de quase todas as palavras, como quem decifra uma lngua desconhecida. O trabalho era penoso, mas a histria me prendia, talvez por tratar de uma criana abandonada. Sempre tive inclinao para as crianas abandonadas. No princpio do romance longo achei garotos perdidos numa floresta, ouvindo gritos de lobos. As narrativas de D. Agnelina referiam-se a pequenos maltratados que se livravam de embaraos, s vezes venciam gigantes e bruxas.
     Em casa mostrei o achado a Emlia, descrevi o menino, a mata e o cachorro. Nenhum sinal de [pg. 211] aprovao. Emlia arregalou os olhos, atentou horrorizada no folheto, pegou-o com as pontas dos dedos, soltou-o, como se ele estivesse sujo, aconselhou-me a no o ler. Aquilo era pecado. Aventurei-me a discutir. Minha prima se enganava: no conto havia um menino e um cachorro excelentes. Recuou, muito plida, receosa de se contaminar, e virou o rosto. Pecado.
      Pecado por que, Emlia?
     Porque o livro era excomungado, escrito por um sujeito ruim, protestante, para enganar os tolos. Objetei que o menino e o cachorro procediam como cristos. Respondeu que o perigo estava a: quando o diabo queria tentar as pessoas, simulava boa aparncia, escondia os ps de pato e dava conselhos razoveis. Depois mostrava as unhas e o rabo, cheirava a enxofre, levava a gente para o inferno. Ignorante e novo, eu no sabia o que era certo ou errado, mas se o livro tinha procedncia m, boa coisa no podia ser. Afirmei que ele no tinha m procedncia; Emlia espiou de longe as letras da capa, discordou, afastou-se cheia de repugnncia.
     Lembrei-me das pitombas que vi na Sexta-Feira da Paixo, em cima do guarda-comidas. Algum me convencera de que eu devia jejuar. Sacrifcio pequeno, pois ao meio-dia e  noite comamos em excesso. Nos intervalos, porm, abstinncia rigorosa  e a me apareceram as pitombas e a tentao. Rondei o guarda-comidas, retirei-me, voltei, hesitei, a minha crena moderada sucumbiu.
     Agora estava mais forte, mas a necessidade de conhecer o menino da mata e o seu co Piloto no se comparava ao desejo mediano que me haviam inspirado as pitombas na Sexta-Feira da Paixo. Veio-me [pg. 212] a idia de me rebelar contra Emlia. O folheto no era obra de protestantes nem sugesto do diabo.
     Entristeci, esmagado por aquele dever. E arrependi-me de ter falado a minha prima. Se no tivesse batido com a lngua nos dentes, leria sem culpa O Menino da Mata e o seu Co Piloto.
     Encontrei depois muitas intolerncias, mas essa foi para mim extremamente dolorosa.
     Regressei  loja, sem me resolver a jogar fora o folheto condenado. Ao passar diante da igreja, tirei o chapu, rezei um padre-nosso e uma ave-maria. Tinha-me habituado a esse exerccio, mas agora rezava desesperadamente, com remorso por trazer debaixo do palet, colado ao corpo, um objeto impuro. No me resignava a perd-lo, discutia sozinho, diligenciando convencer-me de que Emlia divagara  toa.
     Na loja, fui sentar-me no caixo de velas. As idias de revolta sumiram-se completamente. Se o meu inimigo Fernando chegasse naquele momento, eu nem daria pela presena dele, to enleado me achava.
     Era como se me fechassem uma porta, porta nica, e me deixassem na rua,  chuva, desgraado, sem rumo. Proibiam-me rir, falar alto, brincar com os vizinhos, ter opinies. Eu vivia numa grande cadeia. No, vivia numa cadeia pequena, como papagaio amarrado na gaiola.
     Enxergara a libertao adivinhando a prosa difcil do romance. O pensamento se enganchava trpego no enredo: as personagens se moviam lentas e vagas, pouco a pouco se destacavam, no se distinguiam dos seres reais. E faziam-me esquecer o cdigo medonho que me atenazava. De repente [pg. 213] as interdies alcanavam o mundo misterioso onde me havia escondido. Impossvel mexer-me, papagaio triste e mudo, na gaiola. Quando principiava a imaginar espaos estirados, a lei vedava-me o sonho.
     Chorei, o folheto cado, intil. O menino da mata e o co Piloto morriam. E nada para substitu-los. Imenso desgosto, solido imensa. Infeliz o menino da mata, eu infeliz, infelizes todos os meninos perseguidos, sujeitos aos cocorotes, aos bichos que ladram  noite.
     Os caixeiros, ouvindo-me, resmungariam ou soltariam gargalhadas; Fernando me insultaria; minha me me trataria com indiferena ou aspe-reza. E eu ficaria s no mundo. Um pecado a apertar-me como prensa. Eu era um pouco de algodo comprimido na prensa.
     Antes disso estava quase em sossego, livre dos caixeiros e de Fernando, livre de minha me, pensando nas crianas que vencem gigantes e bruxas, vencem o medo na floresta. Mas a clareira se fechara, a sombra me envolvera, uma tampa descera do cu  e achava-me de novo sem defesa. O volume de capa amarela cado no cho. Desejei apanh-lo. Havia os protestantes, havia o diabo  e esses entes remotos e confusos encheram-me de pavor. Perigos tremendos, horrveis perigos indecisos rolaram por cima da minha cabea.
     Ai de mim, ai das crianas abandonadas na escurido. Chorei muito. E no me atrevi a ler O Menino da Mata e o seu Co Piloto. [pg. 214]
     

Fernando




 uma das recordaes mais desagradveis que me ficaram: sujeito magro, de olho duro, aspecto tenebroso. No me lembro de o ter visto sorrir. A voz spera, modos sacudidos, ranzinza, impertinente, Fernando era assim. E junto a isso qualquer coisa de frio, mido, viscoso, que me dava a absurda impresso de uma lesma vertebrada e muito rpida.
     Se se dirigia a mim, largava alguma frase contundente. s vezes, atentando na significao dela, eu no achava motivo para me ofender, mas o jeito como ele se expressava, a sobrancelha carregada, o ar de suficincia e impostura, o riso brusco, um erguer de ombros, um balanar de cabea, tudo me produzia mal-estar. Era como se ele me quisesse cortar com lminas de gelatina.
     Cresci ouvindo as piores referncias a Fernando. Se fosse to mau como afirmavam, no existia patife igual. Era parente do chefe poltico, e um chefe poltico da roa naquele tempo mandava mais [pg. 215] que um soba, dispunha das pessoas e manipulava as autoridades, bonecos miserveis. Vivamos num grande cercado de engenho, e s tinha sossego quem adulava o senhor. Os jornais da capital noticiavam horrores, mas ningum se atrevia a assinar uma denncia. Qualquer indiscrio podia originar incndios, bordoadas, prises ou mortes.
     Presumo que, enquanto morei ali, o jri no funcionou. Contudo chegavam defuntos  cidade quase diariamente. Em geral vinham em redes cobertas de pano vermelho. Mas quando eram muitos, arrumavam-se em costas de animais, embiravam-se em cabeotes de cangalhas. E os cavalos ensangentados percorriam caminhos, topavam nas pedras das ruas, paravam  porta da cadeia, onde se aquartelava o destacamento da polcia.
     O velho Frade, influente num municpio vizinho, dizia que nunca matara um homem. Matava cabra ruim, muito cabra ruim. No meu municpio tambm se assassinavam homens, embora se preferissem os cabras ruins. Quando um proprietrio governista queria molestar um adversrio, mandava suprimir-lhe alguns moradores  e a pessoa ameaada vendia-lhe a terra por menos do valor. Se no vendia logo, novos moradores iam desaparecendo, at que a transao se efetuava. S raramente, em casos de ofensas pessoais, questes de famlia, se eliminavam membros da classe elevada. A esses tomavam-se os bens, por meios mais ou menos legais. Mas a canalha era dizimada, os cabras ruins do velho Frade morriam em abundncia, e a gente se habituava aos cadveres que manchavam a cidade.
     Regime forte. O chefe conversava direito, falava na Coria, torcia pelo Japo contra a Rssia [pg. 216] em 1905, discutia gramtica s vezes. De bom humor, ningum o julgaria capaz de sangrar um pinto, mas encolerizava-se facilmente e berrava nas esquinas injrias a amigos e inimigos. Perdia os estribos, rugia, lastimava-se, dizia-se rodeado por malandros que lhe enodoavam a reputao. Os malandros, assim atacados, encolhiam-se em ordem junto aos balces das lojas onde preguiavam, escondiam-se por detrs das folhas da capital, cheias de correspondncias ferozes e annimas, que me pareciam exageradas. As surras em tipos indesejveis e o aparecimento de caboclos mortos eram fatos vulgares, mal justificavam a indignao impressa. O Coronel se defendia aos gritos, espumava; os aderentes, medrosos, balbuciavam, tentavam descobrir os autores das infames acusaes. Fervilhavam suspeitas. E dias depois era certo algum ser agredido em pblico, a chicote ou cacete. Nunca vi regime to forte.
     Amigo pequeno, Fernando recebia as iras destinadas a outros e no reagia. Numa reviravolta poltica, exps claramente a sua natureza de tabela de bilhar: agentou sova. Mas naquele tempo s o patro, dono dos corpos e das almas, tinha o poder de humilh-lo. Ouvidos os insultos, Fernando se recompunha, tornava-se insolente, apavorava os infelizes das pontas de ruas. Especializara-se em desgraar meninas pobres, que se rendiam por medo ou eram violentadas. Algumas vezes as prprias mes iam lev-las ao sacrifcio.
     Lembro-me da Ratinha, linda criatura. Em noites de festa vestia roupas vermelhas, mostrava duas rosas vermelhas nas bochechas, sorria com um sorriso vermelho, era toda uma vermelhido triunfante  e isto a perdeu. A Rata velha tinha olhos [pg. 217] de rato, dedos finos de rato, focinho de rato, modos de rato. O Rato irmo era um rapaz mido, narigudo, inquieto. A Ratinha se diferenava da famlia, no se distinguia das moas de considerao. Engelhou e envelheceu num beco escuro.
     Na cidade havia numerosas meretrizes, um horror de meretrizes, at crianas de doze anos, imposto arrancado aos que no possuam fazenda.
     Os homens remediados, que o Coronel afligia em horas de rabugice, no pagavam imposto ou pagavam muito pouco. E Fernando, parente prximo do governo e fiscal da Intendncia, atenazava a oposio, esfolava matutos nas feiras, colhia virgindades.
     Essas noes me chegavam lentas e incompletas. Novo ainda, eu no entendia certas coisas. Entretanto aquele indivduo me causava arrepios. Sempre foi demasiado grosseiro comigo, e isto me levou a aceitar sem exame os boatos que circulavam a respeito dele. Acostumei-me a julg-lo um bicho perigoso. E lendo no dicionrio encarnado, onde existiam bandeiras de todos os pases e retratos de personagens vultosas, que Nero tinha sido o maior dos monstros, duvidei. Maior que Fernando? A afirmao do livro me embaraava. Como seria possvel medir por dentro as pessoas? E senti pena de Nero, que nunca me havia feito mal. Fernando me atormentava e era pssimo. Talvez no fosse o pior monstro da Terra, mas era safadssimo. O rosto de caneco amassado, a fala dura e impertinente, os resmungos, o olho oblquo e cheio de fel, um jeito impudente e desgostoso, um ronco asmtico findo em sopro, tudo me dava a certeza de que Fernando encerrava muito veneno. Se aquele sopro, rumor de caldeira, se transformava em palavras, saam dali [pg. 218] brutalidades. O sujeito se tornou para mim um smbolo  e pendurei nele todas as misrias.
     Pois um dia a minha convico se abalou profundamente. Os dois empregados abriam caixes na loja. Fernando cochilava no banco, junto ao armrio das perfumarias. Aos golpes dos martelos, as talhadeiras cortavam arcos de ferro, a madeira se despregava, rangia. Concludo o trabalho, recolheram-se os papis e o capim da embalagem, distribuiu-se a mercadoria em lotes, Jos Batista, da carteira, leu as faturas para a conferncia.
     Foi a que veio o grande sucesso. Uma das tbuas ficara no cho, crivada de pregos. Fernando levantou-se, apanhou-a, agarrou um martelo, ps-se a entortar os bicos agudos, a rosnar. Desleixo. Se uma criana descala pisasse naquilo?
     Eu no acreditava nos meus olhos nem acreditava nos meus ouvidos. Ento Fernando no era mau? Pensei num milagre. Julguei ter sido injusto. Fernando, o monstro, semelhante a Nero, receava que as crianas ferissem os ps. Esqueci as torpezas cochichadas, condenei o dicionrio vermelho que tinha bandeiras e retratos. Talvez Nero, o pior dos seres, envergasse os pregos que poderiam furar os ps das crianas. [pg. 219]
     
Jernimo Barreto




APARECEU uma dificuldade, insolvel durante meses. Como adquirir livros? No fim da histria do lenhador, dos fugitivos e dos lobos havia um pequeno catlogo. Cinco, seis tostes o volume. Tencionei comprar alguns, mas Jos Batista me afirmou que aquilo era preo de Lisboa, em moeda forte. E Lisboa ficava longe.
     Invoquei, num desespero, o socorro de Emlia. Eu precisava ler, no os compndios escolares, insossos, mas aventuras, justia, amor, vinganas, coisas at ento desconhecidas. Em falta disso, agarrava-me a jornais e almanaques, decifrava as efemrides e anedotas das folhinhas. Esses retalhos me excitavam o desejo, que se ia transformando em idia fixa. Queria isolar-me, como fiz quando nos mudamos em razo de consertos na casa. Para bem dizer, os outros  que se mudaram. A pretexto de ver os trabalhos, escapulia-me com o romance debaixo do palet, voltava, desviava-me dos pedreiros, serventes e pintores, ia esconder-me [pg. 220] na sala. Mergulhava numa espreguiadeira e, empoeirado, sujo de cal, sentindo o cheiro das tintas, passava horas adivinhando a narrativa,  luz que se coava pelos vidros baos. Privara-me desse refgio. E onde conseguir livros?
     Emlia tentou auxiliar-me, contou pelos dedos os possuidores provveis de bibliotecas, sisudos, inacessveis: Dr. Mota Lima, Professor Rijo, Padre Loureiro. No me arriscaria a chate-los. Mais prximo, havia o tabelio Jernimo Barreto. Diariamente, percorrendo a Ladeira da Matriz, demorava-me em frente do cartrio dele, enfiava os olhos famintos pela janela, via numa estante, em fileiras densas, bonitas encadernaes de cores vivas.  mesa larga, em mangas de camisa, o funcionrio manejava instrumentos jurdicos. E um respeito cheio de inveja me detinha na calada. Atribu quele rapaz moreno cincia poderosa, estranhei v-lo, simples e calmo, juntar-se aos freqentadores da loja, onde metia na conversa Robespierre e Marat, dois tipos que venerei antes de me chegar qualquer notcia de revoluo e da Frana.
     Esperei que Emlia falasse a Jernimo. Recusou-se. Expus a situao a Jos Batista, o nico empregado que no me inspirava rancor. Jos Batista fechou o dirio, escutou-me, julgou dispensveis os medianeiros, pois a minha pretenso era modesta. Eu a considerava exorbitante.
     Sa do escritrio num desnimo. Impossvel entender-me com o homem sabido, conhecedor de Marat, Robespierre, outros que me fugiam da memria e da lngua. Essas personagens me acovardavam. E o proprietrio delas guardava-as com certeza ciumento, no deixaria mos bisonhas manch-las [pg. 221] de suor. Afirmei, repeti mentalmente que no me avizinharia de Jernimo Barreto.
     Dirigi-me a casa, subi a calada, retardei o passo, como de costume, diante das procuraes e pblicas-formas. E bati  porta. Um minuto depois estava na sala, explicando meu infortnio, solicitando o emprstimo de uma daquelas maravilhas. Mais tarde me assombrou o arranco de energia, que em horas de tormento se reproduziu. Como veio semelhante desgnio? De fato no houve desgnio. Foi uma inexplicvel desapario da timidez, quase a desapario de mim mesmo. Expressei-me claro, exibi os gadanhos limpos, assegurei que no dobraria as folhas, no as estragaria com saliva. Jernimo abriu a estante, entregou-me sorrindo O Guarani, convidou-me a voltar, franqueou-me as colees todas.
     Retirei-me enlevado, vesti em papel de embrulho a percalina vermelha, entretive-me com D. Antnio de Mariz, Ceclia, Peri, fidalgos, aventureiros, o Paquequer. Certas expresses me recordaram a seleta e a linguagem de meu pai em lances de entusiasmo. Vi o retrato de Jos de Alencar, barbado, semelhante ao Baro de Macabas, e achei notvel usarem os dois uma prosa fofa. Vencidos o incndio e a cheia, dois elementos de resistncia na literatura nacional, examinei os volumes, desencapei-os, restitu-os ao dono.
     Jernimo Barreto me desviou para as obras de carregao. Viajei bastante, abeirei-me de condessas. Mas permaneci no desalinho, esgueirando-me pelos cantos, e o juzo severo da famlia se agravava. Apenas meu primo Jos, ouvindo-me descrever uma casa queimada, resmungou:
      Falante como o diabo. [pg. 222]
     Talvez me houvessem ficado alguns adjetivos do Guarani. Isto no representou vantagem, pelo menos no princpio.
     Surgiu na cidade uma espcie de colgio e introduziram-me nele. Quando cheguei, o diretor, insinuante, macio, ditou meia dzia de linhas a diversos novatos. Emendou e classificou os ditados; pegou o meu, horrorizou-se, escreveu na margem larga do almao: incorrigvel. Esta dura sentena no me abalou. At que me envaideci um pouco vendo a minha escrita diferente das outras.
     Dias depois o sujeito me pediu a constituio do Brasil e uma gramtica. Levei a gramtica, mas embirrei com a constituio, mudei-a numa histria do Brasil de perguntas e respostas. Assim, no analisei o estatuto do meu pas e dei a Jovino Xavier uma impresso miservel. Recebendo as cartonagens, Jovino travou comigo um dilogo: espantou-se, franziu os beios, machucou o bigode, cocou a cabea, entalado. E deixou-me em paz, esteve semanas sem me dirigir palavra, certamente julgando-me imbecil, o que muito me serviu.
     Nesse tempo eu andava nos fuzus de Rocambole. Jernimo Barreto me fazia percorrer diversos caminhos: revelara-me Joaquim Manuel de Macedo, Jlio Verne, afinal Ponson du Terrail, em folhetos devorados na escola, debaixo das laranjeiras do quintal, nas pedras do Paraba, em cima do caixo de velas, junto ao dicionrio que tinha bandeiras e figuras.
     Os meus colegas se afastavam de mim, declamavam as capitais, os rios da Europa. E eu mascava os prolegmenos: vinte e quatro horas, trezentos e sessenta e cinco dias, raa branca, raa negra. Quando tomei p na Europa, eles exploravam [pg. 223] outras partes do mundo. Surdo s explicaes do mestre, alheio aos remoques dos garotos, embrenhava-me na leitura do precioso fascculo, escondido entre as folhas de um atlas. s vezes procurava na carta os lugares que o ladro terrvel percorrera. E o mapa crescia, povoava-se, riscava-se de estradas por onde rodavam caleas e diligncias.
     Conheci desse jeito vrias cidades, vivi nelas, enquanto os pequenos em redor se esgoelavam, num barulho de feira. O rumor no me atingia. Em vo me falavam. Sacudido, sobressaltava-me, as idias ausentes, como se me arrancassem do sono. Olhavam-me estupefatos, devagar me inteirava da realidade.
     Governadores-gerais, holandeses e franceses comeavam a importunar-me. Esquartejavam-se perodos, subdividiam-se e rotulavam-se as peas em medonha algazarra. Os meus novos amigos guardavam maquinalmente faanhas portuguesas, francesas e holandesas, regras de sintaxe  e brilhavam nas sabatinas. Segunda-feira estavam esquecidos, e no fim da semana precisavam repetir o exerccio, decorar provisoriamente toda a matria.  medida que avanavam, a tarefa se ia tornando mais penosa: ficavam apenas, algum tempo, as ltimas lies.
     Eu achava estupidez pretenderem obrigar-me a papaguear de oitiva. Desonestidade falar de semelhante maneira, fingindo sabedoria. Ainda que tivesse de cor um texto incompreensvel, calava-me diante do professor  e a minha reputao era lastimosa.
     Um dia, porm, houve exame imprevisto e os alunos encrencaram nos rios e nas capitais. Haviam-me [pg. 224] chegado pedaos disso. Geografia velha, anterior  locomotiva, cheia de solues de continuidade, mas foi exposta e produziu eleito regular. Mencionei o bosque de Bolonha, Versalhes, o Sena, a torre de Londres, as pontes de Veneza, o Reno e o Tibre, o porto de Marselha. No era exatamente o que desejavam. Em todo o caso fui ouvido. Certas interrupes me avivavam a eloqncia. O Mediterrneo? Perfeitamente, a Crsega, terra de Napoleo. Da poeira de Ajcio ao trono de S. Lus. Jernimo Barreto me falara na poeira e no trono  e isto no apresentava dificuldade: Ajcio estava ali no mapa, S. Lus tinha sido rei da Frana, Napoleo se estrepara na campanha da Rssia, logo nas primeiras pginas do Rocambole. Num desconchavo, referi-me  catedral de Notre-Dame e ao Vesvio familiarmente, como se os tivesse visto. Alm disso, arrolei plantas e animais exticos: carvalhos e pinheiros, vinhedos e trigais, lobos e javalis, melros e rouxinis.
     Finda a novidade, os meus conhecimentos originaram desconfiana e algum desdm: Versalhes, Notre-Dame e os rouxinis tinham aparncia de contrabando. E eram inteis, com certeza. Mas serviam para a composio de narrativas  e fora da no me inspiravam interesse.
     A existncia comum se distanciava e deformava; conhecidos e transeuntes ganhavam caracteres das personagens do folhetim. Descurei as obrigaes da escola e os deveres que me impunham na loja. Algumas disciplinas, porm, me ajudavam a compreenso do romance e tolerei-as  bocejei e cochilei buscando penetr-las.
     Em poucos meses li a biblioteca de Jernimo Barreto. Mudei hbitos e linguagem. Minha me [pg. 225] notou as modificaes com impacincia. E Jovino Xavier tambm se impacientou, porque s vezes eu revelava progresso considervel, outras vezes manifestava ignorncia de selvagem. Os caixeiros do estabelecimento deixaram de afligir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me um indivduo esquisito.
     Minha me, Jovino Xavier e os caixeiros evaporavam-se. A nica pessoa real e prxima era Jernimo Barreto, que me fornecia a proviso de sonhos, me falava na poeira de Ajcio, no trono de S. Lus, em Robespierre, em Marat. [pg. 226]
     

Venta-Romba




OFERECERAM a meu pai o emprego de juiz substituto e ele o aceitou sem nenhum escrpulo. Nada percebia de lei, possua conhecimentos gerais muito precrios. Mas estava aparentado com senhores de engenho, votava na chapa do governo, merecia a confiana do chefe poltico  e achou-se capaz de julgar.
     Naquele tempo, e depois, os cargos se davam a sequazes dceis, perfeitamente cegos. Isto convinha  justia. Necessrio absolver amigos, condenar inimigos, sem o que a mquina eleitoral emperraria.
     Os magistrados de anel e carta diligenciavam acomodar-se, encolher-se, faziam vista grossa a muita bandalheira. De repente acuavam, tinham melindres que o mando local no entendia e lanava  conta de m vontade. E l vinham rixas, viagens rpidas, afrontas, um libelo contestado a punhal ou cacete. Enfim os bacharis se agentavam mal. Dispensavam-lhes obsquios, salamaleques  [pg. 227]  e desviavam-nos. Subsistia o Juiz de Direito, que ordinariamente se ausentava da comarca.
     Os funcionrios matutos no vacilavam: ignorando a razo de intransigncias, amoleciam imperturbveis, assinavam despachos redigidos pelo escrivo.
     Foi assim que meu pai recebeu um ttulo e suportou a alegria ruidosa do preto Jos Lus, que, aos sbados, da sala  cozinha, ria, gritava, danava, entusiasmado:
      Cad o nosso juiz substituto?
     No havia motivo para jbilo. Conservo dessa autoridade uma recordao lastimosa.
     Venta-Romba pedia esmola, gemendo uma cantilena, indiferente s recusas:
      Como vai, seu Major? E a mulher de seu Major? Os filhinhos de seu Major?
     A voz corria mansa; as rugas da cara morena se aprofundavam num sorriso constante; o nevoeiro dos olhos se iluminava com estranha doura. Nunca vi mendigo to brando. A fome, a seca, noites frias passadas ao relento, a vagabundagem, a solido, todas as misrias acumuladas num horrvel fim de existncia haviam produzido aquela paz. No era resignao. Nem parecia ter conscincia dos padecimentos: as dores escorregavam nele sem deixar mossa.
      Como vai, seu Major? Os filhinhos de seu Major?
     Humildade serena, insignificncia, as mos trmulas e engelhadas, os ps disformes arrastando as alpercatas, procurando orientar-se nas esquinas, estacionando junto dos balces. Restos de felicidade esvaam-se nas feies tranqilas. O ai sujo pesava-lhe no ombro; o chapu de palha esburacado [pg. 228] no lhe protegia a cabea curva; o ceroulo de pano cru, a camisa aberta, de fralda exposta, eram andrajos e remendos.
     Aparecia uma vez por semana, s sextas-feiras, quando se realizava a caridade: um pires de farinha nas casas particulares, um vintm nas lojas e nas bodegas. Mas as famlias de lojistas e bodegueiros no exerciam a caridade, porque isto seria redundncia.
      Pea na venda.
     Tnhamos ordem para afastar os peditrios.
     Uma sexta-feira Venta-Romba nos bateu  porta. Deve ter batido: no ouvimos as pancadas. Achou o ferrolho e entrou, surgiu de supeto na sala de jantar, os dedos bambeando no cajado. As moas assustaram-se, os meninos caram em grande latomia.
      V-se embora, meu senhor, disse a patroa.
     A distncia, esse tratamento de meu senhor a uma criatura em farrapos soa mal. Era assim que minha me se expressava dirigindo-se a qualquer desconhecido. Trouxera o hbito da fazenda, e isto s vezes no revelava polidez. Em tons vrios, meu senhor traduzia respeito, desdm ou enfado. Agora, com estridncia e aspereza, indicava zanga, e a frase significava, pouco mais ou menos:
      V-se embora, vagabundo.
     Venta-Romba perturbou-se, engasgou-se, apagou o sorriso; o vexame e a perplexidade escureceram-lhe o rosto; os beios contraram-se, exibindo as gengivas nuas.
      Sinha dona... murmurou.
     Com certeza buscava explicar-se. Interjeies roucas e abafadas escapavam-lhe; os olhos baos [pg. 229] percebiam o terror das crianas e arregalavam-se aflitos.
     Minha me era animosa. Atirava, montava, calejara na vida agreste. Certo dia um Coronel lhe entrou subitamente na cozinha, lvido, rogando-lhe que o escondesse da polcia: trancou-o num quarto, guardou a chave, tomou as primeiras medidas necessrias  fuga. No precisava que o marido, pessoa, dbil, viesse enxotar Venta-Romba. Mas expediu o moleque Jos com um recado e plantou-se junto  mesa, spera, silenciosa, os cantos da boca repuxados, a mancha vermelha da testa muito larga.
     Diante dela, o pobre intentava aliviar a impresso m, e cada vez mais se confundia; deixou passar o momento de retirar-se. Cocava a cabea, gemia desculpas asmticas, e ningum o escutava. Num arranco de impacincia, bateu com o pau no tijolo, agravou a balbrdia. A severidade vincou o rosto da mulher; as moas cochicharam rezando e fixaram a ateno na entrada do corredor.
     Nesse ponto chegou meu pai. Chegou alvoroado, branco, e logo se fortaleceu, ps-se a interrogar Venta-Romba, que desabafou, estranhou a desordem: implicncia dos meninos, gritos, choro, a dona sisuda, as doninhas arrepiadas. Fuzu brabo  toa, falta de juzo. Graas a Deus, tudo se alumiava. Descobriu-se, despediu-se, caminhou de costas:
      Adeus, seu Major.
     Meu pai atalhou-o. Antes de qualquer sindicncia, tinha-se resolvido. Enganara-se com os exageros do moleque, enviara um bilhete ao comandante do destacamento. A fraqueza o impelia a decises extremas. Imaginara-se em perigo. Reconhecia o erro, mas obstinava-se. [pg. 230]
     [pg. 231] imagem
     [pg. 232] pgina em branco

     
     Misturava o sobressalto originado pela notcia ao enjo que lhe causava a figura mofina  e desatinava. Propendia a elevar o intruso, imputar-lhe culpa e castig-lo. De outro modo, o caso findaria no ridculo.
      Est preso, gaguejou, nervoso, porque nunca se exercitara naquela espcie de violncia.
     Algum tossiu na sala, um bon vermelho apareceu no fim do corredor. Insensvel, Venta-Romba tropicava como um papagaio, arrimava-se penosamente  ombreira da porta. Deteve-se, largou uma exclamao de surpresa e dvida. E quando a frase se repetiu, balbuciou descorado:
      Brincadeira de seu Major.
     Espalhou a vista em roda: o barulho das crianas fora substitudo por uma curiosidade perversa; as moas tremelicavam na costura; a face de minha me expunha indiferena imvel; um sujeito passeava na sala de visitas, exibindo pedaos da farda vistosa. Claro que no era brincadeira, mas o velho, estonteado, no alcanava o desastre. Arredou-se da porta, encostou-se  parede, esboou um movimento de defesa. Se no fosse banguelo, rangeria os dentes; se os msculos no estivessem lassos, endureceria as munhecas, levantaria o cajado. Impossvel morder ou empinar-se; o gesto maquinai de bicho acuado esmoreceu; devagar, a significao da palavra rija furou, como pua, o esprito embotado. E emergia da trouxa de molambos uma pergunta flcida:
      Por que, seu Major?
     Era o que eu tambm desejava saber.  janela, distraindo-me com o vo das abelhas e o zunzum do cortio pendente no beirai, vira o espalhafato nascer e engrossar em minutos. No haviam colaborado [pg. 233] nele  e a interrogao lamentosa me abalava. Por qu? Como se prendia um vivente incapaz de ao? Venta-Romba movia-se de leve. No podendo fazer mal, tinha de ser bom. Difcil conduzir aquela bondade trpega ao crcere, onde curtiam pena os malfeitores.
      Por que, seu Major?
     O cochicho renovado ficou sem resposta. Seu Major no saberia manifestar-se. Assombrara-se, recorrera  fora pblica e receava contradizer-se. Talvez sentisse compaixo e se reconhecesse injusto. Enraivecia, acusava-se, e despejava a clera sobre o infeliz, causa do desarranjo. Em desespero, roncou injrias. O polcia que pigarreava na sala se avizinhou, a blusa desabotoada, faca de ponta  cintura, as reinas de vaqueta ringindo.
     Vinte e quatro horas de cadeia, uma noite na esteira de pipiri, remoques dos companheiros de priso, gente desunida. Perdia-se a sexta-feira, esfumava-se a beneficncia mesquinha. Como havia de ser? Como havia de ser o pagamento da carceragem?
     Venta-Romba sucumbiu, molhou de lgrimas a barba srdida, extinguiu num murmrio a pergunta lastimosa. O soldado ergueu-lhe a camisa, segurou o cs do ceroulo, empunhou aquela runa que tropeava, queira aluir, atravessou o corredor, ganhou a rua.
     Fui postar-me na calada, sombrio, um aperto no corao. Venta-Romba descia a ladeira aos solavancos, trocando as pernas, desconchavando-se como um judas de sbado da Aleluia. Se no o agarrassem, cairia. O ai balanava; na cabea desgovernada os vestgios de chapu iam adiante e vinham atrs; as alpercatas escorregavam na grama. [pg. 234]
     Eu experimentava desgosto, repugnncia, um vago remorso. No arriscara uma palavra de misericrdia. Nada obteria com a interveno certamente prejudicial, mas devia ter afrontado as conseqncias dela. Testemunhara uma iniqidade e achava-me cmplice. Covardia.
     Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e grosseiro  e julgo que a priso de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter contribudo tambm para a desconfiana que a autoridade me inspira. [pg. 235]
     
Mrio Venncio




ORGANIZOU-SE uma sociedade teatral e quiseram coloc-la sob o patrocnio de Joo Caetano; mas o Major Pedro Silva, senhor de engenho, ofereceu aos amadores uma casa que se arruinava no Juazeiro, defronte da cadeia, e a instituio recebeu em conseqncia o nome de Escola Dramtica Pedro Silva. Ladrilharam, rebocaram e caiaram o prdio; ergueram o palco, os cenrios da floresta, do palcio e da choupana; Joaquim Corrento esmerou-se no pano de boca, vistoso, com trs deusas peitudas. E, depois de numerosos ensaios, levaram  cena O Plebeu, que arrancou lgrimas da platia.
     Entre os diletantes, um moo desconhecido, novo agente do correio, logo se notabilizou pela feira e pelos modos esquisitos. Mrio Venncio era pobre demais: vestia brim fluminense, roupa grosseira de matuto, preparava ele mesmo a comida e vivia numa espcie de gaiola pendurada no morro [pg. 236] do Po-sem-Miolo. A pea da frente servia de repartio, gabinete e sala de visitas.
     Logo correu que havia chegado  terra um literato. Vi-o de longe, rpido e mido, o rosto fino como focinho de rato, modos de rato  um guabiru ligeiro e cabisbaixo, a dar topadas no calamento. E algum afirmou na loja que estava ali um sujeito profundo, colaborador de jornais, autor de livros, o diabo. As maneiras esquivas e torcidas exprimiam vida interior, desprezo ao senso comum, inspirao de poeta. Em geral os poetas tinham aparncia maluca e usavam cabelos assim compridos, escondendo as orelhas.
     Aproximei-me desse curioso indivduo no colgio, onde nos apareceu lecionando geografia. No era a especialidade dele: ajustou-se  matria como se ajustaria a qualquer outra, apenas para aliviar o trabalho de Jovino Xavier. Pouco a pouco abandonou os mapas, as listas de mares e de rios. Insinuou-nos a fundao de um peridico.
     A idia, aceita com entusiasmo, ao cabo de uma semana esfriou, teria morrido se eu e meu primo Ccero no a resguardssemos. Aferramo-nos a ela e, vencendo embaraos e canseiras, tornamo-nos diretores do Dilculo, folha impressa em Macei, com duzentos exemplares de tiragem quinzenal, trazidos pelo estafeta Buriti, que vendia revista e declamava pedaos do Moo Louro. O desgraado ttulo foi escolha do nosso mentor, fecundo em palavras raras.
     Estabeleceu-se a redao na agncia do correio, logo convertida em asilo de doidos.  tarde reuniam-se l os membros da Escola Dramtica Pedro Silva, os da Instrutora Viosense, sociedade que dormia o ano inteiro, acordava na posse da diretoria e, [pg. 237] concludos os discursos, tornava ao sono. Essa gente fazia um barulho que assustava os transeuntes, afligia os vizinhos, atraa caixeiros tmidos, emaranhados nos cipoais da concordncia e da mtrica. Sem apanhar direito o sentido das conversas, apoderava-me de alguns vocbulos, estudava-os no dicionrio, empregava-os com energia.
     Representado O Plebeu, Mrio Venncio colhera no guarda-roupa do teatro uma farpeia que utilizava em noites de inverno e por fim misturava ao fato ordinrio. De tamancos, cala de algodo esfiapada nas bainhas, camisa de meia, fraque e chapu duro, atravessava a rua, dirigia-se  bodega; as mos carregadas de embrulhos, lenha debaixo do brao, voltava, corcunda, tropeando, ia  cozinha, atiava o fogo, temperava a panela. Em seguida entrava na sala, enxugando os dedos longos, sentava-se  mesa coberta de jornais, cartas, almofadas e carimbos, perto da estante:
      O naturalismo ...
     Perplexo, eu examinava as pessoas em redor, procurava distinguir nelas o efeito da arenga difcil. Estariam compreendendo? s vezes me assustavam discusses embrulhadas: rapazes silenciosos animavam-se, discorriam com exagero e dio, religiosamente. Isso me dava tontura e enjo. Uma idia clara me surgia: os romances agradveis eram bugigangas. Em troca, exibiam-me insipidez e obscuridade. Ali  que estava a beleza, especialmente na prosa de Coelho Neto.
     No me importava a beleza: queria distrair-me com aventuras, duelos, viagens, questes em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou mortos. Incapaz de revelar a preferncia, resignei-me e agentei as Baladilhas, o Romanceiro, outros [pg. 238] aparatos elogiados, que me revolveram o estmago. Cochilei em cima deles, devolvi-os receando que me forassem a coment-los. Para mim eram chinfrins, mas esta opinio contrariava a experincia alheia. Julguei-me insuficiente, calei-me, engoli bocejos. Enquanto o dono da casa explanava a literatura encrencada, esforcei-me por entend-la. Senti medo e preguia. No me arriscaria a controvrsia: acovardava-me a presena de uma autoridade.
     O Pequeno Mendigo e vrias artes minhas lanadas no Dilculo saram com tantos arrebiques e interpolaes que do original pouco se salvou. Envergonhava-me lendo esses excessos do nosso professor: toda a gente compreenderia o embuste.
     Mrio Venncio fabricava artigos e notcias, reduzia os diretores a simples testas-de-ferro. Ornou de contos srios as pginas mesquinhas. Assim principiava um deles, admirado na Instrutora Viosense e na Escola Pedro Silva: "Jerusalm, a deicida, dormia sossegadamente  luz plida das estrelas. Sobre as colinas pairava uma tnue neblina, o hlito da grande cidade adormecida. Nos casais dos cabreiros, ces de viglia ululavam lugubremente." Os nossos ouvidos eram insensveis a colises. E a brisa do monte das Oliveiras, a torrente do Cdron, lugares bblicos, valorizavam o trabalho.
     Mas no ficvamos na torrente e na brisa. Descamos o monte das Oliveiras, caamos na plancie nacional, visitvamos a Casa de Penso e O Coruja. Da cpia saltvamos ao modelo, invadamos torpe-z.as dos Bougon-Macquart, publicadas em Lisboa.
     Feria-me s vezes, porm, uma saudade viva das personagens de folhetins: abandonava a agncia, chegava-me a biblioteca de Jernimo Barreto, [pg. 239] regressava s leituras fceis, reviu condes e condessas, salteadores e mosqueteiros briges, viajava com eles em diligncia pelos caminhos da Frana. Esquecia Zola e Victor Hugo, desanuviava-me. Havia sido ingrato com os meus pobres heris de capa e espada. No me atrevia a exibi-los agora. Disfarava-os cuidadoso e, fortalecido por eles, submetia-me de novo ao pesadume, ia buscar o artifcio v. a substncia, em geral muito artifcio e pouca substncia.
     O funcionrio postal facilitou-me a correspondncia com livrarias: obtive catlogos da Garnier e da Francisco Alves, escrevi cartas, recebi faturas e pacotes. No possuindo recursos, habituei-me a furtar moedas na loja, guard-las num frasco bojudo oculto sob fronhas e toalhas no compartimento superior da cmoda. Entre nqueis e pratas surgiram cdulas  e enchi as prateleiras da estante larga, presente de aniversrio. Esses delitos no me causavam remorso. Cheguei a convencer-me de que meu pai, encolhido e avaro por natureza, os aprovava tacitamente. Desculpava-me censurando-lhe a sovinice, tentando agarrar esperanas absurdas.
     Mrio Venncio me pressagiava bom futuro, via em mim sinais de Coelho Neto, de Alusio Azevedo  e isto me ensoberbecia e alarmava. Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticnio: os meus exerccios eram composies tolas, no prestavam. Sem dvida, afirmava o adivinho. Ainda no prestavam. Mas eu faria romances. Gastei meses para certificar-me de que o palpite no encerrava zombaria. Depois a vaidade esmoreceu, foi substituda por uma vaga aflio. Que teria o homem percebido nos meus escritos? Se me decidisse [pg. 240] a confiar nele, amargaria a vida inteira o provvel engano. Examinei-me por dentro e julguei-me vazio. No me achava capaz de conceber um daqueles enredos ensangentados, frteis em nobres valorosos e donzelas puras. E, desatento, andava na rua aos encontres, meio cego, meio surdo. Nunca descreveria um candeeiro como o de metal amarelo que iluminava, com azeite e difceis pavios, duas pginas das Cenas da Vida Amaznica. Os candeeiros me passavam despercebidos. E seriam necessrios? Os debates na agncia no tinham fim. Lembrava-me dos governistas e oposicionistas espalhados, rancorosos, nas esquinas da cidadezinha e nos jornais da capital. Assombrava-me o partidarismo exaltado, a minha colaborao no Dilculo era terrivelmente ecltica. Mrio Venncio continuava a animar-me, eu desviava pretenses arriscadas.
     Esse amvel profeta bebeu cido fnico. Levantei-me da espreguiadeira, onde me seguravam as novidades e os sofrimentos da artrite e de uma novela russa, fui encontrar o infeliz amigo estirado no sof, junto  mesa coberta de papis, brochuras, pedaos de lacre, almofadas e carimbos. Um emissrio da administrao, feita a sindicncia, redigiu necrolgio pomposo, enterrou o cadver sob a folhagem de salgueiros, entre razes de ciprestes, vegetais desconhecidos no lugar.
     O Dilculo tambm morreu logo. Distanciei-me da crtica. E no me entendi com o pblico, muito incerto. No colgio, na Escola Pedro Silva, na Instrutora Viosence, toleravam-me. Em casa, sem exame, detestavam as minhas novas ocupaes. [pg. 241]
     
     
Seu Ramiro




NAQUELE tempo os hspedes fervilhavam em nossa casa. Na cidade ainda no havia hotis, e  tardinha, ao chegar o trem, quase diariamente nos apareciam carregadores que transportavam bagagens. Sujeitos desconhecidos entravam, incerimoniosos, como se tivssemos obrigao de receb-los, ficavam dois, trs dias, embarcavam de madrugada, sem agradecimentos,  socapa.
     Minha me se arreliava, prometia uma desfeita quela scia de parasitas. Mas baixava a pancada, engolia a indignao, ia lacrimejar na fumaa da cozinha,  beira do fogo, rosnar o desgosto  criada e aos moleques.
     Meu pai afetava pacincia magnnima, no isenta de interesse. Calculista,  possvel que enxergasse na hospitalidade matuta um emprego de capital. Alargara as transaes, devia muito, e no inverno o dinheiro minguava. Sendo os intrusos em geral caixeiros-viajantes, fiscais dos estabelecimentos fornecedores, convinha suport-los. Davam, [pg. 242] em paga, bons informes do pequeno retalhista do interior. E indicavam-lhe negcios vantajosos, a compra de massas falidas, baratas. Nessas liquidaes abundavam pregos de tamanho exorbitante, agulhas enferrujadas, chita de padres horrveis. Ao cabo de anos os fregueses desconfiaram que todas as mercadorias tinham defeito, e os balanos apresentavam rumas de inutilidades.
     Os cometas atraram indivduos alheios ao comrcio e transformaram a casa em penso. Entre estes, Seu Ramiro se notabilizou. Trazia o encargo de fundar uma Loja Manica, empresa odiosa e cheia de riscos.
     Minha famlia no era rigorosamente crist: fugia do confessionrio, rezava pouco, ia  igreja com temperana, nas festas. Mas admirava as procisses, jejuava na semana santa e sabia perfeitamente que os pedreiros-livres do sangue ao diabo, obtm fortuna e condenam-se. O velho Pedro Rico, nosso parente afastado, procedera desse jeito e estava no inferno. Sem dvida. Percorria a vizinhana dos lugares mal-assombrados, vagava pelos caminhos, galopando num cavalo negro, pedindo missas e gemendo:
      Sou a alma do finado Pedro Rico.
     Seu Ramiro percebia as dificuldades e foi cauteloso, no revelou de supeto os seus desgnios sinistros. Fez diversas viagens e, com persistncia e manha, declarando-se religioso em demasia, iniciou uma propaganda tmida, fortaleceu-se, conseguiu proslitos e inaugurou a loja Mensageiros da P, que teve como venervel o chefe poltico. Na estria, pomposa, tipos srios, de Macei, declamaram longos discursos. [pg. 243]
     Meu pai esteve alguns meses cabeceando sobre cartonagens e folhetos marcados com tringulos e compassos. Guardou a princpio esses utenslios na gaveta, a chave; largou-os depois  toa, deixou-nos ver as abreviaturas enigmticas, findas em trs pontinhos. Enjoou as sesses secretas, e julgo que permaneceu em grau muito baixo, no passou de aprendiz.
     Enquanto se aliciavam adeptos e se reconstrua um casaro triste no Gurganema, Seu Ramiro nos visitou com freqncia. Era um sujeito espesso e moreno, de cabeleira grisalha, rugas, e ponderoso, to ponderoso que dificilmente o imaginaramos sem colarinho e gravata. A voz pausada gotejava, para no perdermos uma slaba. Sobrancelhas hirsutas, olhar sereno e olmpico. Tinha essa figura uns modos de esttua, a convico talvez de que era esttua e devamos admir-la. Antes de quebrar o silncio, fungava, contraa os cantos da boca, achatava mais a, nariz, tufava o bigode vasto. Ensinava-nos que o filipino  terrivelmente forte, conduz sem se cansar dois filipinos. Como as formigas. E descrevia a organizao do formigueiro. Ningum aludira a filipinos nem a formigas, mas o homem achava meio de lanar mo desses viventes e dissertava.
     De ordinrio isso acontecia depois do jantar. Mastigada a refeio abundante e m, retirados os pratos, Seu Ramiro pregava os cotovelos na toalha, examinava as caras em redor e esperava deixa conveniente a uma exposio volumosa. Aprofundava as rugas, eriava os pelos, engrossava o papo, inchava todo, discorria uma hora, e no havia brecha para nenhum aparte. Os dois caixeiros fixavam [pg. 244] nele os bugalhos atentos; o patro balanava a cabea, em apoiados reverenciosos; minha me, a um canto da mesa, reprimia bocejos, mordia os beios.
     Foi nessas arengas que, entre avanos e recuos, surgiu o Supremo Arquiteto do Universo e produziu considervel efeito. Seu Ramiro falava no Supremo Arquiteto do Universo com devoo, erguendo-se um pouco.
     Aborreci aquela sabedoria, a linguagem magnfica: habituei-me a fugir depois do caf, espantando os ouvintes, fuzilado pelos culos do orador, que, chamando-me  ordem, tentou punir-me o desrespeito. Leu no primeiro nmero do Dilculo a minha histria Pequeno Mendigo e censurou-me vrios erros. Essa literatura, recomposta por Mrio Venncio, me parecia certa, mas Seu Ramiro discordou e corrigiu tudo de novo. Alterou a disposio das palavras, arranjou sinnimos vistosos, arrepiou-se vendo a minha personagem estender a mo  caridade pblica: f-la estender as mos, pois no estava explicado que ela fosse maneta. Enfim uma crtica medonha, a pior que j recebi. Grande raiva me encheu o corao, mentalmente desenvolvi compridas injrias, odiei os filipinos e as formigas.
     E s me aliviei quando o monstro se ausentou, deixando uma lembrana deplorvel. Enquanto os Mensageiros da F engatinhavam, Seu Ramiro, grau trinta ou mais, lhes ensinou as regras necessrias, as pancadas do martelo, os deveres de cada um. Findas as lies, espaou as visitas, sumiu-se afinal. Meu pai emprestou-lhe cem mil-ris e perdeu-o de vista. Desiludiu-se, conteve imenso rancor. Certamente os irmos deviam auxiliar-se, mas aquela [pg. 245] maneira de arrancar auxlio era safadeza. Calou-se, roendo a indignao. Foi por isso, creio, que repugnou os trs pontinhos, as brochuras misteriosas, ou tringulos, os compassos e o Supremo Arquiteto do Universo. [pg. 246]
     

A criana infeliz




No colgio havia um aluno particularmente desgraado. Diziam que no prestava, embora se recusassem de ordinrio a especificar as suas faltas, cochichadas com gestos de repugnncia.  tarde, na hora de recreio que enchia de algazarra a calada e a rua, afastavam-se dele, ostensivos, e se algum transgredia essa dura norma, arriscava-se a nivelar-se ao rprobo. Acatvamos uma possvel opinio da maioria, apesar de nunca havermos discutido o assunto: cada um supunha a condenao firmada e receava comprometer-se.
     O rapaz avizinhava-se dos grupos, esboava um sorriso cnico, ingeria-se nas conversas, debalde. Os mais taludos afrontavam-no, olhavam-no com desprezo, cuspiam, voltavam-lhe as costas. Esse procedimento nos fornecia um princpio de convico; e como a vtima se resignava e baixava a cabea, admitamos sem esforo a culpabilidade.
     No era s isso: atiravam-lhe palavras speras, rosnavam insultos. Fingia no perceb-los, diligenciava [pg. 247] abrandar as almas oferecendo-nos indicaes teis, em geral aceitas com indiferena ou repelidas.
     No comeo apenas as classes adiantadas se comportavam assim; as atrasadas seguiram-lhes o exemplo; afinal o garoto se achou entre inimigos.
     O maior deles foi o diretor: isolou-o numa ponta de banco, transformou-o em bicho de circo, espcie de Joaquina ou Jacob, dois gorilas que nos tinham maravilhado. Injusto em demasia, sempre lhe considerou o trabalho mal feito, responsabilizou-o por erros alheios, em momentos de zanga no disfarou o dio.
      Olhem aquele sem-vergonha.
     Com o destampatrio, avivava a separao, estimulava-nos os instintos maus. Julgava-o perdido, sem dvida, e empenhava-se em distanci-lo dos companheiros. Lembrava-nos a cada instante que a aproximao era nociva. Longo tempo ficava a observ-lo, como se procurasse manchas na roupa, ausncia de botes, e tinha uma horrvel brandura felina, o bigode eriava-se, a patinha curta erguia-se de manso, a voz era um suave ronrom. A distncia, poderamos supor algum discurso amvel. De repente a maciez vagarosa miava:
      Descarado.
     O pobre rato fingia-se impassvel, escondia-se por detrs de um livro; perturbava-se ao cabo de minutos, esmorecia, punha-se a tremer. Se estivssemos analisando Cames ou catalogando os mares da Europa, qualquer omisso justificaria a ofensa. Mas provocar uma pessoa daquele jeito, sem esclarecimento, alvoroava-nos. O ultraje no se relacionava com as tarefas escolares, devia ligar-se [pg. 248] a fatos exteriores. Essa impreciso tomava grande importncia: tratava-se de coisa sria, feia.
     O diretor se levantava, um ombro alto, outro baixo:
      Sem-vergonha.
     Os plos ameaadores encrespavam-se, as maneiras brandas eram substitudas por sacudidelas, todo aquele veludo se esgarava e as garras apareciam, desviavam a folha que ocultava um rosto cheio de pavor. Em seguida trompaos, baques fofos no tijolo, arrastar de membros contusos, queixas lamurientas, soluos.
     s vezes o homem se excedia: amarrava os braos do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhao exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lgrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no palet e na camisa  e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo.
     A palmatria figurava em nosso cdigo. Nas sabatinas, questes difceis percorriam as filas  e o aluno que as adivinhava punia os ignorantes. Os amigos da justia batiam com vigor, dispostos a quebrar munhecas; outros, como eu, surdos ao conselho do mestre, encostavam de leve o instrumento s palmas. Isto no nos trazia vexame: foi costume at que se usaram cartes relativos s notas boas. Desde ento pagamos os nossos enganos com essa moeda, chegamos a emprest-la a colegas necessitados.
     Impossvel d-la em troca daquele sofrimento diverso dos sofrimentos ordinrios. Ningum se arriscaria a oferecer resgate. Assistamos a uma pena estranha, infligida sem processo. A acusao [pg. 249] se desenvolvera em segredo. No decurso da tortura, o diretor rosnava, e pelo mover dos beios percebamos a injria murmurada no recreio. No havia defesa. Nenhuma interferncia.
     Livre dos tormentos, o pequeno regressava  ponta do banco, anulava-se, enquanto no o exigiam para recados, viagens ao correio e  bodega. Afinal se despojaram de escrpulos, mandaram-no auxiliar a famlia no servio domstico. Insensvel, nem compreendia o aviltamento: bom que o privassem do estudo e lhe recebessem os prstimos na cozinha. Solcito, esperava talvez escapar ao trato rspido. Nunca lhe manifestaram gratido: empurravam-no, como se ele tivesse o dever de rachar lenha e ir buscar a correspondncia.
     Em casa, o pai martelava-o sem cessar, inventava suplcios: amordaava-o, punha-lhe as costas das mos sobre a mesa da sala de jantar, malhava nas palmas, quase lhe triturava as falanges; prendia-lhe os rejeitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabea para baixo, como carneiro em matadouro. Fatigando-se das inovaes, recorria s sevcias habituais: murros e aoites. O irmo presenciava as cenas aterrado, expandia-se em descries torvas. E durante semanas o pobre repuxava as mangas, abotoava-se, endireitava a gola, para encobrir equimoses, sinais vermelhos, cinzentos, negros.
     Apesar de tudo, a escola era um refgio. Canseiras, adulaes  mulher e aos filhos do diretor, rendiam pelo menos alguma indiferena. E isto convinha. Se o rapaz, findas as obrigaes, se aquietasse, facilmente escaparia, annimo e incolor. No podia esconder-se. Precisava convvio, estava [pg. 250] sempre ensaiando camaradagens que se malogravam.
     Tipos de calas longas e buo tinham com ele um procedimento singular: enviavam-lhe bilhetes, acenavam-lhe, segredavam-lhe em gria misteriosa. Esses escorregos no exprimiam dedicao. Evitavam-no em pblico, zangavam-se de chofre, perseguiam-no com ditos mordazes.
     Ele suportava a ingratido e os remoques, desvanecia-os depressa, ria mostrando os dentes amarelos, que me faziam pensar no gigante Adamastor.  minha entrada na escola, o sujeitinho me surgira, de cotovelos fincados nas pernas, gaguejando spero e rouco:
     
Os olhos encovados e a postura 
Medonha e m e a cor terrena e plida.
     
     A lembrana motivara a associao. Era realmente plido e medonho. Os olhos tinham um brilho seco, fixavam-se na gente com impudncia. Caretas deslocavam-lhe o queixo enorme, quadrado. A pele mida e gordurosa roava-nos  e isto era desagradvel: usvamos cautela para fugir  umidade e  gordura, ao cheiro de formiga e mofo. Parecia no lavar-se, causava nojo.
     Coitado. Que valiam, diante daquela desgraa, cocorotes e puxes de orelhas, logo esquecidos? A comparao revelou que me tratavam com benevolncia. Infeliz.
     Deixei-o no colgio, perdi-o de vista. E reencontrei-o modificado. Ao iniciar-se no crime, andaria talvez pelos quinze anos. Atirou num homem a traio, homiziou-se em casa do chefe poltico e foi absolvido pelo jri. Realizou depois numerosas [pg. 251] faanhas; respeitaram-lhe a violncia e a crueldade. Sapecou os preparatrios num liceu vagabundo. Na academia obteve aprovao ameaando os examinadores. Bacharelou-se, fundou um jornal. Como o velho diretor, seu carrasco, fechara o estabelecimento e curtia privaes, deu-lhe um emprego mesquinho e vingou-se. Caprichou no vesturio: desapareceram as ndoas, a formiga, o mofo. E teve muitas mulheres. Foi em casa de uma que o assassinaram. Deitou-se na espreguiadeira, adormeceu. Um inimigo, no escuro da noite, crivou-o de punhaladas.
     
L a u r a




Aos onze anos experimentei grave desarranjo. Atravessando uma porta, choquei no batente, senti dor aguda. Examinei-me, supus que tinha no peito dois tumores. Nasceram-me plos, emagreci  e nos banhos coletivos do Paraba envergonhei-me da nudez. Era como se o meu corpo se tivesse tornado impuro e feio de repente. Percebi nele vagas exigncias, alarmei-me, pela primeira vez me comparei aos homens que se lavavam no rio.
     Desejei avisar a famlia, consultar o Dr. Mota, cair de cama. Achava-me. porm, numa grande perplexidade. Nunca usara franqueza com meus parentes: no me consentiam expanses. Agora a timidez se exagerava, o caso me parecia inconfessvel. E se me atrevesse a falar ao Dr. Mota, ele iria dizer que o mal no tinha cura.
     Refleti, afirmei que no estava doente; nem precisava deitar-me. Era ruim deitar-me. Na loja, no colgio, na agncia do correio, distraa-me;  noite [pg. 253] ficava horas pensando maluqueiras, rolava no colcho, contava as pancadas do relgio da sala, buscava o sono debalde. Levantava-me, acendia a lmpada de querosene, pegava um romance, estirava-me na rede, lia at cansar. O esprito fugia do livro: necessrio reler pginas inteiras. Inquietao inexplicvel, depois meio explicvel. O diagnstico pouco a pouco se revelava, baseado em pedaos de conversas, lembranas de leituras, frases ambguas que de chofre se esclareciam e me davam tremuras.
     Aquilo ia passar: os outros rapazes certamente no viviam em tal desassossego. MAS a ansiedade aumentava, as horas de insnia dobravam-se, e de manh o espelho me exibia olheiras fundas, uma cara murcha e plida.
     Recompus gradualmente o vesturio. Dispensava luxos, mas no sairia calado em tamancos, metido em roupas de algodo, sem colarinho. Obtive um terno de casimira, chapu de feltro, sapatos americanos, uma gravata vermelha. No me animava a exigir mais de uma gravata: meu pai s me permitia, rigoroso, o suficiente. Isso bastava  minha representao  no colgio, no quinzenrio, nas sees da Instrutora Viosense, da Amor e Caridade, que me elegeu para segundo secretrio.
     Foi ento que vi Laura, num exame. Jovino Xavier fez-lhe perguntas comuns; notando-lhe a fortaleza, puxou por ela e declarou a anlise sem jaca. Ouviu os discursos, recebeu os agradecimentos da professora e elogiou em demasia a inteligncia e o progresso de Laura. Concordei. Invadiu-me sbita admirao, que em breve se mudou numa espcie de culto. [pg. 254]
     Mal percebi o rostinho moreno, as tranas negras, os olhos redondos e luminosos. O meu ideal de beleza estava nas donzelas finas, desbotadas, louras, que deslizavam  beira de lagos de folhetim, batidos pelos raios do luar, cruzados por cisnes vagarosos. Laura no possua o azul e o ouro convencionais, mas dividia perodos, classificava oraes com firmeza, trabalho em que as meninas vulgares em geral se espichavam. Imaginei-a compondo histrias curtas, a folhear o dicionrio, entregue a ocupaes semelhantes s minhas  e aproximei-a; encareci-lhe depois o mrito  e afastei-a. Se ela estivesse prxima, no me seria possvel concluir a venerao que se ia maquinando. Situei-a alm dos lagos azuis, considerei-a mais perfeita que as moas do folhetim.
     Duas vezes por dia, no caminho da escola, retardava o passo diante de uma casa baixa, envesgava o olhar para as janelas, ordinariamente desertas, seguia com alvio e desnimo. Se via a pequena, acovardava-me, balbuciava um cumprimento  e distanciava-me, raspando as paredes, batendo nas ombreiras das portas, sacudindo uma pilha de livros segura por dois cadaros. Andava mergulhado num devaneio. Queria libertar-me, examinar a rua, desviar-me dos transeuntes; a imagem repelida voltava, transformava-se em idia fixa, agradvel e dolorosa.
     As inquietaes que me enchiam as noites eram quase palpveis, tinham feies  e cabelos negros me acariciavam o rosto, um sopro me inteiriava. Sensaes desencontradas, assaltavam-me: ardia-me a cabea, os dedos tiritavam, frios como gelo. Impossvel suportar o contato dos lenis. Erguia-me sufocado, ia balanar-me devagar na rede. J no [pg. 255] acendia o candeeiro. Temia privar-me do fantasma, recuperar a calma. E a leitura me enfastiava: um ms a arrastar-me no Sonho de Zola, sem nenhum desejo de chegar ao fim, interpretando a narrativa a meu jeito. A bordadeira de paramentos, que se confundia com as santas de Jacques de Voragine, convertia-se em Laura, e eu a contemplava, personagem de romance tambm, num andaime, junto ao muro de uma catedral. Descia da, retomava a individualidade, entretinha-me com a garota em longas conversas.
     No conseguiria dizer alto a dcima parte daquilo: expressava-me a custo, afligia-me buscando as palavras, baralhava os assuntos e tinha um leve defeito de pronncia: engolia dd e tt. A voz abafada, cortada de hiatos, inaudvel. O discurso que fiz na Amor e Caridade foi um desastre: na vizinhana da tribuna findava o burburinho. Quando Mrio Venncio teimava em reputar-me um embrio de novelista, retraa-me duvidoso: no seria capaz de arranjar um dilogo.
     Ali, na escurido, a lngua perra se desligava, perguntas e respostas afluam claras. Essas entrevistas eram curiosas. Havia em Laura a boca vermelha, o sorriso cndido. Longas pestanas lhe ensombravam os olhos, as varandas da rede mudavam-se em cabeleira negra. S. Laura no tinha corpo  e a se originou o meu tormento. Eu suprimira as indecncias. Embrulhara com dio O Cortio em muitas dobras de papel grosso, amarrara-o em muitas voltas de barbante forte, escondera-o por detrs dos outros volumes, na prateleira inferior da estante. Apontavam no romance passagens cruas  e a contaminao me horrorizava. Do naturalismo apenas conservava O Sonho, e no queria [pg. 256] supor, com Mrio Venncio, que a bordadeira de paramentos fosse degenerada.
     Certo no existia alma em Laura; indignava-me, porm, reduzi-la a um organismo' sujeito as exigncias comuns. Livrei-me do apuro fluidificando-a. Perisprito, o perisprito a que Dr. Mota se referia com segurana. Ningum pode abraar um perisprito. Enfim evitava pensamentos: recorria a um meio de justificar a estranha glorificao.
     Nesse estado, o sono me apavorava. Tinha sido um refgio. Inficionara-se. Quando vinham bocejos e as plpebras esmoreciam, eu saltava da rede, passeava no escuro, arrimava-me  cmoda. As pernas arrastavam-se  cama, vergavam. O torpor me agarrava e estendia  e dava-se a abominao. Laura surgia de novo, no a figurinha transparente: um ser membrudo e espesso, todo carne e osso. Os braos rijos seguravam-me, o peito largo caa sobre o meu, achatava-me, e era intil qualquer esforo para desprender-me. Eu desejava acordar, fugir ao pesadelo, restituir  criana as qualidades anteriores: de algum modo me sentia responsvel pela medonha substituio. Angstia, arrepios. E despertava arquejando, mordendo os beios, em desespero. Bicho, bicho monstruoso  e afundava na tristeza, pedia a morte. As iluses quebradas, em cacos. Tinha nojo de mim mesmo. Sujo, precisando gua e sabo. Mas isto no me limparia, as manchas eram indelveis. Dormir, esquecer a viso poluda. A noite no acabava, e s vezes a misria se reproduzia. Terror, depois lassido, repugnncia.
     Levantava-me cedo, tomava o caf, dirigia-me ao Paraba. Talvez o caf me prejudicasse. Uma extensa lavagem, mergulhos e braadas. Com certeza [pg. 257] a minha gente perceberia o caso lastimoso. Devia ser efeito do caf, um excitante. Abstive-me dele e bebi ch de folhas de laranja, sem proveito.
     Durante o dia ocupava-me em reconstituir penosamente o dolo partido. Ao regressar do colgio, ia assistir aos ensaios na Escola Dramtica Pedro Silva. No assistia. Insensvel  declamao, esgueirava-me para trs dos bastidores, emboscava-me a uma janela, observava a cozinha de um prdio baixo, o quintal, onde floresciam roseiras. Apitos de trens, barulho de mquinas, carroas estrondeando no calamento, numerosos cargueiros, estalos de buranhm. Isso misturava-se ao drama sanguinoso, em cinco atos e um prlogo, que decorria ali perto, alm da floresta de pano, obra de Joaquim Corrento. O que me interessava era o jardim. Uma palmeirinha acenava-me de longe, sacudia-se, fazia-me promessas, que ordinariamente falhavam. No obstante o rumor da rua, a tagarelice casada  voz do ponto, idas e vindas nas tbuas, tudo em redor permanecia deserto. Aferrava-me  espera intil. Escurecia; os amadores guardavam as partes, deixavam o palco; o Pereira da iluminao, de escada ao ombro, subia a ladeira, ia acender os lampies; as flores desbotavam; os leques da palmeirinha despediam-se, quase negros. Espionagem perdida. Bem. Necessrio voltar. No dia seguinte o vulto de Laura surgiria entre as plantas, como um claro.
     Afinal houve resmungos: estranharam na Escola Pedro Silva a assiduidade, o esquisito amor ao teatro, que eu revelava dando as costas  cena, os cotovelos fincados no peitoril de um janela. Assustei-me. Iriam conhecer o meu segredo? Se pudesse abrir-me com algum, narrar alegrias e decepes,m [pg. 258] talvez conseguisse alvio. As confidencias eram impossveis.
     Constantino, caixeiro novo da loja, autor de letras vulgarizadas no Dilculo, reparou no abatimento e aconselhou-me, quis apresentar-me a Otlia da Conceio. Recusei a proposta, vexado. Propriamente no a recusei: fugi do assunto ignbil. Ao mesmo tempo achava-me ridculo, gaguejava, acanhado. Mas os horrores noturnos cresciam, as olheiras se aprofundavam e alargavam na magrm plida. E o moo renovou o conselho, citou o Dr. Garnier, ameaou-me com a loucura. Realmente a obsesso j me havia endoidecido um pouco. Tergiversei, relutei, sucumbi.
     Um dia, ao lusco-fusco, demos um passeio, enveredamos pela Rua da Palha, entramos numa sala escura. Constantino falou baixo a algum e retirou-se. Ao cabo de instantes vi-me num quarto, examinando, srio e encabulado, fotografias e santos que ornavam a parede, caixas de p-de-arroz e frascos expostos na mesa forrada de papel. Otlia da Conceio,  beira da cama, esperava em silncio. Arriei sobre a mala pequena e, em silncio tambm, comecei a descalar-me. A vista se turvou, os dedos tmidos tremeram, o cordo do sapato deu um n cego. Esforcei-me por desat-lo: molhava-se de suor, cada vez mais se complicava. E o meu desgosto era imenso.
     Entrei em casa nauseado, engolindo soluos.
     Correram semanas. Adoeci. A artrite amarrou-me  espreguiadeira, o meu desgraado corpo se cobriu de manchas. Capengando, abri a estante, exumei O Cortio, desempacavirei-o, restitu-o  convivncia dos outros romances. No me inspirava [pg. 259] curiosidade. E j no era objeto de averso. Histria razovel, com alguma safadeza para atrair leitores.
     Embrenhava-me agora em novelas russas. Entrevado, submerso na lona da cadeira, tentava erguer um brao dodo, mexer os dedos, volver as pginas.
     A figura que me perseguia  noite serenou e fugiu. E a outra, nuvem colorida, evaporou-se. [pg. 260]
     [pg. 261] Ttulo
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Graciliano Ramos e o 
Sentido do Humano
     
     
     
     
     
     Octavio De Faria
     
"Mas, isso provm do fato de eu no ter estima por mim. Pode, porm, um homem que se conhece a si mesmo, estimar-se, mesmo um pouco que seja?"
     DOSTOIEVSKY 1
     
     Se Infncia me parece ser o livro mais importante de Graciliano Ramos  no o melhor, que certamente  Angstia   que s vejo um caminho seguro para a compreenso do fenmeno literrio chamado Graciliano Ramos, a criao levando ao criador e o criador levando  criana, ao menino que existiu nele e nunca morreu inteiramente. Em Graciliano Ramos, o menino Graciliano  tudo. Seus heris so o menino, sua timidez  a do menino, seu pessimismo  o do menino, sua revolta  a do menino. Em uma palavra: o sentido que tem do humano  o que o menino adquiriu no contato com os homens que o cercavam, com quem travou as primeiras relaes, de quem recebeu as primeiras ordens, que conheceu nas suas inmeras fraquezas. Os homens...
     Os homens, variaes do homem  desse homem no qual o menino se transformou, contra quem lutou a vida inteira, mas que jamais conseguiu dominar inteiramente. Os homens, reflexos do homem  desse homem no qual o menino jamais pde acreditar e confiar, pois foi desde cedo que o [pg. 263] conheceu em todas as suas caractersticas de intolerncia e desamor, falsidade e hipocrisia  desse homem de quem suas Memrias (Infncia) nos do um to pungente retrato (ou auto-retrato) quando nos contam certa passagem da convivncia do menino Graciliano com as filhas de Seu Nuno: "Essas moas tinham o vezo de afirmar o contrrio do que desejavam. Notei a singularidade quando principiaram a elogiar o meu palet cor de macaco. Examinavam-no srias, achavam o pano e os aviamentos de qualidade superior, o feitio admirvel. Envaideci-me: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram, trouxeram-me desconfiana. Percebi afinal que elas zombavam, e no me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara. Em geral me diziam com franqueza que a roupa no me assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidenciados, e eu considerava estupidez virem indic-los. Dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malcia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatveis assombrava-me  e pela primeira vez ti de mim mesmo. A doura picante no me reformava,  claro, mas exibia-me como eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate me houvessem dado os recursos indispensveis. Satisfazia-me a idia de que a minha figura no provocava inevitavelmente irritao ou desdm, e as novas amigas surgiram-me compreensivas e caridosas. Guardei a lio, conservei longos anos esse palet. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das minhas aes cor de macaco. Pacincia, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele  realmente: chinfrim e cor de macaco"...2 Assim, nessa recordao aparentemente to insignificante, vemos surgir, atravs do mido e desconfiado menino Graciliano, todo o futuro vulto literrio do grande e modesto, precavido e lcido, extraordinrio Graciliano Ramos.

* * *
     Impossvel  desde logo se v  falar de uma infncia feliz. Ou amena. Ou incolor. Pelo contrrio, raramente elementos [pg. 264] adversos se conjuraram a tal ponto para criar, ao redor de uma criana, insegura e tmida, medrosa, confusa e pouco consciente de qualquer qualidade superior, tantas foras de nivelamento e asfixia, de renncia aos pendores naturais. Se o menino pouco (ou quase nada) tinha conscincia de sua singularidade, de um qualquer valor que o tornasse merecedor de um interesse, de um cuidado maior, menos ainda o tinham os que o cercavam, desde os mais prximos (pais e avs) at os mais distantes (orientadores e professores primrios). Os que o viram nascer, tanto quanto os que o assistiram crescer e patentear as primeiras reaes ante o mundo, no o diferenciaram de um outro qualquer, medocre, quase nulo, ou semelhante a no importa que criatura desprovida de qualidades, grandes ou pequenas, fsicas ou intelectuais. Olharam-no, viram-no, ouviram-no, e nele no perceberam seno o ser triste e pobre, feio e magro, insignificante e turvo, quase embotado, de que seu prprio testemunho nos d conta em tantas e tantas ocasies. Ouamo-lo falar ( e em variadas vezes, por isso mesmo to mais significativas): "Em conformidade com a opinio de minha me, considerava-me uma besta"3, ou "... mas era bruto em demasia" 4, ou "Eu tinha o juzo fraco e em vo tentava emendar-me: provocava risos, muxoxos, palavres"5, ou "Eu era meio parvo, todos se impacientavam com a minha falta de esprito"6, ou "Aos nove anos eu era quase analfabeto"7, ou ainda "Eu nunca revelara nenhum gnero de aptido"... 8
     Em casa, nenhuma afetividade maior. Pelo contrrio, o mais ferrenho regime de patriarcado, rigoroso e cego, fechado a qualquer compreenso e simpatia mais humana e generosa. A desconfiana era geral. Tanto assim que, tal como ele prprio testemunha, nessa poca: "Bem e mal ainda no existiam, faltava razo para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figuravam na ordem dos acontecimentos, partiam sempre de seres determinados, como a chuva e o sol vinham do cu. E o cu era terrvel, e os donos [pg. 265] da casa eram fortes. Ora, sucedia que minha me abrandava de repente e meu pai, silencioso, explosivo, resolvia contar-me histrias. Admirava-me, aceitava a lei nova, ingnuo, admitia que a natureza se houvesse modificado. Fechava-se o doce parntese  e isto me desorientava".9
     Nesse ambiente, os pais, quase tiranos, incompreensivos, freqentemente singulares, instveis, ele desde logo os caracteriza para a posteridade: "...um homem srio, de testa larga, uma das mais belas testas que j vi, dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, bossas na cabea mal protegida por um cabelinho ralo, boca m, olhos maus que em momentos de clera se inflamavam com um brilho de loucura. Esses dois entes difceis ajustavam-se. Na harmonia conjugai a voz dele perdia a violncia, tomava inflexes estranhas, balbuciava carcias decentes. Ela se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que nos batiam no cocuruto, dobrados, e tinham dureza de martelos".10 Ele, "terrivelmente poderoso, e essencialmente poderoso"11, gritador, xingador, vaidoso, mesquinho, quase inconsciente de suas limitaes, avaro... pois, "s no economizava pancadas e repreenses. ramos repreendidos e batidos".12 Nenhuma ternura, nenhuma generosidade no julgamento paterno: "Reprodutor mesquinho, sujeitava-se  moral comum  e naquela bno engrolada ao amanhecer e ao cair da noite (que dava  filha natural,  extraordinria Mocinha) havia a confisso de que lhe faltava o direito de cobrir muitas mulheres, gerar descendncia numerosa. Cobria e gerava, mas devagar e com mtodo. Era um patriarca refletido e oblquo, escriturava zeloso os seus escorregos sentimentais".13
     Mas, pior ainda,  o amargurado retrato... ou julgamento materno: "O que nessa figura me espantava era a falta de sorriso. No ia alm daquilo: duas pregas que se fixavam numa careta, os beios quase inexistentes repuxando-se, semelhantes s bordas de um caneco amassado. Assim permanecia, contendo bocejos indiscretos. Mida e feia, devia inquietar-se, [pg. 266] desconfiar das amabilidades, recear mistificaes. Quando cresci e tentei agrad-la, recebeu-me suspeitosa e hostil: se me acontecia concordar com ela, mudava de opinio e largava muxoxos desesperadores.14 (Ah! aquele "palet cor de macaco", a me tambm o trazia consigo!...)
     Naturalmente, o ambiente domstico era difcil. E os choques, inevitveis, no cessavam de se produzir. A propsito de tudo e a todos os momentos  dos objetos que desaparecem (o cinturo...) e das dificuldades do estudo, das ocasies em que o menino Graciliano se chocava com a intransigncia e a incompreenso dos pais, como naquelas em que o revoltava a injustia, privada ou social, com que deparava. O menino crescia, o menino enfrentava os primeiros problemas srios da vida e eis que s encontrava,  sua volta, indiferena, a cegueira de uma disciplina que no conhecia contornos nem atenuaes. Nenhuma compreenso, nenhuma simpatia ou mo estendida que o auxiliasse a fazer face ao mundo exterior. Mesmo no caso, no dolorosssimo caso da doena de olhos que o perseguiu na meninice, torturando-o durante "semanas e semanas", a ponto de ele ter de viver "na treva, o rosto oculto num pano escuro, tropeando nos mveis, guiando-me s apalpadelas, ao longo das paredes. As plpebras inflamadas colavam-se. Para descerr-las, eu ficava tempo sem fim mergulhando a cara na bacia de gua, lavando-me vagarosamente, pois o contato dos dedos era doloroso em excesso".15 A par disso, os apelidos na intimidade, os tristes, os deprimentes apodos: "bezerro-encourado" e "cabra-cega" (dados, ambos, por sua me... E confessa: "Minha me tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia. Dava-me dois apelidos: bezerro-encourado e cabra-cega.")16...
     Assim,  sua volta, tudo  julgamento e disciplina, regra cega e ininteligente que detesta e tem de detestar, que rejeita e rejeitar, desde ento, at o final de sua obra e para todo o sempre.
     Sem quase nenhum carinho, sem maior afeto, s identificando injustias e incompreenses  sua volta, como naquele triste e equvoco caso do mendigo Venta-Romba, por acidente [pg. 267] tratado quase como um cangaceiro qualquer 17, cresce o menino Graciliano, inconformado e revoltado, tornando-se at mesmo "insolente e grosseiro", em casa, depois da priso de Venta-Romba18  to indcil e anti-social que s encontra simpatia e afinidade entre desclassificados e "ignorantes" (seus melhores mestres, segundo confessa)19, verdadeiros "humilhados e ofendidos", espcie de escria social que "mitos obsessores" do tipo Amaro vaqueiro, Padre Joo Incio, Cirilo de Ingrcia, Seu Ivo etc.  e, principalmente, Jos Baa, personificaro, para ele, no s no maior momento de sua obra criadora (Angstia), como nos melhores instantes de sua plenitude literria. (Infncia)
     
* * *
     
     "Enorme tristeza por no perceber nenhuma simpatia ao redor"... 20  esse, sem dvida, o impacto fundamental na experincia de Graciliano Ramos em relao ao mundo. Esse mundo desprovido de carinho e de amor, banhado por uma desconfiana total,  o mundo que, mais tarde, suas obras de criao artstica vo reproduzir.
     Muito se falou do "pessimismo" de Graciliano Ramos. Falou-se, tornou-se a falar, insistiu-se na sua agressividade em relao ao mundo. Mas, quase nunca se salientou que, na verdade, no foi ele o agressor  o mundo  que o foi em relao a ele: o ambiente familiar, a escola, o meio fsico, Buque, Viosa. O pessimismo decorreu: foi apenas um reflexo num espelho polifacetado...
     Certo, em sua obra, no faltaro depoimentos de que no eram cor-de-rosa os culos com que via os homens. Desde os mais negros pensamentos do Lus da Silva de Angstia, at o painel de Vidas Secas, desde a mesquinhez do ambiente da cidadezinha de Caets ou da fazenda de Paulo Honrio em S. Bernardo, at a massa de recordaes ainda midas de sofrimento de Infncia,  sempre o mesmo quadro cinzento e triste, quase asfixiante, o que encontramos disseminado em toda a sua [pg. 268] obra. E at mesmo em depoimentos singelos como os das Histrias de Alexandre, vamos deparar com esse mesmo estado de esprito de desiluso e ceticismo que faz o bom e digno Alexandre dizer ao amigo Firmino, ora num tom ora noutro, a mesma concluso nica: "Tudo neste mundo  canoa furada..." 21 ou ento: "O que tem valia no dura, Seu Firmino."22
     Pessimismo? Simples pessimismo? No creio. Na verdade, para Graciliano Ramos no se tratava seno de dar testemunho da verdade  da verdade humana  da realidade que estava gravada nele desde menino, de reproduzir o mundo que vira, que era ele prprio, corpo e alma de sua existncia. (Eis por que me parece que fala bem o lvaro Lins que se refere  "libertao de um homem que se evade de um mundo que detesta"). 23 Sim, a coincidncia das imagens  as da infncia e as do escritor j homem feito  no  seno o sinal mais sensvel da sua admirvel fidelidade  verdade humana,  exatido dos fatos,  implacvel realidade exterior que no sabe e no quer disfarar ou deturpar. Por demais escrupulosa? s vezes quase fantica? Mas, como poderia deixar de ser assim, se o homem que escreve, que corrige, que "tortura", que se exacerba no aprimoramento do texto, no  seno o menino desconfiado, vigiado, espezinhado, em quem ningum v qualidade alguma e os mais prximos, por mais afeio que no ntimo lhe tenham, s sabem descobrir defeitos: preguia, lentido no aprendizado do alfabeto e das primeiras letras, parvalhice, juzo fraco etc, etc?
     A reao desse menino, o lento tomar de conscincia das dificuldades a superar, do melhoramento a conseguir, da perfeio a procurar (seno a atingir), do polimento final,  eis a obra de Graciliano Ramos. Um homem em busca do menino que ele foi, um escritor em luta para ter o direito de publicar o que lhe vem  mente dizer  eis tambm, e em sntese, o caminho literrio do ficcionista cujas razes brotaram da infncia de Infncia para atingir a esplndida florao de S. Bernardo e Angstia, de Vidas Secas e Insnia. [pg. 269]
     No poderia deixar de ser um caminho spero, bem rduo, dos mais penosos, durante o qual o gotejar de sangue do menino, que s prprias expensas aprende a lio da vida, e o do escritor, que tenta reproduzi-la com o mximo de honestidade e rigor literrio, formam um tecido dos mais dolorosos que conheo  e, tambm, dos mais complexos, intricados, cheios de idas e vindas, o passado invadindo constantemente o presente da criao artstica, a fico dando cor e fazendo sangrar ainda mais as recordaes da meninice, Angstia e Infncia se confundindo, se interpenetrando, se completando, emergindo como um grito, desesperado e alucinante, de criana abandonada em plena hostilidade do mundo.

* * *
     
     "Escreve com teu sangue e vers que sangue  esprito"24, ensinava Nietzsche, na palavra de seu Zaratustra  e no foi seno com sangue que Graciliano Ramos escreveu, ao longo de sua vida, desde as primcias de Caets e S. Bernardo, at as "despedidas de Infncia e Memrias do Crcere, sem falar na obra de plena maturidade e de mxima realizao: Angstia, acompanhada de alguns verdadeiros "captulos extras" que so, na verdade, vrios dos contos de Insnia (como "O Relgio do Hospital", "Insnia", ou "Paulo"). O sangue que vinha gotejando desde a primeira meninice (e Olvio Montenegro confirma esplendidamente a tese, quando diz: "O menino Graciliano aprendeu a ver e conhecer as pessoas como ele aprendeu a ler   prpria custa e suando sangue") 25, esse sangue que a incompreenso e as injustias sociais arrancaram, primeiro de seu esprito (desde cedo predispondo-o contra a "autoridade", como ele prprio confessa, ao comentar o episdio de Venta-Romba)26, depois de seu prprio corpo (e cada pgina de Infncia  "Um Incndio" como "Minha Irm Natural" (M,ocinha), "Venta-Romba" como "A Criana Infeliz"  e cada linha de Memrias do Crcere, no testemunham seno nesse mesmo e idntico sentido), esse sangue, engrossado, [pg. 270] tumultuado pelo sofrimento ntimo e pela compaixo humana provocada e exacerbada pela contemplao da misria de sua 'terra de origem, vai constituir o magma em que sua obra se vai vazar e condensar, esplendendo na concretizao mxima de sua fora criadora que  Angstia.
     Tudo aquilo que vinha sendo represado nele, a luta entre o menino e o homem, entre o pai e o filho; depois, entre o regional e o universal, o objetivo e o subjetivo, o particular e o humano, como que explode nessa verdadeira orquestrao de loucura e crime, de sofrimento e dio: Angstia. Tudo o que de mais recndito e maldito, recusado e complexado, havia no menino de Buque e Viosa, tudo o que "sobrava" das mgoas ntimas do episdio do palet cor de macaco, invade, violento e como que a contragosto, o esquema inicial do romance. A curva que vinha de Caets  mximo de objetividade do romancista, no obstante todas as "contribuies pessoais" canalizadas para o heri, Joo Valrio , passando por S. Bernardo com a sua frieza quase machadiana e o seu rigor estilstico de encomenda "gracilinica"  chegava a um extremo de subjetividade em Angstia, funo da fora quase dostoievskiana com que as "recordaes" da infncia invadiam a "intriga" inicialmente proposta pelo romancista e passavam a domin-la, impondo-se ao tumulto interior do heri, Lus da Silva, o mais autntico "caet" do autor de Caets.
     So realmente essas recordaes que, atravs das vozes da memria de uns e de outros, do cabe Jos da Luz, de Rosenda, de Padre Joo Incio, de Teotoninho Sabi, do velho Acrsio, de Sinha Terta, de Antnio Justino e, sobretudo, de Jos Baa, cangaceiro amigo, e de Amaro Vaqueiro (e so, no nos esqueamos, "personagens" de Infncia  das Memrias reais, portanto), levam para a frente, impelem mais e mais Lus da Silva a estrangular Julio Tavares  forando-o mais, muito mais, do que os prprios personagens obsessores de Angstia (essas "Memrias irreais", se assim se pode dizer): esses vultos chamados Seu Ivo, Seu Evaristo, Cirilo de Engrcia, Moiss, Pimentel etc.
     Caso realmente impressionante, esse do romance Angstia em que os personagens obsessivos da memria real tm mais fora e mais poder sugestivo (tanto sobre ns, leitores, quanto sobre as aes do heri) do que certos personagens criados pelo romancista  e isso explica bem o que poderemos chamar as duas velocidades de narrao em Angstia ou o que Joel Pontes [pg. 271] to bem distinguiu em sua "ao", isto : a "ao reflexa intensa" e a "ao propriamente dita, lenta e cheia de meandros".27
      verdade que h inmeros casos mistos, como o desse Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, o av (no romance Angustia), mas que, evidentemente,  um personagem composto de "recordaes" de Infncia: quem sabe, do av e do prprio pai do romancista. E h os outros "vultos" de Angstia: Seu Ivo, Seu Evaristo, Cirilo de Engrcia, confusos, s vezes disformes, e que  bem possvel que pertenam cio mundo de uma "provvel" "Adolescncia" que acaso, um dia, viesse continuar Infncia e sobre a qual Graciliano Ramos silenciou... ou no teve tempo de falar. (Tambm, em Insnia vamos encontrar muitas, inmeras referencias aos temas de Infncia).28
     Seja como for, o que importa salientar nesse tumulto de vozes em torno de Lus da Silva  vozes da memria "ressurgidora" ou da criao artstica   a influncia decisiva que vo ter nos movimentos do heri, na sua precipitao pelo caminho do crime. Naturalmente, elas no s o acompanham como um coro ou uma espcie de espelho (que fosse espontaneamente deformante), como agem, participam de seu tormento interior, incitam-no a agir, instigam-no na direo que as suas mais jecretas resistncias procuram evitar que tome. Funcionar, at como certas "idias" em relao aos heris de Dostoievsky: tentam-nos, zumbem  volta deles, no esmorecem diante das primeiras recusas, insistem, tornam a tent-los, at que, uma vez tendo conseguido ser recebidas, fixam-se, instalam-se, acabam por domin-los inteiramente, levando-os aos ltimos limites de suas possibilidades secretas. Assim, perfeitamente semelhantes, as vozes que Lus da Silva ouve  tremendas , que refeita, que torna a ouvir  praticamente quase inaudveis  e que, se nada de declarado lhe dizem em relao ao crime, so, no entanto, como que o nico clima em que ele pode brotar e se desenvolver: os prprios dias precursores [pg. 272] do crime. Acompanham-no, persistentes e sorrateiras, e eis que, ao acaso de uma espreita, j penetraram nele, j o envolveram, j o lanaram nesse torvelinho de dio e morte, impossvel de dissipar ou deter. O crime surgir quase forado, ordenado (mas, por que foras?...), como se as nulos do criminoso tivessem horror do ato em si, mas no pudessem deixar de execut-lo. Pois, at um desgnio frio, quase annimo e multplice, conduziu toda a ao. Inclusive, a arma do crime, foi involuntariamente que veio ter s mos do criminoso

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     E  nesse ponto que o Lus da Silva de Angstia mais se ope ao Paulo Honrio de S. Bernardo. Aqui o clculo frio, gelado, desde a conquista material da fazenda dos Padilha at o casamento com Madalena e a constituio convencional da famlia  ali o sentimento desvairado, o barco atirado em pleno oceano das paixes e dos imprevisveis clculos alheios. Paulo Honrio, egosta, ciumento, invejoso, cnico, vil por natureza, margeia o delito e sempre o evita  Lus da Silva (no fundo nem melhor nem pior do que ele)  a vtima do crime pela sua fraqueza, pela mesquinhez de seu temperamento, preguioso e ablico. E, no entanto, dizem todos  e no h como recusar a evidncia da constatao  so, ambos, possveis imagens de Graciliano Ramos que neles se d, corpo e alma  verdadeira "projeo dele prprio", como bem diz Adolfo Casais Monteiro 29  como est, todo ele, no Joo Valrio de Caets e no Fabiano de Vidas Secas. Ento, como explicar a aparente contradio, o choque de tanta atividade e tanta passividade anmica?
     No vejo maior dificuldade em eliminar a antinomia. Como a maioria dos autnticos romancistas, Graciliano Ramos  um autor, um criador que se d, em cada obra, em todas as suas "possibilidades" para melhor procurar testemunhar sobre o homem, isto : para melhor encontrar o homem. Pois, esse  o objetivo supremo de sua busca, de sua "curva" sobre si mesmo, sobre o menino que ele foi, sobre o ser adulto em que as asperezas do mundo acabaram por transform-lo. Assim, se assume [pg. 273] tipos variados de humanidade, desde o extremo egosmo de Paulo Honrio at o do mediano Joo Valrio, ou mesmo, do nfimo Lus da Silva  todos trs, como vimos, no passando de "projees" dele prprio  todos trs vivos, psicologicamente diversos, criaes literrias vlidas, autnticas   sempre o homem o fenmeno essencial, bsico no seu testemunho. Ou, como melhor do que ningum disse Antnio Cndido: "...no mago de sua arte, h um desejo intenso de testemunhar sobre o homem, e tanto os personagens criados quanto, em seguida, ele prprio, so projees deste impulso fundamental, que constitui a unidade profunda de seus livros".30
     Atravs as variaes dos diversos personagens  e at mesmo no Fabiano, de Vidas Secas, que lhe pede emprestado a voz para que, pela primeira vez, fale na 3.a pessoa do singular  o que encontramos  a busca rigorosa, impiedosa mesmo, do humano puro, do sentido essencial do depoimento humano. Nenhuma concesso, nenhuma trucada. O mesmo rigor que tem em relao aos outros, observa-o em relao a si mesmo,  pureza do seu testemunho, sempre integralmente honesto.  uma situao em que no conhece amigos, nem os distingue dos desafetos. S aceita como vlido um testemunho: o da realidade, o da verdade dos sentimentos, dos fatos, das coisas que seus olhos vem. Esse  o seu verdadeiro, mais legtimo sentimento do humano. Se  pessimista ou no (e importa determinar, j agora?...), no sabe. Nem cuida do problema, no se detendo sequer em analis-lo. Sabe que fala do homem, de suas misrias e fraquezas, de sua natureza, vria e problemtica, de seus mltiplos sofrimentos, da calamidade que  a sua triste condio sobre a terra. E sabe que, assim falando, fala de tudo quanto o rodeia e aflige, do homem de sua terra natal e das terras que lhe so vizinhas  de terras sobre as quais, na hiptese de Olvio Montenegro, "a misria pesasse como uma maldio" 31 , to bem quanto do homem do Sul ou do Centro, do Brasil total, ou de outros Brasis que pelo mundo acaso se estendam...
     Porque  sobre a natureza humana, seu sentido mais profundo, que sua busca incide e se espraia, assumindo todos os admirveis coloridos e matizes que sua obra proporciona e [pg. 274] define. E  por isso, sem dvida, que, independente de suas qualidades propriamente literrias  que, aqui no nos preocupa marcar e que, at o fim da vida, manteve sob as mais fortes e injustificveis suspeitas (e, nesse sentido, vejam-se, em Memrias do Crcere 32, as curiosas "dvidas" com que, da priso, acompanha a publicao de Angstia)  seu depoimento tem para ns a maior e a mais inestimvel das importncias. Pois se, por um lado, revela em Graciliano fiamos uma das figuras espirituais mais fortes e significativas que tivemos, capaz de sobrepujar todas as vicissitudes no seu purssimo testemunho do esprito e de merecer aquela "admirao sem rebuos"  qual Joel Pontes se refere 33, por outro lado, traz, atravs a obra do ficcionista e, principalmente, do romancista, o mais impressionante e indiscutvel dos testemunhos sobre a condio humana, o sentido do humano nas diversas imagens do homem a que d cor, dimenso e vida. [pg. 275]
Fim


     
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1 F. Dostoievsky  "Zapiski iz podpolia" ("Mmoires crits Dans Un Souterrain"  trad. francesa  Ed. Bossard, 1926  pg. 32).
2 "Infncia" (Livraria Jos Olympio Editora  1955 - pgs. 187-88).
3 "Infncia" (pg. 192).
4 "Infncia" (pg. 193).
5 "Infncia" (pg. 198).
6 "Infncia" (pg. 199).
7 "Infncia" (pg. 189).
8 "Infncia" (pg. 118).
9 "Infncia" (pg. 19-20).
10 "Infncia" (pg. 14-15).
11 "Infncia" (pg. 28).
12 "Infncia" (pg. 29);
13 "Infncia" (pg. 152).
14 "Infncia" (pg. 37).
15 "Infncia" (pg. 131).
16 "Infncia" (pg. 131).
17 "Infncia" (pg. 217).
18 "Infncia" (pg. 223).
19 "Infncia" (pg. 113).
20 "Infncia" (pg. 109).
21 "Alexandre e Outros Heris" (Livraria Martins Editora S. A.", 1966 - (pg. 71).
22 "Alexandre - Outros Heris" (pg. 91).
23  lvaro Lins - "Jornal de Crtica" - 2.a Srie - (pg. 82).
24 F. Nietzsche  "Also Sprach Zarathustra" (A. Kroner Verlag, Leipzig, 1930 - pg. 41).
25 Olvio Montenegro  "O Romance Brasileiro" (Livraria Jos Olympio Editora, 1953 - pg 227).
26 "Infncia" (pg. 223).
27 Joel Pontes - "O Aprendiz de Crtica - I" (Departamento de Documentao e Cultura da Prefeitura Municipal de Recife, 1955  pg. 113).
28 "Insnia" (Livraria Martins Editora S. A., 1965 - pgs. 40, 48, etc).
29 Adolfo Casais Monteiro  "O Romance" (Livraria Jos Olympio Editora, 1964 - pg. 166).
30 Antnio Cndido  "Graciliano Ramos" ("Nossos Clssicos"  v. 53 - Livraria Agir Editora, 1961 - pg. 8).
31 Olvio Montenegro  ob. cit.  (pg. 229).
32 "Memrias do Crcere" (Livraria Jos Olympio Editora, 1956 - v. II, pgs. 83-84 e 99; v. IV, pgs. 83-85).
33 Joel Pontes - ob. cit. (pg. 132).
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